terça-feira, 20 de setembro de 2016

Da inutilidade de rabiscar livros


Você não pode escrever nada sobre si mesmo que seja mais verdadeiro do que você mesmo é. Esta é a diferença entre escrever sobre si mesmo e escrever sobre objetos externos. Você escreve sobre si a partir da sua própria altura. Não sobe em pernas de pau ou numa escada, mas está sobre seus próprios pés.
(Ludwig Wittgenstein)

O escritor maranhense Joaquim Itapary tem uma biblioteca de dar inveja. Somos primos e toda vez que tenho oportunidade dou jeito de fuçar seus livros para breve leitura. Estávamos juntos no Rio de Janeiro quando ele comprou Tirant lo Blanc, de Joanot Martorell. Não poder eu também ter em mãos um exemplar desse livro de cavalaria que conheci através do Dom Quixote me trouxe pesadelos. Cobrei dele a promessa (não cumprida) que depois me emprestaria. Numa cena curiosa do romance de Cervantes, os amigos de Dom Quixote queimam sua biblioteca por conta de achar que os livros de cavalaria eram os responsáveis pela loucura aventurosa que quase lhe custou a vida.

E sem querer mais ler livros de cavalarias, mandou a ama pegar todos e atirá-los ao pátio. Isso não foi dito à tonta nem à surda, mas a quem tinha mais vontade de queimá-los do que deles tirar teias, grandes ou delgadas que fossem. Ela pegando oito de cada vez atirou pela janela. Jogando assim muitos, um caiu aos pés do barbeiro, que teve curiosidade de saber o que era e viu que se chamava História do Famoso Cavaleiro Tirant lo Blanc.

– Valha-me Deus! – disse o padre soltando um grito. – Temos aqui o Tirant lo Blanc? Me dê ele aqui compadre, faço conta de ter achado nele um tesouro de contentamento e mina de passatempos. Aqui está Dom Kiriéleison de Montalbán, valoroso cavaleiro e seu irmão Tomás Montalbán e o cavaleiro Fonseca, e a batalha que o valente Tirante fez com o alão; as agudezas da donzela Prazer-da-minha-vida, com os amores e trapaças da viúva Descansada; a senhora Imperatriz, namorada de Hipólito, seu escudeiro.

Resultou que daquela inaudita cremação o padre só deixou salvar quatro obras. Uma delas foi a edição espanhola de Tirant lo Blanc (1511), de Joanot Martorell. As demais eram: Diana (1558) de Jorge de Montemor; o Palmeirim de Inglaterra (1547), de Francisco de Morais; as publicações avulsas das Églogas del excelentísimo Camões. Publicado em 1490, Tirant lo Blanc reúne todas as aventuras da tradição cavaleiresca, sem descuidar da condição humana dos personagens, pois os cavaleiros comem, e dormem, e morrem em suas camas, segundo está no Dom Quixote:

– Deveras vos digo compadre, que por seu estilo é este o melhor livro do mundo: aqui comem os cavaleiros e dormem e morrem em suas camas e fazem testamento antes de sua morte, juntamente com todas essas coisas de que todos os demais livros deste gênero carecem. Posto isto, digo-vos que merecia o que o compôs, pois não fez tantas asneiras que o pusessem na prisão por todos os dias da sua vida. Levai para casa e leia verá que é verdade tudo quanto dele vos disse.

Pois foi esse Tirant lo Blanc de Joanot Martorell, um livrão de 850 páginas traduzido direto do catalão por Cláudio Giordano (Ateliê Editorial 2004) que meu primo teve a petulância de comprar e na minha frente enfiar debaixo do sovaco pra nunca mais me mostrar, apesar das lamentações e meu implorar de joelhos.

Certo dia em que visitava o homiziado em São Luís eis que vejo na mesinha de centro da sala um livro. Era o próprio! Estava ali à minha frente o Tirant lo Blanc que eu tanto ambicionei ter nas mãos. Mal abro, emocionado, o volume o que vejo? Centenas de frases marcadas em amarelo, marcadas em rosa, sublinhadas. Folheio as mais de 600 páginas – vejo que tá tudo igual: rabiscos, notas à margem, acima, comentários a textos, números de referência.

Horrorizado abandonei o belo volume ali e nunca mais sonhar ler. Não aquele exemplar. Ler um livro desse jeito rabiscado e marcado é como comprar uma revista de palavras cruzadas com todos os problemas resolvidos. Como cada leitor é um novo leitor, o livro rabiscado só serve a quem rabiscou.

Feito esse preâmbulo, de cuja memória ainda me traz pavor, é hora de perguntar: – A que serve? Comecei a ler e escrever ainda adolescente, portanto naquela atitude natural não havia um por quê nem para quê. Não fazia sentido, nada foi planejado, ler era puro instinto, um tipo de psicografia adquirida que Freud não explica. A leitura que eu fazia era cumulativa e quantitativa na confiança que o cérebro bem alimentado terá condições de regurgitar o que apreendeu como nova obra, adaptada ao seu tempo.

Por isso é que a literatura se gera através da reescrita, releitura de variações sobre os mesmos temas, em novas épocas. Toda arte carece de uma arte anterior. Essa lembrança caótica veio trazida pela leitura do artigo Da utilidade de rabiscar livros, de Barbara Maidel e está em: barbaramaidel.blogspot.com.br, texto que me deixou de certo modo enfarruscado. Então esta a minha reação, na qual uso muitas vezes palavras da própria autora.

