quarta-feira, 30 de março de 2016

Adeus aos livros




Entrando na reta final da jornada íntima que mantive durante toda a vida com os livros, por força da perda de força ou de poder, o tempo pede que a caminhada chegue ao fim ou pelo menos esmoreça em plena decadência e senectude.

Mexo na estante pra deixá-la vazia e leve como eu mesmo gostaria de ser, vazio e leve, na caixa que me levará ao crematório. Sim, terei um último prazer, a alegria final, se conseguir me portar vaporoso, breve, de pouco peso, corpo delicado e portátil, a caminho da luz que me arrebate e desprenda.

Antes que este indivíduo se desvaneça, antes que se disperse a cinza breve e se a espalhe ao vento pra sumir de vez a carcaça, ex-corpo de água, músculo e carne, é preciso deixar esvaecer-se os livros, coisa material, um corpo imenso que se exaure, purificar de vez o espaço que ocupou na estante, que então estará livre ao pó.

Ninguém senão este futuro cadáver saberá as intimidades e vícios que gozei folheando milhares e milhares de páginas, deslindando tramoias e labirintos elaborados por textos não meus e quanto esse coquetel foi ópio, maconha, álcool, boceta – vida enfim. Como poderão saber, se tudo é a jornada personalíssima da alma?

Agora não importa mais, estou com o espírito impregnado desse rito de transição fractal que permitirá o escoamento sem dores e me livrará da servidão a esse objeto material. A conjuntura é propícia, persegui a trilha, alcancei a porta que me deu acesso a Deus. Trata-se agora de mero episódio, o lance forçoso: se despedir dos livros.

O imperativo e protocolar ritual igual àquele que cometi ao guardar na gaveta do esquecimento centenas de amigos e parentes, que trilharam as mesmas veredas do conhecimento, cada qual a seu modo, cumprindo uma religiosidade de ralar os joelhos. Meus ex-votos serão livros de cera...

Reencontrei muitos amigos íntimos remexendo nos livros.  Por isso exijo esse modo de sagração pra me desfazer deles e assim também me despedir do quanto de mim dentro deles consenti, algumas lágrimas, digitais cravadas, sorrisos breves, alegria, incompreensão, dor, alívio, pedaços de unhas, pétalas, um trevo de quatro folhas.

Agora mesmo caiu-me na vista o livro “Indo com o fluxo” de Elena Stowell, e me ponho a relembrar a convivência especial que tive com esse texto, que me chegou às mãos desconjuntado por uma tradução mecânica e como tive que refazer a tradução sem ter nas mãos o texto original em inglês. Se bem lembro foram catorze releituras em dez dias, pra chegar a um texto ainda imperfeito, quando a saturação me impregnou.

Só posso acreditar que tive a ajuda ‘espiritual’ da autora Elena Stowell pra que tudo saísse bem, mas não 100%. Ficou apenas aceitável – não à toa se diz que a pressa é inimiga da perfeição. Mas os fragmentos pós-traumáticos, as revelações nada literárias, de virtual humanidade, ficaram de modo que a BQB Publishing recebesse prêmio de melhor lançamento latino-americano.

A singular e extraordinária história de Carly que Elena Stowell conseguiu transmitir, não sem sofrer algumas muitas fraturas físicas e emocionais, também me cativou de modo que me fez sonhar e ter pesadelos. Isso porque dorme comigo até hoje o momento vulcânico, abrupto, num quarto de hotel, que a destroçou em fragmentos inúteis. Os desatinos que Elena cometeu agora eram os mesmos desatinos trazidos pela dramática, bonita e tocante narrativa.

De repente a obrigação de entender o texto e entender as razões da autora, as razões da maternidade, tudo me introduziu no mesmo turbilhão que envolveu Elena e muita gente a seu redor. E agora todo esse mar de coisas, com a bela dedicatória de Elena, irá enfeitar outras estantes e iluminar outros leitores. Acredito que esse é o destino mais precioso dos livros...

