quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um dia direi que te amo


Rumo às praias. Dia ensolarado e quente que prometia se estender pelo feriado que colou ao fim de semana. Seriam quatro dias de lazer. Mário dirigia em baixa velocidade pela estrada velha, mesmo porque o trânsito era intenso no sentido dos balneários. Marília cochilava ao lado. Na pista oposta não: os poucos carros passavam velozmente, os motoristas dos ônibus, caminhões e carretas estavam ansiosos por terminar o serviço e também aproveitar as poucas horas de folga com a família e amigos. Mário aproveitou o espaço que se abriu à sua frente e acelerou mais rápido. Ficou de olho numa carreta que se aproximava veloz e tirou o pé do acelerador. A carreta ainda distante freou forte e a fumaça azulada subiu dos pneus que derrapavam no asfalto quente.

Carretas na estrada! Mário sabia: são veículos loucos e assassinos que precisam de mais de cem metros para iniciar a obedecer a qualquer comando do motorista, por isso puxou a direção um pouco mais para a direita invadindo o acostamento. Foi o suficiente para poder se defender do container que a carreta trazia e que com a freada súbita se deslocou para o lado dos carros que iam em direção às praias. Marília acordou sem entender o que ocorria. O violento giro do reboque atingiu dois carros à frente antes de Mário ver a quina de aço se aproximar. Não tinha mais pista, não tinha mais acostamento. Marília se segurava ao porta-luvas com os dois braços de olhos arregalados. Sem poder evitar o choque o único jeito que Mário encontrou foi girar mais à direita e atirar o pequeno carro no rumo do barranco cheio de pedras, mato e arbustos.

Agora estavam num quarto de hospital. Mário cochilava dopado por conta da medicação. Além de estar com o braço esquerdo imobilizado, ele sofreu várias escoriações que se espalhavam por todo o corpo. A perna esquerda doía demasiado, mas não o impedia de andar. Marília sofreu muito mais com os choques no barranco e nas árvores. Ela dormia inconsciente naquele estado que os médicos chamam coma induzido, para que o organismo como um todo, concentre seus esforços na recuperação. Além do oxigênio tinha uma agulha enfiada no braço direito, por onde recebia o soro que a alimentava. Alguns aparelhos mediam a pressão sanguínea e cardíaca, que era anunciada por um monitor que emitia um bip-bip regular e constante. Segundo todas as avaliações, dentro de dois ou três dias ela estaria recuperada e todo aquele aparato seria desmobilizado.

Quando Marília despertou no tempo aprazado se alegrou ao ver a mesinha cheia de buquês de flores. O quarto estava vazio, a cortina flutuava sob a leve brisa, Mário ainda com as escoriações enfaixadas com curativos dormitava numa cadeira bem próxima ao leito com um livro semiaberto nas mãos. Ela pegou o livro com todo cuidado para não despertá-lo, tentou ler algumas páginas, mas em pouco tempo seus olhos se fecharam de novo vencidos pela fadiga. Pouco tempo depois foi a vez de Mário acordar e vendo o livro com Marília tratou de chamar o médico.

Depois de vários testes o médico examinou o fundo dos olhos de Marília enquanto a enfermeira media a pressão. Não se verificando nenhuma anormalidade ele retirou o tubo plástico infiltrado na boca e garganta:

– Bom, parece que está tudo bem. Tente mover as pernas.

Marília acedeu à ordem e conseguiu dobrar ambas as pernas levantando-as até o joelho. Depois de ver o olhar aliviado tanto do doutor quanto de Mário ela começou a rir sem parar. Mario se aproximou dando beijos, acariciando os cabelos acalmando assim o nervosismo disparado pelo exame. O principal temor de todos era que Marília perdesse o movimento das pernas.

– Com mais alguns exames e poucos dias de repouso para completar a recuperação terei que devolvê-la para casa, disse o médico sorrindo. Sua garganta ainda irá doer por uns dias, mas isso é bobagem. Beba água gelada.

A alegria pelas boas notícias refletia nos olhares. Mario não tinha vontade de responder ao semblante preocupado de Marília. – O que aconteceu? – era a pergunta que soava na cabeça Del. Em vez disso Mario procurou outro assunto.

– Então andou lendo o meu livro.

– É verdade. Você estava cochilando. Peguei o livro sem te acordar e comecei a ler algumas páginas. Aí foi a minha vez de cair no sono de novo...

– Você está cansada, eu estou cansado. O melhor lugar para nós dois é a casa. Tomara que amanhã já estejamos liberados. Ah, sua mãe esteve aqui com Irene. Depois veio seu pai. Dona Nely trouxe sanduíche de queijo e maçãs. Imagine! Claro que roubei de você e comi tudo.

