terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Nauro Machado

Foto: Focaí


O primo Quincas manda de São Luís uma mensagem aflita: “Nesta madrugada, Nauro Machado faleceu em um hospital. Triste. O Maranhão vai a cada dia ficando mais miserável cultural, moral e economicamente”. Logo depois outro e-mail, desta vez do Fernando Braga, confirma a tragédia e dá “Adeus a Naurito”. Uma tragédia, sim. Era sexta-feira, 28 de novembro de 2015. Só agora, alguns dias depois, consigo me refazer da agonia de todos nós, admiradores e amigos de Nauro Machado: perdê-lo assim de modo inesperado, mesmo tendo ele somado agorinha mesmo os 80 anos de idade.

Disse de modo inesperado e assim foi. Ora, o poeta acabara de superar um câncer no esôfago, o que significa uma vitória, como quem diz: dona morte, vai te catar! Passa depois… Mas não, logo deram jeito de pegar o corpo fragilizado do poeta, cuja única vitamina de longevidade é a poesia, e metê-lo num hospital para outro procedimento. Ó humana burrice, quem se aventurará aos 80 anos na loucura de uma anestesia geral nessa idade? Quem ousará se internar nesses hotéis em que são hóspedes vírus e bactérias tão letais que derrotam a penicilina e todos os modernos antibióticos? Meu testamento tem um só parágrafo: – Não me interne em hospital.

Nem faz um mês contei a Quincas como conheci o lendário crítico e polemista Agripino Grieco, já beirando os 90 anos. Agripino vivia numa casa amarela, na Rua Aristides Caire, Méier, cercado de 40 mil livros. Desde a primeira vez que fui vê-lo, caía uma garoa gélida de umedecer os ossos, ele estimulou novas conversas. Disse-lhe que iria levar um gravador para registrar os encontros, a modo de entrevista. “Não precisa gravador, ele me disse, guarde de memória. Escreva. O que não lembrar, invente”.

A última vez que o vi estava se preparando para operar: Agripino Grieco era rendido, como se diz popularmente, não sei se em causa de hidroceles ou hérnia. Eu fiquei obtuso com isso. Ele me disse que não tinha jeito, os médicos insistiram, os filhos viram como única solução, etc. etc. Nem preciso dizer que ele morreu no hospital. Ah, porra, já tinha 91 anos… é essa a justificativa de sempre. E foi assim que os hospitais viraram açougues, câmaras mortuárias.

Nunca fui íntimo de Nauro Machado, nem poderia, ele em São Luís, eu no Cachambi. Mas sua poesia sempre me acompanhou através dos livros que conseguia adquirir por encomenda aos livreiros seu Alberto ou seu Carlos, da Livraria Padrão, Travessa Miguel Couto, no Rio. Os livros de Nauro “Do frustrado órfico”, “Noite ambulatória”, depois “O calcanhar do humano”, a alentada “Antologia Poética”, da Editora Quíron e “Apicerum da clausura”, foram lidos e relidos. Eles me serviram de base e estímulo para o artigo “Poesia Maranhense – a Atenas renascida” que escrevi para o Jornal DO Cultura (São Paulo, 1986).

Para dirimir o mal do exílio, algumas vezes vou à ilha de São Luís visitar o primo Quincas, o mano João, a grande parentada que me enche de saudade, pois a cada visita a recepção se esmera. Duas ou três vezes no intercurso dessas viagens tive a sorte de esbarrar corpo a corpo com o poeta. Nem sempre lhe dirigi a palavra: muitas vezes preferi acompanhar a figura esbelta e pacífica que descia flutuando a Rua do Sol.

Quando essa coincidência se deu no Centro Cultural Odylo Costa Filho, na Praia Grande, me acometeu uma crise de riso, meio lacrimoso: a maravilhosa emoção de ver os poucos cabelos brancos do poeta emergindo da multidão de jovens estudantes que o cercavam, não só para ouvir, mas para dirigir-lhe a palavra de igual para igual. Eram, poeta e leitores, irmãos que acaloravam a conversação animando o silêncio do salão cultural. E os olhinhos do poeta? Brilhavam como quem se diverte, reconhecido e venerado, por quem deve verdadeiramente venerar e reconhecer o intérprete de seu tempo, da sua cidade.

Houve um momento em que pensei estar ali o poeta que emudeceria a poesia de outro grande poeta maranhense: Bandeira Tribuzi. Mas esse não era algum plano do próprio Nauro Machado e o que se deu foi uma transição pacífica e sequencial. Entre a poesia agitada de Bandeira Tribuzi e a calmaria que representa os versos de Nauro Machado existiu apenas uma ponte era o José Chagas que estava ali espreitando...

Noutro dia espiei o poeta caminhando em direção à Praça João Lisboa. Deixei-o seguir o curso e passei direto para a Benedito Leite, que ali tem, ou tinha, um vendedor de sapotis maravilhosas, cuja polpa cede ao aperto mais leve e, ao ser mordida, transforma em mel a saliva que escorre pelo canto da boca. Depois de tanto prazer, segui em frente pela Av. Pedro II, aonde está o Palácio dos Leões que, recém-saído de uma reforma, reluzia ao sol em alvura mediterrânea. 

Lá adiante a maré cheia chacoalhava nos muros e rampas. Aí eu entrava pelas ruas Nazaré, Djalma Dutra, Portugal, até desembocar na Praia Grande, com a boca salivando e a garganta ressecada. Direto ao Mercado a fazer o teste das tiquiras e camarão seco. Refeito da caminhada, seguia sozinho tal qual um espião olhando lojas, redes, artesanato. De novo entrava no centro cultural que era certo estar ali o poeta. 

Nesse segundo encontro, como o assédio da estudantada não era tão acachapante, me aproximei e após os cumprimentos de praxe disse de supetão: 

– Poeta você me deve 15 reais! Nauro Machado, naturalmente espantado ante a inusitada cobrança, com o olhar exigiu explicações – e eu dei: 

– É que passando pela João Lisboa vi um livro de poesia numa banca de jornal. Na orelha você recomendava a poesia do fulano e eu comprei. Mas quando li…

Nauro era cabra difícil de rir, mas quando ouviu meus comentários sobre a poesia e o poeta do livro, quase deu uma gargalhada. Só aquele riso valeu a brincadeira que não carecia ser contestada. Mas ele ainda me disse ao pé do ouvido: 

– Aquele rapaz é muito esforçado, dono de uma gráfica. Eu devo a ele muitos favores e sou agradecido. 

Por que não? Nada errado. Eu e também os milhares de seus admiradores somos muito gratos a Nauro Machado pela poesia que a nós oferenda.

Nauro Machado é um poeta difícil? Já ouvi dizer. Nauro Machado é um poeta hermético? Já li por aí. Baboseira de intelectuais, críticos e ensaístas – a popularidade que Nauro Machado alcançou em sua terra, principalmente entre os jovens, é o contraditório de tais descobertas oriundas de banca universitária. Seus leitores repudiam tantas teses e desse modo carimbam o passaporte para que sua poesia alcance o universo. 

É também a resposta cabal a quem prefere cultuá-lo no limbo da “poesia para poetas”, na neblina cega da linguagem dos labirintos.  

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