Junto com a desmazelada coleção de meus ex-livros – em minha existência tive mais de dez pequenas bibliotecas – irão os textos que ousei escrever. Aliás, essa é uma exigência que os livros fazem aos leitores contumazes: escrever. Se não o fizerem estarão condenados ao fogo da loucura causada pelo excesso de conhecimento acumulado. Além do que, a cada leitura se forma um pensamento sobre o texto absorvido, em cada cabeça uma sentença – lembram-se. E esse colegiado de saberes se obriga a sair da cabeça, senão apodrece.

Um dia a cigana leu minha mão. Foi na Praça XV, estávamos um grupo de rapazes vindos da farra na noite do Centro do Rio. Rodávamos o circuito da noite: Lapa, Café Nice, Novo México e mais dezenas de boates e inferninhos que ponteavam no Centro do Rio, entre a Praça Mauá e a Lapa. Quando chegávamos à Praça XV era pra dar uma rebatida com o angu do Gomes e enganar as ciganas.

Um dos chavões que elas usavam – entre amores desfeitos e sucesso no trabalho – é que iria “ter suicídio na família”. Pra todos essa mala dicha era repetida, entremeada com outras buenas dichas beneficentes, grandes amores, fortuna, sorte, riqueza. Nenhuma dessas graças alcancei por total, alguns fragmentos apenas, farelos disso e daquilo. Suicídio nunca teve, até agora: ao me libertar dos livros acabo por me suicidar. Como sempre, a cigana tinha razão...

No metrô leio num anúncio a conhecida frase: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê”. Acho isso tremenda injustiça pra milhares de analfabetos. Lógico que não é assim o que diz a propaganda dos livreiros, que não pagam imposto, mas os escritores aplaudem. Imagino o analfabeto com um livro à frente. É certo que será labirinto pra seus olhos, letras que só reconhece uma e outra. Mas tudo o demais é bazófia, ele tem seu próprio código, vê bem, ouve bem, fala bem. Ou não sobreviria. Pra ele o papel tem outras utilidades: embrulhar coisas, traçar mapas, limpar a bunda, desenhar figuras.

Os livros de crônicas de Joaquim Itapary também me seguirão pelo ar. São textos que convivem comigo desde sempre e que releio ainda descobrindo outras veredas, como o Dom Quixote. Posso abrir o volume em qualquer página, que nela encontrarei a frase, a palavra, a informação, convite pra continuar. Ler, ler, ler, como é importante ler e não apenas pra saciar o vício, também pra expurgar o veneno da leitura e toda a sânie resultante.

Por fim uma razão a que jamais dei entendimento são os livros de poesia. São únicos porque deles nunca se dirá “está lido”. Em matéria de arte escrita, fazer poesia é a mais desalentadora, a que mais estragos ocasiona ao autor e depois ao leitor, a que jamais será totalmente intuída nem decifrada, embora muitos audaciosos tentem  decodificá-la, sobrará sempre outra leitura para tentar penetrar em seu labirinto e emergir incólume.

Os livros de poesia são únicos, pois empedram o ritual do eterno retorno. Quantos deles jamais terei nas mãos? Não mais apalparei Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Abgar Renault, Ascenso Ferreira, Cecília Meireles, Carlos Drummond, Fernando Braga, Nauro Machado, Manoel Caetano, Sandra Pien... todos e mais uma centena, que pedem a releitura a cada crise mental, a cada estresse da alma, a cada impossibilidade de continuar existindo, enquanto sobrevier à incoercível bala perdida.

Um dia pensei que os livros iriam ser herança pra turma que sobreviverá e sujará as mãos com minhas cinzas. Comentei isso com meus filhos – sem deixar de pilheriar, claro. Tudo em vão, pois a cada reunião de livros que fazia, a cada minibiblioteca que montava, tudo se desmancharia num sopro no tempo seguinte, dimanava no espaço, seguindo com o fluxo.

Agora a minha herança será imaterial: o que pensarem de mim será o espólio, as minhas deixas, as vozes imateriais serão meu legado, minha imortalidade.

Rio de Janeiro, Cachambi, 30 de março de 2016.
Postar um comentário