Marília riu e tentou falar alguma coisa, mas levou a mão à garganta que ardia e doía como se estivesse sendo arranhada.

– Não diga nada. Depois teremos todo tempo do mundo para conversar.

– Mas acho que já li esse livro, ela disse com algum esforço, a voz rouca.

Mario não esticou a conversa. Fazia sinal de silêncio com o dedo indicador nos lábios quando entraram dona Nely e Irene. Ele se levantou, abraçou e beijou a sogra e a cunhada.

– Que bom que vocês vieram! Assim terei tempo de sair e cuidar de algumas coisas. Olhando para Marília: – Vou antecipar minhas férias e arranjar uma secretária para nos ajudar em casa.

Dona Nely logo protestou a essa última observação: – Nada disso, eu cuido da minha filha! – dando muita ênfase ao EU. Mário riu e aproveitou para se despedir. Saiu com o pensamento ligado na frase de Marília sobre já ter lido o livro. Como poderia ter lido se ele havia comprado na banca de lançamentos da livraria?

Quando viu Mario lendo no quarto silencioso, o médico deu a recomendação padrão:

– Já que está lendo, leia em voz alta. Ajuda e acelera em muito a recuperação. Quando puder, converse sobre coisas comuns.

Mas isso de ler a viva voz e falar sozinho é coisa a que ele não estava habituado, por isso continuava a ler em silêncio até que se lembrava da recomendação e passava a murmurar o que estava lendo. Nas horas sem leitura Mario se aproximava bem perto do ouvido dela e conversava. O que dizia acabava sendo qualquer frase sem nexo, que vinha à cabeça leviana e saudosa dita na esperança de vê-la boa e saudável – e isso o deixava desnorteado.

Agora em casa ele esperava a hora certa para esclarecer aquela história do livro. Certa vez, para detonar o assunto, pegou o livro que já havia terminado de ler e fingiu reler as últimas páginas.

– Eu só não entendo porque você escolheu um assunto assim, uma mulher em estado terminal, lutando contra um mal incurável. Será porque eu estava no hospital?

– Na verdade eu nem li a sinopse, nem a orelha. Comprei apenas pelo título. Achei bonito, romântico, não sei mesmo. Foi impulso. Mas a personagem não está em hospital. Nem luta pela vida, como seria de pensar. Foi levada para casa e a luta se voltou para seguir o fio da vida ou da doença seguindo critério pessoal: ela se recusou a tomar qualquer medicação. 

– Hum. Entendi. Isso é heroísmo puro. Aqui não tem isso: o hospital é quem manda no destino do paciente. 

Emile ganhou a batalha e foi levada para casa. Lá chegando encontrou um ramo de flores do campo e um poema:

Cem vezes direi que te amo, se com isso conseguir fazer com que tua face de novo resplandeça em luz, e que teus olhos assim iluminados tornem a celebrar nossas vidas.
Mil vezes direi que te amo, sim, cortando o silêncio com que a rudeza e o trabalho taparam minha boca e secaram minha voz.
Cem mil vezes direi que te amo, para rever a cor de pétalas rosadas que surgem em teu rosto incendiado quando terminávamos de fazer amor.
Direi que te amo, droga, porque desconhecia quão preciosa é essa palavra que impulsiona a vida e faz com que os pulmões se encham de ar quando se precisa de força e coragem. 
Mil dias direi que te amo como o disse em oração quando me despedia nas manhãs frias indo para o trabalho e à noite ao voltar a casa fatigado...

– Isso me traz a lembrança de determinado cara...

Marília usou todo o talento para dar ênfase ao sarcasmo que acompanhou a observação. Mario murchou de repente pego em flagrante delito. Só que ela não sabia que muitas vezes quando acordava à noite ele ficava espiando aquela mulher que dormia a seu lado e se imaginava na manhã seguinte dizendo eu te amo. Mas as tarefas se antecipavam, os afazeres tomavam contas das manhãs e as palavras não saíam. Afinal, dizia para si mesmo tentando se redimir, eu te amo é uma frase que circula tão farta e falsamente nas redes sociais que se tornou vulgar usá-la.

Emile e Marília quebraram suas vidas como uma estrada em forquilha. Cada qual foi para um lado. Emile lutou para ter o direito de sair do hospital no qual fizera um tratamento quimioterápico cruel e voltar para casa. Lutou para ter de volta a sua varanda, os passarinhos que saltitavam na janela beliscando alpiste, semente de girassol, maçãs e outras frutas deixadas ali. 
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