segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Arte de criar periquitos

Foto Coave.org

A Paz reina na terra...

Ao entrar na loja de artigos para aves descobri a paixão de Pereirinha por periquitos. Na calçada diante da porta principal, chama a atenção a enorme gaiola cheia de periquitos, os mais variados possíveis, deixando empolgado quem vê. Elogiei a beleza das cores, o talho mavioso das estrias, o desenho das penas artisticamente traçado, a leveza da composição formada, as formas artísticas e a beleza do conjunto.

– Olha quanto passarinho bonito, disse.

– Passarinho não, Aníbal, periquitos, periquitos australianos. Os mais bonitos e inteligentes do mundo. Campeões de todas as raças, em todas as competições!

Ao denunciar minha santa ignorância a respeito de pássaros em geral e dos periquitos em particular, ganhei a primeira bronca de Pereirinha. E ficou claro que a razão do sem razão a outra razão enfraquece, pois enfim, sobre periquitos eu sabia que não sabia nada.

– E não estão nada bonitos – Pereirinha tinha o fito de me abater no ar, em pleno vôo – muito pelo contrário, as lojas costumam tratar mal os periquitos. É uma ave especial, igual gente, melhor, é gente mesmo, beleza inata, expressão divina de Deus. Aníbal, você precisa ir ver os que eu tenho lá em casa. Que boniteza, sim senhor!

Foi assim que tomei conhecimento da fama de criador de periquitos que Pereirinha tinha granjeado. Fomos comprar ração (Alimento, Vitamina, Comida, diz Pereirinha), coisa muito fina, escolhida meticulosamente. Composição, componentes, prazo de validade, tudo examinado, principalmente se era produto transgênico, definitivamente proibido.

– Tem de ser alimentação muito boa, saudável, específica. Estou levando alpiste, xerém de milho branco, aveia, combinados no ponto certo, alguns são importados. Brasileiro, como sempre, só faz porcaria. Se alimentar meus periquitos com qualquer coisa fabricada em fundo de quintal, sem controle de qualidade, mato o coitadinho na hora.

Ao passar pelo verdureiro, Pereirinha seleciona molhos de chicória e espinafre, verdinhos, úmidos, frescos, algumas espigas de milho verde, com os grãos macios ainda em crescimento. Pelo capricho pensa-se numa boa salada, mas são itens da dieta dos periquitos.

– Você precisa ver a farra que eles fazem com a chicória, o milho, o espinafre. Ao contrário do que dizem, não é bom pra o periquito comer alface, pois dá diarreia, maltrata o bichinho. Dá-se acelga, chicória, espinafre, que é amargoso e picante, com ferro, vitamina C, só faz bem. Alimento muito especial, iguaria igual à feita pra gente. Quando estão na cria o cardápio é reforçado com cálcio, pros filhotes crescerem fortes.

Pereirinha começou a lengalenga interminável. É um vasto conhecimento sobre periquitos. Por fim me arrastou pelo cotovelo pra ver a criação dele. Lá fui. Chegando a casa, Pereirinha me empurra direto pra cozinha, dali pra área nos fundos. Ele é aposentado e mora só. Não tendo o que fazer, dizem, Pereirinha se casou com periquitos.

De passagem vejo a pia cheia de panelas, copos e pratos por lavar. Recende o cheiro de cigarro e gordura queimada. Pereirinha escolhe a panela limpa, põe um bocado de água filtrada, salpica pitadas de bicarbonato de sódio. O cenho se franze, Pereirinha rosna: Faço isso pra tirar o veneno que esses agricultores de merda botam na verdura. Deixa a chicória e o espinafre de molho e vamos em frente.

– Vem ver minha família, diz orgulhoso. Muita gente cria periquitos em casa, mas os meus são sem igual. Se você tivesse máquina de fotografar, aposto que ia tirar uns retratos. Ninguém resiste ao colorido, à beleza das penas, ao arco-íris de algodão, à plumagem celestial. Veria como eles, ao se verem fotografados, fazem pose que nem gente.

