quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Onde andará Lindevania?

Lindevania Martins-Anônimos: Invenções de Amor, Morte e Quase-Morte (Prêmio Odylo Costa, filho - 26º Concurso Cidade de São Luís-Contos) -FUNC-São Luís, MA–2003. 


Sempre que vou a São Luís – como em outras cidades – acabo circulando entre livrarias, sebos e feiras que vendem tudo, em busca de livros novos e usados. Procuro por autores conhecidos e desconhecidos, velharias antigas e gente que nunca li, inéditos aparecendo em livro, que pode gerar outro e mais outro ou que serão início e fim de uma carreira de escritor. Saio com a maçaroca de volumes numa sacola, levo pra casa e aos poucos vou deglutindo as vítimas de um leitor lento em demasia.
        
Às vezes pego o livro, leio um bocado e marco o número da página para reiniciar, depois sigo em frente rumo a outro autor.  Nunca cometo o sacrilégio de dobrar o canto superior da página, como fazem muitos. Costumo indicar a página onde estava lendo com a tira que estiver à mão, assim é que muitas delas se encontram marcadas com alguma cédula de dinheiro. Já acharam cédulas antigas, que perderam o valor, em velhos livros meus descartados. Quanto tempo levará para retornar à página marcada jamais percebo. Pode ser o dia seguinte, daqui a um mês, nunca mais?

Nesse ritmo de ler assim é que outro dia me caiu na vista o livro “Anônimos: Invenções de Amor, Morte e Quase-Morte”, coletânea de 17 contos de Lindevania Martins. Já nada tenho guardado na lembrança sobre o impulso que levou minha mão tocar no livro, nem em que livraria o alcancei, mas pode ter sido pela breve nota da orelha, assinada por Couto Correa Filho, autor de “Por Espanha” belíssimo livro de poesia.
        
Posso ter sido atraído pelo nome da autora, de estranha sonoridade, Lindevania, pelo breve e multifacetado currículo: ex-delegada, Defensora Pública, poeta, artista plástica. Quem sabe não terá sido o Prêmio Odylo Costa filho, conquistando o 1º lugar no 27º Concurso Cidade de São Luís?  Também posso ter sido traído pela opção machista ao ser laçado pela beleza morena de Lindevania Martins, explicitada na foto que ilustra a apresentação.
        
Posso ter sido levado por todo o conjunto dessas atrações e até pelas “Palavras da autora” que introduz o leitor ao texto. Embora muitos discordem e achem até uma inutilidade o autor discorrer sobre a própria obra literária, Lindevania faz questão de esmiuçar, não só a narrativa, mas o livro todo, desde o título “oriundo de uma peça clássica, ouvida insistentemente durante a tessitura das estórias narradas”.

“Creio que toda escrita é intencional” – diz Lindevania Martins. “O livro ora apresentado não foge à regra das intenções. Uma delas era expor as contradições, pequenas ou grandiosas, das quais o ser humano não consegue escapar, mesmo quando acredita poder fazê-lo”.

E continua a enredar o pretenso leitor na malha de suas intenções artísticas, em curtas análises prévias dos contos. “Em ‘Veia’, há um amor que se quer nobre, mas que se alimenta do crime. Em ‘A menina e o gato’, uma criança é atormentada por uma mãe sádica que, por sua vez, é atormentada pela filha esquizofrênica”. E por aí vai: “nenhuma escrita é inocente”, afirma para prefaciar as narrativas “O olho”, “A língua”. Os contos “A velha” e “Acerto de contas”, serão reflexos do desejo de “exorcizar fantasmas comuns: a solidão, o abandono, a incompreensão”.

Para que o leitor não se assuste com tantos dramas, Lindevania adverte: “Mas nem tudo são espinhos e o leitor, apesar de tudo, encontrará paragens amenas”, que virão em “Pescaria”, “Flashes na vida de Marina”, “Suspeita” e “Fotografias”.  Agora, pensando bem, não teria sido por essa introdução que comprei o livro? Pode ter sido, pode ter sido... Mas não dou tanta certeza a essa opção. Li os contos de “Anônimos: Invenções de Amor, Morte e Quase-Morte”, bem escritos, corretamente escritos. Arrisco dizer que os textos falam por si, dispensando “Palavras da autora”.

O aval de Couto Correa Filho também é um ponto positivo: “É sabido que o escritor apura o seu estilo e melhora com o tempo. Sua linguagem ainda está em fase de elaboração, mas, a julgar por este primeiro livro, já podemos contar com uma grande ficcionista”. É motivo que me faria comprar o livro, matar a curiosidade sobre a autora premiada, que se iniciava em letra de forma. Realmente seus contos estão num patamar retilíneo de qualidade. Não se rapara aqueles altos e baixos que costumam acompanhar os calouros: a prosa de Lindevania segue linear, na densidade adequada, sem grandes sustos.

Mas, o que terá acontecido com Lindevania Martins depois do lançamento do seu livro de contos em 2003? Afinal lá se vai 13 anos! Lindevania terá seguido carreira literária? Ou terá largado os contos pela poesia? Ou, deixando ambos de lado, terá se dedicado às palhetas de cores que também são de alegrar a vida? Ou continua a exercer, como padres, pastores e professores, a missão sagrada de defender os fracos e oprimidos do peso da injustiça?

Tenho vontade de afirmar que qualquer das opções de vida que Lindevania Martins tenha escolhido não terá se saído mal. Para isso servem as obras de arte – os textos de Lindevania levam-nos à crença de que existe na autora a artista, circunstância que a certifica como apta a enfrentar a vida e seus turbilhões e suas calmarias de águas mornas da beira da praia.

Como faz tempo que não vou a São Luís, quis o destino pôr meus olhos, 13 anos depois, no livro de inauguração da escritora Lindevania Martins e assim recordar as praias, as ladeiras, os paralelepípedos escorregadios onde hoje e amanhã circularão novos personagens representando outros dramas e tragédias da vida comum.


Rio de janeiro, Cachambi, janeiro de 2016. 
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