segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Gregor Samsa passou aqui


Certa noite acordei aos gritos escapando de um pesadelo intranquilo que costuma se meter entre os meus sonhos indecentes e me deixar arfando com taquicardia como se tivesse corrido uma maratona inteira me senti como se estivesse metamorfoseado em algum ser sobrenatural. Sentia minhas costas doloridas e duras como couraça, o ventre abaulado em excessiva flatulência, a pele amarronzada dividida em fibras arqueadas como as de um besouro monstruoso. Ao levantar um pouco a cabeça vi no espelho que meu tronco se apartava do pescoço, prestes a deslizar para outro espaço que mal se sustinha. Abaixo de meus olhos minhas pernas tremulavam desamparadas em estado lastimável e mais finas em comparação com o resto do corpo. 

– Que merda aconteceu comigo?

Agora não era mais sonho. Olhei em volta do meu quarto, um autêntico quarto sub-humano: pequeno demais, calmo, de quatro paredes, porta e janela, mobiliário bem conhecido. Roupas penduradas aqui e ali, cheiro de mofo vindo do piso de tacos. Sobre a mesinha se espalhava o mostruário de tecidos de quando eu fui caixeiro viajante e um tabuleiro de xadrez com a partida em meio jogo. O ventilador rodava no teto roncando como um motor de helicóptero.
           
Dava para ver na parede esquerda emoldurada em dourado a irada imagem de Marilyn Monroe deitada sobre um lençol vermelho em posição recostada de joelhos dobrados, pés levemente sujos, erguendo o braço esquerdo que expunha toda a sensualidade da axila depilada, recortada da revista Playboy de janeiro de 1955. Olhando pela a janela vi o tempo turvo de nuvens enfarruscadas, algumas gotas da chuva batendo no vidro da janela me deixaram idiota e melancólico com a boca salivando.

Voltei a vista de novo para a foto de Marilyn, imaginando estar ali ao lado dela esparramado sobre o lençol de cetim vermelho e chupando aquele sovaco meio suado – e comecei a me masturbar. Depois lavei as mãos e consegui me levantar. Fui à cozinha e requentei um copo com o resto do café e leite do dia anterior, fritei o pão quase mofado na margarina, bebi e comi a mistura com um comprimido de cafeína. Estava sozinho e resolvi fazer algo que me tirasse daquela situação incômoda. Ainda era de madrugada e assim como o cérebro embotado pelo álcool, as nuvens chuvosas deixavam o ambiente em idêntico lusco-fusco. 

Acordar assim deixa a pessoa palidamente desbotada. O ser humano precisa ter o sono como se fosse mulher de harém. Quando volto no começo da manhã da padaria muita gente ainda está sentada no sanitário se desfazendo dos resíduos digeridos ontem para encarar o café da manhã. Eu não! Comigo não! Meu nome é Elesbão.

– Que droga! Não consigo fazer isso com o espírito que tenho: voaria no ato para a rua. Aliás, quem sabe não seria muito bom para mim? Se não me contivesse por causa dos preconceitos e convenções teria podido há muito tempo me postar diante da vida e feito o que penso do fundo do coração. Bem, ainda não renunciei por completo à esperança: assim que juntar o dinheiro para pagar as dívidas, isso deve demorar ainda de cinco a seis anos, vou fazer isso sem falta. Chegará então a vez da grande ruptura! Por enquanto tenho de me libertar dessa estranha submissão. Mas ainda estava risivelmente morto de ressaca, com uma baita dor de cabeça e ânsia de vômito. Minha gastrite se irritara com a quantidade de burbom que havia ingerido e como vingança ecoava a raiva por toda a parede estomacal.

Afastar o lençol foi muito fácil, precisei apenas inflar um pouco o tórax e ele caiu sozinho no chão depois de um peido. Mas daí em diante as coisas ficaram mais difíceis porque me sentia largo e gordo como um americano comedor de hambúrguer com bacon e bebedor de cerveja de arroz. Outra merda: tenho precisão de braços e mãos para me erguer, ao invés disso só disponho de alguns cambitos desarticulados que fazem os mais díspares e incontroláveis movimentos. Se quisesse dobrar um deles era o primeiro a esticar, se conseguia realizar algo com essa perna as demais se moviam na mais fodida e dolorosa agitação como se estivessem soltas e fossem independentes. É mole?