Atravessamos a sala desviando de jornais velhos, sapatos, meias, cinzeiros, tralha de casa de solteiro. Pereirinha vai ajuntando o que pode aos montes sobre o sofá velho, nos móveis. Fica satisfeito com a arrumação. Ao lado tem uma varanda coberta, cheia de vasos de plantas que cresceram sozinhas, com pouco trato. No outro extremo a gaiola enorme se destaca no ambiente. 

– Aqui moram meus entes queridos, casa de gente limpa, asseada que nem a nossa.

– Que gaiola bonita! Vou de novo pelo caminho errado. O viveiro (fui prontamente corrigido), exceto a sujeira natural dos pássaros, é uma beleza. O alumínio polido brilha. Pra aprender a lição o ouço repetir mil vezes viveiro, viveiro, viveiro, tratando a gaiola como algo organizado nos moldes humanos.

– Pode elogiar, não é um lindo viveiro? Verdadeiro palácio. Aqui é a sala, ali são os quartos, suíte com sanitário, nos fundos o ninho. Nota que não se vê sujeira deste lado? É a piscina pro banho diário, os periquitos são mais asseados que muitos de nós.

O viveiro cintila de limpeza. Ao nos aproximarmos quatro ou cinco casais de periquitos fazem algazarra, pipilam sem juízo algum, trino coletivo, arruaceiro, com o poder da sirene de carro de bombeiro, ambulância, capaz de arrepiar qualquer tímpano. Fico admirado com a variedade de cores. Eles são amarelos, azuis, verdes, cinza-prata ou a combinação dessas cores. Estão sempre aos pares. Faço o elogio da beleza, Pereirinha reage feliz.

– Sabia que você ia gostar. Mas acredita que os periquitos tinham uma só cor? Eram todos verdes, tantos os australianos quanto os brasileiros. Mas a criação científica, alimentação apurada e rica, o cruzamento contínuo, resultaram matizes diferentes, de grande variedade. Hoje as feiras, exposições e campeonatos, distribuem prêmios para os mais bonitos e bem sucedidos cruzamentos. O ineditismo é ponto relevante, a cada ano surge novo matiz, a seleção se torna mais rigorosa, tudo é registrado, as associações têm um banco de dados mundial.

Rendo homenagem emocionada ouvir Pereirinha conversar com os bichinhos, chamar um a um pelo nome, com intimidade, ver como ele se transforma em criança. Acreditem, eles dialogam e respondem, beliscam os lábios de Pereirinha como se beijassem, aproximam-se arriando o cocuruto pra ser acarinhado, saltitam pra lá, pra cá. Uma festa!

– Pega ali a tesoura, por favor, Aníbal. A criação pra ser perfeita tem de ser aos casais. Sempre. Porque o periquito é que nem gente. Se deixar o macho solteiro ele vai dar em cima da parceira do outro. E como nós eles são ciumentos, briguentos, agressivos, alguns lutam até a morte. 

Vou lá dentro buscar a tesoura, varro o ambiente, os cantos, não acho. Olho a sala toda, os móveis, debaixo dos livros esparramados, garrafas de cachaça, o bar empoeirado. Nada. Essa tesoura deve estar numa pirâmide do Egito, aqui é que não encontro. Pereirinha me ouve e responde: Vê se não está na gaveta, aí, na de cima. A gaveta tem de tudo, botão, fita cassete, maço de cigarros vazio, rolha de cortiça, resultado de jogo de bicho, caixa de fósforos e, heureca, uma tesoura.

– Achei! Achei! Gritei como se tivesse alcançado o topo do Monte Everest.

Pereirinha pega a folha de papel pardo, mais outra, apara as pontas na medida do viveiro. Os periquitos sabem da limpeza, se alojam educadamente na parte superior da gaiola. Ficam observando, os olhinhos espertos, enquanto ele faz a troca, tira a folha que está molhada, suja de cocô, resto de comida, penas. Enquanto trabalha Pereirinha conversa ora comigo, ora com os periquitos.

