sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Joaquim Itapary, cronista por inteiro


Joaquim Itapary
Armário de Palavras
Crônicas
Edições AML
São Luís, 2015

A crônica, dizem os entendidos, é o gênero literário mais dinâmico, porque está localizado entre o jornalismo e a história: é o relato mais objetivo possível de um acontecimento, no tempo que ocorreu. Na verdade, a crônica hoje em dia tornou-se um gênero literário indefinido, assim como a novela, o conto, o romance. E para finalizar esta introdução, toda a literatura tá um cu-de-boi danado! Então, crônica é aquilo que o autor chama de crônica...

Há décadas que Joaquim Itapary anda de mãos dadas com a crônica semanal, mas demorou algum tempo para que assumisse de vez a crônica como gênero literário de sua preferência. Se isso ocorreu, diga-se, não foi por escolha própria, ao contrário, foi a crônica que o nomeou seu intérprete, assim como os espíritos elegeram Chico Xavier para narrar as histórias de outras vidas. São mistérios...

Ocorre que a crônica é um tipo de literatura cheia de pegadinhas, que começa desde o dia em que é enviada aos redatores, continua quando o leitor acaba de ler, segue quando o diário vai para o lixo e termina nas mãos do peixeiro ao embrulhar a pescada – se não lhe for dado destino menos nobre...

Nenhum cronista nem daqui nem d’alhures ousaria imaginar uma trajetória além desse circuito de vida tão curta e de pouca fama. Assim sendo, correria risco de ser xingado de pedante, metido a besta e outros adjetivos impublicáveis. E como tiro de misericórdia, lerá a crítica demolidora que decreta a sentença de morte da crônica no dia que sai no jornal.

Por isso disse acima que a crônica é um tipo de literatura cheia de pegadinhas e armadilhas que põe a biografia do cronista em constante risco de vida. Certo dia, porém, Joaquim Itapary dormiu e acordou com a ideia fervendo na cabeça: por que não publicar as crônicas em livro?

Aí foi um deus me acuda! Opiniões a favor, palpites contrários, nada fez o cronista desistir do intento. Centenas de folhas espalhadas pela mesa de trabalho obrigaram-no a pedir arrego.  A papelada teimava em não se organizar ao molde do autor.

Jogou tudo nas mãos de organizadores. As crônicas foram escolhidas por temática, outras pelo belo simples, mais algumas pela importância do assunto. Algum tempo depois, a maçaroca foi-lhe devolvida acompanhada de relatório, índice, colofão, notas explicativas, essas coisas feitas com profissionalismo e dedicação.

Mas qual nada!  O cronista Joaquim Itapary, acostumado ao rigor das lutas pessoais, não se deixou tombar pelo canto das sereias. Tomou o leme nas mãos, imaginou as crônicas recitando os nobres versos de Walt Whitman: – Ó Comandante! Meu Comandante! – como se a ele fizessem o apelo definitivo: – Por favor, guie-nos!

Desde que a primeira coletânea foi publicada (“Sob o sol”, 2000), estaria entregue aos leitores com recomendação de que seria a crônica o principal veio comunicador de Joaquim Itapary, embora não lhe falte talento nem competência para outras estiradas, como assim atesta a sua bibliografia. Em 2007 Joaquim repetiu o feito, desta vez declarando amor perpétuo à cidade de São Bento, que idolatra desde a infância e não deixa de visitar várias vezes por ano, assim que o tempo permite.

Agora que deixou as Folias de Momo de lado, deu conta de que as festividades carnavalescas andam muito desvirtuadas – como confirmam as crônicas Primeira, Segunda e Última do Carnaval, encontradas neste Armário de Palavras. Fugindo da folia, Joaquim Itapary arruma a mala e parte para a terra querida em busca da refrescância da alma, dos prazeres do corpo e da memória.

Assim nasceu o segundo livro de crônicas “Tapuiranas” (2007). Como a experiência seguiu o mesmo ritmo de “Sob o sol” (2000), em 2014 uma nova juntada se fez, estreando no volume a crônica de sabor universal que dá nome ao livro: “Onde andará Willy Ronis?”. Ambos foram publicados pelo autor, mas sob a chancela da Academia Sambentuense, da qual Joaquim Itapary é membro.

Com este “Armário de palavras”, saído neste ano de 2015, em coedição do autor com a Academia Maranhense de Letras, FAPEMA e SECMA, Joaquim Itapary prossegue no afã de resguardar um importante ciclo da história cotidiana de São Luís e do Maranhão, embora o cronista não deixe de lado o universo que cerca a Ilha Rebelde e de vez em quando traga para seus leitores notícia d’além mar. É pegar e ler.  

Rio de Janeiro, Cachambi, outubro de 2015.
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