Sentei-me diante do notebook, entrei no Youtube e pus-me a ouvir La Risurrezione di Cristo, de Lorenzo Perosi, diante da página em branco do Word pronto para escrever a continuação de um conto que espicha e ameaça se transfigurar em novela ou algo parecido e assim dissipar as agruras de tão tortuoso pesadelo. Foi então quando o asqueroso Gregor Samsa se aproveitando do vento forte que sopra antes das tempestades passou voando sobre minha cabeça e pousou o corpo repugnante na cortina. Reparei bem: era o próprio Gregor Samsa jovem atlético de asas viçosas pernas de esportista e anéis ventrais brilhantes. O malacafento era grande e musculoso.

Estivessem aqui todos os moradores da pensão na presença desse nojento e sairiam correndo em busca de socorro, outros se armariam com paus e pedras, chinelos e inseticidas para atacar de morte aquela aberração da natureza. Eu não! Comigo não! Nem interrompi meus escritos nem deixei de ouvir o belíssimo oratório. Dei uma olhada na cortina onde pousara o repelente Gregor Samsa e pelo que vi ele reparou no meu olhar guante e odioso pois o repulsivo fantasma deu outro voo que lançou sombra por debaixo da lâmpada e foi tão rápido que não consegui determinar a rota. Sumiu. O execrando fugiu covardemente à vista das minhas intenções mais cruéis e repelentes. Não voltará é certo! Estarei armado com o Defense System: kill bugs on contact, kill bugs at the source, keep bugs out. Foda-se Gregor Samsa!

E foi o que em absoluto aconteceu. Jamais a criatura voltou a espargir as asas asquerosas sobre minha cabeça nem mais ousou revoar pela sala pousando nas cortinas e paredes. Nunca mais o vi nem mais senti seu odor fedorento recender no ambiente ferindo-me de ácido as narinas. Só algum tempo depois, um mês mais ou menos a faxineira dona Anelise ao varrer o meu cubículo encontrou o cadáver de Gregor Samsa. Primeiro ela tentou acordá-lo brincando com ele e dizendo algumas palavras obscenas. Depois de limpar a gosma branca que sempre ele expelia pelas dobras de gordura cutucou as asas com a ponta do chinelo. Nada. Levantou a saia e mijou sobre o ventre dele – coisa que Gregor Samsa gostava pois ria muito. Nada.   

Ainda hoje não sei por que dona Anelise aceitou vir trabalhar aqui. Ao saber que o horrendo Gregor Samsa sem convite algum tinha se hospedado em meu quarto todas as faxineiras da redondeza se recusaram a cuidar da limpeza da minha adorável morada. Menos dona Anelise. Isso me deixou desconfiado, vocês sabem, as faxineiras tem a má fama das ciganas: são ladras, agourentas, feiticeiras, praticam artes adivinhatórias. Por isso não me furtei a pesquisar logo na internet o significado de Anelise para conhecer melhor com quem estava lidando.

Pedaço aqui, pedaço ali, deu um súmula razoável: seu nome significa “pequena graciosa” ou “pequena cheia de graça”. “Deus dá tudo para essa mulher graciosa” ou “Deus dá dinheiro para essa mulher cheia de graça”. Embora não seja possível comprovar a origem do nome Anelise, é provável que o nome Ana faça parte do seu étimo. (Cortei essa merda e outras de igual valor de tão claro e óbvio). De acordo com estudiosos da onomástica (mais besteiras). Anelise também pode ter vindo do hebraico. Nesse sentido o significado do nome Anelise é “Deus é abundância para essa mulher cheia de graça”. Trata-se de um bonito nome feminino que reflete delicadeza e aproximação com o divino.

