sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O mal que JK nos causou


(Publicado no ano de 2006 em: http://www.aconfraria.com.br)

O que pensou Juscelino Kubitscheck quando ousou assumir, como prioridade de governo, a transferência da capital federal do Rio de Janeiro para o planalto central? É claro que nenhuma má intenção lhe passou pela cabeça. O projeto era antigo, com raízes no Segundo Reinado, mas seja qual tenha sido o hálito histórico que ambientou todo o processo – hoje completamente documentado – a consequência refletiu na política brasileira como uma bordoada mal dada, cujo nocauteado foi a população. O que hoje nos aflige e nos derrota é o distanciamento físico entre o político e seu povo.

Acabou o corpo-a-corpo, a vaca das reivindicações foi para o brejo com corda e tudo, a pressão popular cujas raízes remontam à Revolução Francesa esvaiu-se, quando se quiseram reunir milhões de pessoas para clamar pela restauração da democracia, a responsabilidade caiu sobre o Rio de Janeiro e São Paulo. Lula como líder sindical no planalto seria uma tragédia satélite, uma piada sem quintal.

 O distanciamento da sede político-administrativa das grandes metrópoles implantou e trouxe consigo a pior de todas as tragédias políticas ao gerar e fazer nascer uma teocracia até então inimaginável: a democracia ditatorial. Aquilo que parece mais não é: a perpetuação de uma ordem política na qual a ética e a estética são descartadas de revés.

Na antiga capital federal, o Rio de Janeiro, o Senado ficava bem ali nos costados da Cinelândia, um reduto de tradição rebelde e revolucionária, onde até mesmo as reivindicações de ordem homossexual derrubavam convenções. Era o ponto do teatro, do cinema, das boates e, portanto das bichas velhas e das recém-assumidas. Qualquer movimento errado das autoridades, qualquer passo em falso, qualquer escândalo mesmo menor, logo provocava a reunião do populacho disposto a redirecionar os transviados.

A Câmara dos Deputados ficava logo ali na Praça XV de Novembro, ao lado ao Paço Imperial que já era, desde o tempo do Império, palco que refletia a efervescência social e política da época. A república chegou e permaneceu sujeita aos mesmos tremores, as reuniões que pautassem assuntos de mérito raramente ocorriam no silêncio pacífico dos gabinetes. O alarido lá fora ecoava em cada ouvido como a lembrar de que o eleitor estava atento ao deslize de seus mandatários.

Os estudantes tinham uma atuação política mais fecunda e conviviam no entorno do poder. A UNE era ali na Praia do Flamengo a quinze minutos do centro; a Faculdade de Direito, na Praça da República, mantinha o Largo do CACO (Centro Acadêmico Cândido de Oliveira), em perene ebulição; a Faculdade de Filosofia, na Praça Itália, fazia vizinhança ao Restaurante Central dos Estudantes, o famoso Calabouço (Sede da UME), fundindo estudantes secundários e universitários num só elemento. O Ministério da Guerra, que nunca foi um órgão popular, tinha de conviver com a grande massa de trabalhadores que todos os dias os trens despejavam na Central do Brasil.

Quando JK tomou coragem para se antecipar à história estava escrevendo a própria história. No entanto em tudo que ocorreu entre a ideia, o projeto, a implantação, a inauguração e a transferência dos poderes para o planalto central, em nada transpirava a intenção de destravar o político do povo, o mandatário do voto, a promessa da cobrança. O papel de vilão sobraria para prefeitos e vereadores, se já não viesse do alto a desmoralização das gestões, carregando de impotência desmoralizadora qualquer sentimento de reação. Terceirizou-se o poder.

A câmara dos deputados, o senado, o poder judiciário, estabelecidos numa praça que não é a Praça XV de Novembro, ao lado ao Paço Imperial – o Palácio da Alvorada – deixou de ser o palco capaz de refletir a efervescência social e política, necessários ao debate das questões importantes. Não há mais o debate entre o político e o povo, a população não tem como se pronunciar, Brasília enterrou o plebiscito, a passeata, como a TV enterraria o comício.

O isolamento do poder numa redoma protetora fez com que aumentasse a sensação de impunidade, fazendo crescer demasiado o rebanho das ovelhas negras. Quem tiver mérito e paciência pode se dar ao trabalho de fazer a estatística que, no entanto, está bem latente: a nova capital promoveu também os casos de corrupção mais escabrosos, que passaram a ter uma magnitude inconcebível, alçando-se a cifras imagináveis, num país que todos os hóspedes do Palácio da Alvorada consideram pobre.

 A república que chegou depois da ditadura permaneceu sujeita aos mesmos tremores. As reuniões que pautam assuntos de mérito agora ocorrem no silêncio soturno dos gabinetes. O alarido ficou lá fora, bem longe, não mais ecoa nos ouvidos dos políticos a lembrança de que o eleitor é o responsável direto pelos mandatos e mantém o direito de cobrança. O poder hoje se exerce acobertado pelos ternos e jaquetões impecáveis, etiquetados pelos melhores estilistas italianos.

A transferência da Capital do Rio de Janeiro para Brasília acabou com a cobrança direta –, nenhum presidente se suicidará no Palácio da Alvorada.


A construção de Brasília de fato colocou o nome de JK num patamar elevado da história, levou nome do Brasil ao cume da modernidade, não só pela joia arquitetônica que a cidade representa, mas também pela audácia e coragem ao transformar um empreendimento árduo e utópico em realidade. Essa aura de modernidade, porém, não impregnou o espírito ético dos políticos, ao contrário, transformou o ideal numa mácula, o exercício da democracia em tragédia nacional. Alguém duvida?  
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