– Já ouviu falar em ovo atravessado? É ver uma periquita de cabeça arriada, triste, jururu, está de ovo arriado, atravessado. Pra bichinha não sofrer tanto, o jeito é dar um pouco de óleo vegetal, mamona, soja, óleo de oliva é melhor, botam umas gotinhas no bico, outras no cu, pra azeitar. Fica boazinha, pode crer, periquito é quem nem gente.

Chega a vez dos alimentos. Os recipientes são retirados, lavados, secos e postos de novo nos lugares. A água dos bebedouros é trocada. Use sempre água filtrada. Sou convidado a colocar no viveiro o espinafre, a chicória, que estavam de molho, o milho verde. Bote em locais opostos, pra não haver disputa. Lembro que são como gente: se a fome ataca é que vira bicho, dá briga, até morte.

– A periquita sofre igual à mulher. Tem problema de o feto vir atravessado, com os pés pra baixo. Mas tem médico que sabe tratar. Às vezes o criador tem de ser o médico da periquita. Na minha criação só aconteceu com uma fêmea que perdi. Tive de arranjar namorada nova pra o viúvo. Deu dó...

Como Pereirinha havia antecipado, a festa dos periquitos é total. Primeiro se enroscam entre as folhas de chicória e espinafre, depois começam a bicá-las com prazer, pulam de um lado a outro, os casais trocam de lugar, uma ou outra vez algum expulsa o invasor que provocou o desequilíbrio na divisão da comida. No demais, tudo transcorre em ordem. Como gente.

– Agora bem que merecemos um cafezinho. Ou uma cachacinha ou os dois. Daqui a pouco estarão se banhando na piscina. É aquele reservatório maior. Respinga água pra todo lado. Chega mais. Vamos lá pra dentro. Você lê o jornal enquanto esquento o café, preparo tira-gosto pra a cachacinha. Esta é do interior, coisa de primeira. Vamos deixar a meninada se divertindo como gente.

Enquanto Pereirinha cavouca os trambolhos em busca da cafeteira, sento no sofá entre pilhas de coisas, papéis, objetos indefinidos. O jornal é velho, não leio. Espio o quarto de dormir pelo desvão da porta, na penumbra, a cama desarrumada, travesseiros amassados, lençol jogado pro lado, guarda-roupa com as portas abertas, camisas, cuecas, calças largadas a esmo, a TV em cores com antena de chifre, rádio e toca-discos.

– Então, que achou dos meus pupilos? São lindos não são? Gosto tanto deste plantel que vou inscrevê-lo no próximo concurso internacional. A medalha está garantida. No mínimo menção honrosa com medalha e diploma. Periquiteiros de todo o mundo vão se babar, porque o meu elenco tem os melhores conceitos: excelentes dedos e unhas, plumagem exótica, multicor, formação e linhagem nobre. Qualidade de cabeça, balanceamento, máscara, tudo beirando a perfeição.

Fica discorrendo um bocado sobre a arte de criar periquitos. Aceito o cafezinho, recuso a cachaça, mordo uma castanha de caju, depois é hora de ir. Pereirinha me acompanha até a porta, sinto o braço amigo sobre meus ombros, o tema da despedida é o mesmo: periquitos.

– Seria ótimo você montar um viveiro em casa. Vai se sentir bem e terá sempre companhia de alguém pra conversar. Ao despertar a periquitada deixa a gente alegre, disposta, pronta pra enfrentar as chatices do dia. Verdadeira terapia pode crer!

Não demonstrei a receptividade e empolgação que Pereirinha esperava. Atravessamos o pequeno jardim tratado com o mesmo desleixe, a velha roseira que disputa espaço com espada de São Jorge, os papéis trazidos pelo vento brigam com o capim e a hera, pra ele é como se todos fossem possuídos de igual beleza.