A primeira dúvida que o texto me trouxe é: terei sido um leitor ou um não-leitor? Muitas pessoas viram em minha sala estantes abarrotadas de livros e também perguntavam se eu já tinha lido todos. Claro que não, explicava, tem muitos livros que são apenas para consulta, como os quase cem dicionários, enciclopédias, etc. Mas ao contrário de Joaquim Itapary e Barbara Maidel, sou um bibliófilo (vá lá) relapso. Me desfiz de todos os livros que acumulei... Para depois recomprá-los.

Como me senti humilhado ao ser pego no segundo método de identificar o não-leitor, segundo Barbara Maidel: a exaltada repulsa a livros riscados. Odeio livros riscados como odeio revistas de palavras cruzadas já preenchidas. Odeio ver alguém apertar o bumbunzinho da lapiseira na mínima presença de um livro aberto. Fico horrorizado ao ver parágrafos sublinhados, acho feio, um desperdício. Como outra pessoa irá ler o livro desse jeito?

Entendo como puro egoísmo o leitor jamais passar um livro adiante só porque já foi lido. Um livro delirante terminado de ler é mais uma razão para ser difundido a outras pessoas para que possam também se maravilhar.

Quem é o obsessivo-compulsivo que vai ler esse livro arrebatador e [não] sentir necessidade de marcar nada, assumir que o livro é excelente e não doá-lo para alguém ou alguma entidade? Obsessivo-compulsivo, eis aí uma boa definição para quem acha que rabiscar um bom livro é quase um dever. Ter a humildade de reconhecer o fiasco desse ato, é apenas um lenitivo: Nem todas as minhas experiências com rabiscos de livros são boas: tal livro, inutilizei-o com sublinhados; aquele outro, errei ao maculá-lo – diz Barbara.

A confissão soa como mea culpa, mas pode ser um erro de perspectiva. Serve ao caso o que disse Ludwig Wittgenstein: Estipulamos regras, uma técnica para um jogo e depois ao seguirmos as regras as coisas não se passam como tínhamos suposto. Estamos como que presos em nossas próprias regras. Neste caso Joaquim Itapary e Barbara Maidel estipularam regras das quais não podem se libertar, mas que em algum momento se mostraram inúteis, fracassaram.

Senão vejamos o que Barbara Maidel escreveu: O que estou fazendo agora que terminei de lê-lo e rabiscá-lo? Estou relendo o que marquei. Por quê? Porque é muito difícil apreender tudo de um livro de uma leitura só. A primeira leitura serviu para meu entendimento amplo de tudo, para que eu tentasse organizar os conhecimentos do livro. Agora posso reler o que está organizado de acordo com o meu gosto de ordem. 

Falemos agora entre leitores habituais. Todas as justificativas que Barbara Maidel dá para inutilizar os livros que lê caem por simples aritmética. Ela diz que lê em média três livros por mês. São 72 livros em dois anos. Desses, suponhamos que 32 não eram eternos. Sobram 40 bons livros lidos em dois anos.

Aritmética pura: serão 400 livros em dez anos (o dobro em vinte anos) – e cada releitura que ela faz conta como outra leitura! Por mais que sejamos superdotados não teremos condições de localizar o que foi rabiscado. Ademais, do jeito que o tempo avança célere, em dez anos muito do que foi escrito e riscado estará obsoleto.

Uso suas próprias palavras: As conexões estão perfeitas e não preciso forçar meu cérebro a lembrar de todas as passagens importantes dos 40 livros bons que li nos últimos dois anos. (...) Dentro de cada livro de minha biblioteca há uma pequena biblioteca, com capítulos e páginas catalogados conforme os assuntos. 

Outras justificativas para ela mesma:

* Meus rabiscos salvam meu eu futuro de agonia. 
* Livros rabiscados são lindos para seu dono, mas emprestá-los é um erro, geralmente. A marcação feita por outra pessoa influencia nossa leitura, nossa atenção.
* Rabiscar livros é para quem tem o hábito de ler deitada e vai para a cama ou para o sofá com o livro e uma lapiseira para ir marcando e rabiscando.
* Aos que leem e não marcam, não organizam, não sintetizam: não sei como vocês vivem.
* Não quero incentivar o desespero, a queima de cidades e bibliotecas por causa do pânico. Mas acho que é hora de rever o modo como se lê, que é quase tão importante quanto aquilo que se lê. Seja o tipo de leitor que você gostaria de ter se fosse um bom autor.

Ou será preguiça, comodismo? Que tal pegar um caderno ou fichas para fazer as notas? Ou mesmo no tablet? Comece com os dados: autor, título, ano, editora, assunto. Aí é só fazer as anotações e as páginas respectivas. O texto é longo? Anote as primeiras e últimas palavras. Seja como for tem mil métodos de fazer a mesma coisa sem destruir o livro.

Creio que Barbara Maidel e Joaquim Itapary – dos quais sou leitor incondicional – estão prestes a se perder no labirinto que inventaram para si mesmos, ao seu gosto de ordem. Repito: rabiscar livros é puro egoísmo! Não me entra nas dobras cerebrais que alguém leia um livro excelente e não o passe adiante – ou não o guarde – tão imaculado como adquiriu.

Realces, rabiscos, sublinhas, parecem me indicar o quê devo ler, o quê devo entender, tira de mim a liberdade de interpretar, de arrevesar o entendimento do que leio, de sonhar meu próprio sonho ou pesadelo. Sei que esta lamentação em defesa do livro limpo não surtirá efeito. Sei que muitos livros Brasil afora estão assim desfigurados, estuprados, sem salvação. Ainda uma vez me valho da palavra inspirada de Ludwig Wittgenstein:

Do fato de que a mim ou a todo mundo pareça ser assim, não decorre que seja assim. Mas o que podemos nos perguntar perfeitamente é se há algum sentido em duvidar disso.

Rio de Janeiro, Cachambi, 20/09/2016
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