Isso foi suficiente para me manter alerta e evitar que Anelise obtenha algum dinheiro que não venha de Deus e sim de meu bolso vazio. Mas tal presunção onomástica não me afeta nem levo a sério ainda que fantástica. Aqui mesmo está a contradição: dona Anelise era toda desfavorável ao que presumia a intenção do nome: era baixinha, gorda, antipática, as bochechas cheias como se escondesse um biscoito furtado de cada lado. Não tinha “graça” nenhuma. Não sei o que Deus daria a ela a não ser a oportunidade de aliviar todos os clientes ricos e pobres de alguns bens. Por isso tenho que tomar cuidados além dos comprimidos para baixar a pressão e diminuir a ansiedade quando ela está aqui.

Esta dona Anelise (que o diabo carregue para bem longe o seu corpo defunto) não servia nem para dar um amasso ou meter as mãos entre as coxas obesas grudadas uma na outra nem para chupar as tetas anormais. Por outro lado acredito que Gregor Samsa não teria se hospedado aqui se dona Anelise estivesse presente naquela noite fatídica. Com a habilidade que ela tem no manejo do objeto de trabalho ela teria aposto violenta traulitada interrompendo o voo elegante abatendo o infeliz de uma porrada só pegando-o em pleno ar.

– Seu Elesbão venha ver: o seu amigo bateu as botas! – gritou ela no jargão comum das faxineiras.

– Como assim – perguntei – quem morreu? Meu inimigo Gregor Samsa, esse monte de bosta fedorenta enfim bateu as botas? Respondi no mesmo jargão. E por via das dúvidas segui para o quarto armado com o poderoso Defense System: kill bugs on contact, kill bugs at the source, keep bugs out. Caso Gregor tenha resistido aplicaria duas baforadas dessa arma química sobre o corpo abominável e pronto o desprezível voaria de vez para os quintos dos infernos!

– É o que estou tentando dizer seu Elesbão, cáspite! – disse Anelise e para comprovar o que descobriu empurrou para o lado o cadáver com a vassoura.

Não sei por quais razões sentimentais ou instintivas ameacei um gesto para deter a vassoura em seu movimento vil. Também por instinto fiz o sinal-da-cruz e a graciosa mulher seguiu meu exemplo. A coitada da Anelise não desviava os olhos religiosos do cadáver como uma freira ao corpo inerte de Cristo.

– Veja só como ele estava magro caramba! Também, fazia tempo que não comia nada sólido, só algumas migalhas e farelo de pão. Ademais, assim como entrava tão rápido a comida saía de novo líquida, branca, gosmenta...

De fato o corpo de Gregor estava reduzido às proporções naturais de sua espécie: plano e seco, as perninhas dobradas, as antenas diminutas encolhidas – nada mais tinha para se olhar e ainda assim exalava um fedor nojento.

– Entre um instantinho – disse a senhora com o sorriso mais melancólico que pôde arranjar, não sem olhar para trás na direção do cadáver. Antes ela fechou a porta e abriu completamente a janela. Embora fosse manhã cedo já se anunciava o calorão natural do fim de março.

– Qualé? – perguntei.
           
Dona Anelise estava junto à porta sorridente como fosse anunciar a grande boa notícia, mas fazia cu doce. Ela balançava a vassoura num vai e vem durante a execução do serviço, sacudia o rabo em todas as direções como uma dança, gesto que me irritava, como ela bem sabia.

– O que é que a senhora está querendo afinal? – insisti.

– Ah, sim – respondeu Anelise empunhando a vassoura como se fosse um fuzil AK 47. – O senhor não precisa se preocupar com o jeito de jogar fora essa coisa aí. E com trejeito mímico apontou o polegar para os restos do lastimável e querido Gregor. – Deixa comigo e ficará tudo em ordem. – Com um gesto rápido e profissional passou a vassoura, recolheu o corpo inerte na pá e sem delongas atirou o pobre Gregor Samsa na lixeira.  


Rio de Janeiro, Cachambi, 4/5 de dezembro de 2016. 
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