– Vai por mim Aníbal, não seria mal ter viveiro em casa. Acaba problema de pressão alta, falta de companhia, alguém com quem conviver. Vai se sentir realmente bem. Ânimo! Se tiver dificuldade, dou todas as dicas e com pouco tempo estará ganhando prêmios. Trocamos um abraço. Pensa bem na minha sugestão, vai ser ótimo.

Fico chateado por decepcioná-lo, mas como explicar que mal sei cuidar de mim e, definitivamente, não consigo compreender o ser humano, como poderia tratar e entender os periquitos?  O portão enferrujado geme, Pereirinha volta pra casa, direto ao paraíso. Antes de chegar à esquina ouço Pereirinha falar com seus pupilos, elogiar a beleza das mocinhas, repreender quem abusou do banho e molhou o papel recém-trocado. Entre ruídos, beijinhos, sorrisos, um pipilar alegre sobressai: é Pereirinha falando a fala deles – agora ele próprio é periquito.

Os periquitos que Teresa jamais viu...
               
Com Teresa não foi diferente. Encontraram-se de manhã cedo na padaria. Entre o bom dia e o até logo, Pereirinha convenceu Teresa de ir ver seus periquitos. Foi. Mas em lá chegando sequer passou do quarto. Mas seu Pereira, isto é jeito de deixar um quarto? E começou a azáfama, foi trabalho de dar dó, Pereirinha tentou, mas não foi dispensado: sem um mais nem menos, se viu envolvido no turbilhão de coisas a fazer.
               
Que periquito que nada! Era dá um pano cá, joga a tralha no lixo, limpa os cinzeiros, traz balde d'água, vassoura, escancara a janela, cuidado com a poeira, ordens tais enfim que Pereirinha jamais se deu conta que houvera de escutar. Não sabia se chorava ou ria, se negava ou obedecia. Por fim, rendido, abaixou os olhos, se entregou àquela mandona de olhos verdes, cuja voz começava a soar igual às valsas. Pereirinha sorriu feliz.

– Amanhã volto pra ver os periquitos. Teresa se despediu no portão, deixou Pereirinha na aflição de dar dó, como namorado de primeira viagem.

A limpeza imaculada deixou-o com medo de entrar no quarto. Isso que é mulher! - dizia consigo mesmo ao ver o quarto em ordem. Achou graça na arrumação, exatamente do jeito que ele gostava, o modo de pegar as coisas, a mesma ordem, o cinzeiro no lado direito da cama, o controle da TV, o jornal dobrado, revistas arrumadas em pilha, discos separados por tema.

A janela escancarada deixou entrar um raio de sol que jamais havia visitado tais paragens.  Pereirinha viu guardado com carinho tudo sobre sua criação: cartazes das exposições, fotos com amigos, recebendo prêmios, fazendo discursos. O que mais o deixou feliz, de boca aberta, abestalhado como pirralho diante de Papai Noel foi ver os quadros pendurados, diplomas, prêmios, menções, recortes de jornais, notícias em revistas, que constituíam a vitória e a glória dos periquitos.

A iluminação natural que invadiu o quarto abalou a imaginação de Pereirinha, que passou a ver tudo como se fosse cena de novela, teatro ou cinema. A magia, o milagre, o paraíso. Aquele contraste gritante entre o quarto e o resto da casa operou o prodígio. Pereirinha, lembrando os olhos verdes de Teresa, a voz musical de Teresa, as ordens peremptórias de Teresa, ajoelhou-se em agradecido silêncio, como um cavaleiro andante. Pereirinha estava apaixonado.

No dia seguinte se encontraram de novo na padaria, seguiram a rua deserta conversando. Teresa não pôde cumprir a promessa de ver os periquitos. Entrou na casa e mais uma vez não passou do quarto. Arrumou o que estava desarrumado, sem censurar. Elogiou o jeito de Pereirinha ao manter a arrumação. Pouco tinha a fazer, sentou-se na cama, tomou café, viu Pereirinha adorando-a mudo. Sentindo-se amada, Teresa arregalou os olhos verdes, despiu o vestido sépia de flores amarelas e se deitou. O sol pintou as paredes de ouro, os periquitos fizeram silêncio.

