quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O Carnaval Carioca de 1929, segundo Manuel Bandeira

O Estado de S. Paulo
O mau tempo prejudicou muito os festejos do Carnaval carioca, o carnaval popular, o das ruas — porque o dos salões, o da gente rica, esteve mais animado do que nunca. (No Copacabana Palace venderam-se entradas para 3 mil pessoas e setecentas mesas bordavam nos sete salões o retângulo central reservado aos dançarinos). Com a chuva incessante que caía a partir das quatro horas da tarde, não havia outra coisa a fazer senão entrar num teatro ou num hotel para maxixar ou beber. E havia às vezes lá dentro coisas curiosas de ver.

O hall e bar do Palace, por exemplo, é um ponto que intermitentemente assume aspectos divertidos. Ali se juntam os exemplares mais disparatados da sociedade: a menina de olhos ingênuos, prostitutas, artistas, o chefe de polícia, cocainômanos e canalhas, políticos. A alegria é provocada por meia dúzia de rapazes que beberam demais e circulam de copo na mão, cantando, dançando e dizendo à direita e à esquerda bestialidades engraçadas. Cheira-se o éter à vontade. Há quem traga lança-perfume só para o seu lenço. E quem o está gastando nos outros recebe de vez em quando pedidos de prise de droga no lenço estendido. Alguns rapazes excedem-se e deitam-se num recanto do bar embriagando-se de éter indiferentes a tudo o mais.

Outro espetáculo curioso é o do Teatro Fênix que se especializou em bailes para homens. Ali as senhoras pagam entrada porque não é possível distingui-las dos tipos que se fantasiam de mulher com uma perfeição em que não entra somente a habilidade e a arte, mas o temperamento também. E há-os de todas as cores, de todas as idades, de todas as classes, nacionais e estrangeiros. O círculo de mirones toma com eles liberdades cruéis que vão do carinho acanalhado ao pontapé de troça. No meio disso sujeitos maduros, de capote, guarda-chuvas e óculos de tartaruga combinando com seriedade encontros acenando os dedos para ajustar preços.

Aqui e ali, nas frisas e camarotes, a timidez de um grupo cuidadosamente mascarado trai a família que veio só para ver. Aquele português, porém instalou-se com a sua gente numa mesa da plateia em plena bagunça. A mulher traz ao colo um menino de peito e amamenta-o ali mesmo. De um camarote bisnagam-lhe o seio exposto. O português dana-se, não por causa do seio, mas por causa da criança: “Olha a criança, seu estúpido!” Passa lindo rapaz que a assistência aclama de miss Brasil. E João, que está comigo, confessa desesperado que há nos olhos da falsa mulher qualquer coisa que ele nunca encontrou nas mulheres de fato.

Como festa popular a segunda-feira, consagrada aos ranchos, é o dia mais característico. Esses ranchos resultaram da evolução dos antigos cordões, nenhum dos quais substitui na forma e organização primitivas. Eram blocos bem mais reduzidos que os ranchos atuais. Vinha à frente do estandarte um grupo de índios, caprichosamente fantasiados, executando umas danças de guerra que serviam para abrir caminho entre o povo; seguiam-se ao pé do estandarte os “velhos”, de passo grotesco, com as enormes cabeças de papelão oscilando em longos bastões; depois duas alas de sócios vistosamente trajados, tangendo as chulas no couro teso dos pandeiros; e atrás finalmente a canalha que não teve dinheiro para a fantasia, os amigos do clube ou simples curiosos.

O Ameno Resedá, o Flor de Abacate e outros grupos mais ricos começaram, de uns dez anos para cá, a aumentar e complicar o cortejo. Hoje são sociedades para julgamento de cujos préstitos o Jornal do Brasil, instituidor do Dia dos Ranchos, reúne no júri profissionais de cenografia, dança, música, e até de bordado — porque há um prêmio de estandarte que requer as luzes de um artista bordador. Os outros prêmios são de harmonia e enredo, fora os títulos de campeão e vice-campeão.

Nos ranchos há batedores a cavalo, clarins, comissões de honra precedendo o “enredo”, atrás do qual vem uma verdadeira banda instrumental e coros obrigados a engraçados regentes que andam de um lado para o outro atentos à harmonia do conjunto. A iluminação do cortejo, que a princípio era a querosene ou acetileno, é hoje feita de maneira engenhosa. O rancho inteiro fica envolvido num cordão de fio elétrico ligado a baterias dispostas num caminhão que fecha o préstito. De espaço a espaço saem ramais para as varas dos candelabros de quatro ou cinco lâmpadas elétricas, carregados à mão. Esse cordão ao mesmo tempo isola o rancho da massa popular. O efeito é muito característico.

Para dar uma ideia do que são os “enredos” basta citar dois deste ano. Os Caprichosos da Estopa apresentavam a história de Salomé “baseada na imortal obra do grande escritor inglês Oscar Wilde”. Os Parasitas de Ramos buscaram inspiração na história do Brasil revivendo cenas de costumes do nosso passado: os presos carregando água, a sinhá transportada na cadeirinha, o negro apanhando no pelourinho, os anjinhos das procissões… As personagens de todas essas cenas eram criancinhas, o que acrescia ainda mais a deliciosa ingenuidade do cortejo.

É na Praça Onze que esses ranchos são mais apreciados. Para lá aflui o povinho miúdo, a mulataria que dá cor e pitoresco ao carnaval famoso da praça. Ali há duas coisas gostosíssimas de ver: os “sambinhas” e as “batucadas”.

Os primeiros são rodas de baianas pegadas de colares de contas doiradas revezando-se em solos de samba. É impressionante espetáculo quando alguma boa velha cai na roda dançando de olhos fechados, religiosamente, como as macumbas.

As “batucadas” improvisam-se e desmancham-se logo porque a polícia dá-lhes caça. Consistem numa dança de capoeiragem ao som do batuque. Formado um largo quadrado ou retângulo o pessoal da rapa entra a saltar, tentando derrubar uns aos outros ou aos que fecham o quadrado. De vez em quando um tombo de rasteira diverte os espectadores. Mas o prazer é perigoso: toda aquela gente tem cara inquietante e é de fato a pior malandragem da cidade. Volta e meia a brincadeira degenera em conflito e acaba em navalhadas. 


Copiado de Ivo Korytowski: http://literaturaeriodejaneiro.blogspot.com.br  (03/02/2016)
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