Daí em diante Teresa jamais deixou de encontrá-lo. Todo santo dia faça chuva ou faça sol, os dois vão à padaria, depois de tomar café, voltam juntos pra casa. Em caso de desencontro, ela ia direto pra casa, entrava no quarto, via o que tinha de fazer, largava os olhos verdes na face púrpura de Pereirinha e se despedia com um sorriso emocionado. Amanhã volto pra ver os periquitos. Voltava sempre, mas nunca viu.

Pereirinha sobe aos céus...
               
A rua inteira acordou com o alarido que vinha da casa de Pereirinha. Eram sete horas da manhã, os periquitos soltavam gritos num coro uníssono. Teresa, que ia pra a padaria, correu, chegou primeiro. O coração pulando. Outros vazaram pelo jardim abandonado, pisando nas rosas, quebrando as espadas de São Jorge, enterrando capim, até abeirar o degrau da varanda. Foram abrindo a porta, que Pereirinha nunca fechava. Ele nada tinha pra ser roubado. Quem iria querer um montão de periquitos que consome toda sua aposentadoria? Os vizinhos vinham aos poucos. Dona Maricota encontrou Aníbal no portão de Pereirinha. O que houve? O que foi? O que não foi? Ao ver o movimento mais pessoas chegavam. Vamos ver? Vamos saber?

Entraram esbarrando na espantosa cena: a sala estava toda tomada. Havia periquito em todo canto, sobre o sofá, na mesinha de centro, voando de cadeira a cadeira, nos espaldares, estantes. Muitos estavam esmagados pelo corpo de Pereirinha, sangue e penas se misturavam coloridos. Outros estremeciam com as patas quebradas, asas partidas, bicos rotos. Os livros, revistas e jornais se espalhavam picotados pelas avezinhas agitadas e pululantes, sujando tudo, provocando o bramido que alardeava pela rua. As aves aproveitaram a porta aberta e circulavam pelo jardim, pousavam no muro, no chão beliscando insetos, sementes de capim.

Na ânsia de chegar ao quarto, Teresa pulava raivosa sobre os pássaros. Não se contendo, gritou: Pereirinha! Ninguém acudiu. Passou da sala pra cozinha, de revés entreviu o quarto às escuras, no lusco-fusco viu a desarrumação, o corpo de Pereirinha na cama, sobre ele, sobre o lençol, no chão, em cima da cômoda, quantidade inumerável de periquitos. No quarto, pequeno e fechado, o alarido era mais ensurdecedor. Teresa estancou diante da cena. Chorou.

O silêncio tomou conta de tudo. Ouvia-se a respiração nervosa dos presentes. Teresa fungou, os olhos verdes marejados. Uma voz suspirou mais alto: Coitado! Dona Maricota se lembrou de botar comida pra os bichinhos. Como se tivessem combinado, os periquitos voltavam pra gaiola, atraídos pelas folhas de chicória. Logo, logo estariam todos trancados nos viveiros. O cuidado de se alimentar calou-lhes o bico. Ninguém notou Teresa, com as mãos trêmulas, fechar os olhos entreabertos de Pereirinha.

Antes de sair Aníbal tratou de arrumar a casa no que podia, fechou armários, guardou roupas, meteu o lixo no saco plástico. Deixa que eu cuide disso, disse Teresa. Pegou uma vassoura e começou a limpar a sujeira. Pontas de cigarro, latas de refrigerante, restos de comida. Fazia as coisas mecanicamente, mas os pés andavam por terreno sobejamente conhecido.

Aos poucos a gente foi saindo. Teresa, pálida, ao lavar a louça nem reparou as lágrimas que caem e se misturam ao detergente. 
Rio de Janeiro, Cachambi, 2003/2016
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