domingo, 27 de setembro de 2015

Fernando Braga: Sonetário do Quixote Vencedor


Disse certa vez Dom Quixote a Sancho que contasse algum conto para o entreter, como teria prometido, ao que Sancho correspondeu que de boa vontade o fizera, se o modo do que estava ouvindo lho consentisse: 

– Mas enfim – disse ele – seja como for farei diligências para contar uma história. Dê-me Vossa Mercê toda atenção que já principio, a contar uma aventura sobre o próprio Cavaleiro andante, mas como se fora ele, o leal escudeiro, Sancho Pança, que assim o via através de seus olhos de fiel servidor e acompanhante... 

Era uma vez... O que era; como atrás de tempos, tempos vêm... Era uma vez um cavaleiro poeta apaixonado não por Dulcinéia Del Toboso. Mas por Nirciene Rosa, o que, não muito desigual ao da Triste Figura, assim começou, enamorado, um canto, a dizer ter perdido o destino: “Vede: Sou um louco sonhador cretino, / a quer o mundo sem dor, mal e peste / - pobre Quixote que perdeu o destino...” 

E depois do caminho, distraído, perdeu Rocinante: “E desenganado, sofre a dor angustiante / e vai trotando no vazio seco de um graveto / - pobre Quixote que perdeu Rocinante”. Adiante, o poeta cavaleiro, perdeu o próprio caminho: “Cruéis para mim foram os fados: / [tudo em mim foi dor ou desvario, / olhos postos na luz, e já vazados] / sempre morrer de calor dentro do frio”. 

E desditoso, o cavaleiro poeta perdeu a fantasia: “Sem uma gota de verdadeira poesia, /naufrago no pantanoso areal da Vida / - pobre Quixote que perdeu a fantasia...” E tempo há, dentro do tempo, que o cavaleiro poeta perde a amizade: “Se querem saber: sou eu mesmo Sancho. / Ele é o outro de mim mesmo dispersado. / E, pela metade, eu agora me desmancho, / que um não pode ser o ser dilacerado.” 

Lá pelas páginas tantas, Sancho diz que o amigo perdeu o projeto / e sem planta baixa edificou a casa. / Mas, mesmo assim, arquitetou o teto / escondeu na alma um pedaço de asa.”

Pobre Quixote – o herói de La Mancha, desta vez perde o melhor de seu, a vergonha: “Mesmo que contra o homem tudo deponha, / inclusive, por ser este animal que bate, / tudo logo corrompe em que a mão ponha: / e infamando seu cão, cruel, ainda late...” Depois, agora, para melhor, “Nobre Quixote perdeu a tristeza / e recuperou o horizonte da alegria. / Tirou o pombo da cartola da beleza /e na fileira do bem inventou o dia.” 

Neste momento, ele, Quixote, que também não é o andante da triste figura, ma o Cavaleiro poeta, da bela postura, apruma-se e canta uma Elegia dos Visionários: “E Quixote, todo ancho, / colherá um verde lírio / e responderá: bom Sancho, / somos filhos do delírio.”
        
        E Nirciene Rosa, que não é Dulcineia e tampouco Aldonza, mas o grande amor dest’outro Quixote, o poeta da bela figura, passa pelos moinhos de vento com o nome disfarçado de “Mona Lisa... Infinita das minhas emoções”, e a caminho, “Infinita Mona Lisa das minhas quimeras...”, e em serenata “Infinita Mona Lisa da minha guitarra” [...] E os dois, cansados de tantas andanças, chegam à Santa Helena, onde Bonaparte amargou a sorte de grande soldado, para dizer, ele, o Quixote poeta e da bela alegria, não de La Mancha, mas de uma Ilha com o epíteto de ser “dos amores”, não aquela cantada por Camões e pintada por Malhoa, mas a de São Luis do Maranhão... Descobrimo-lo pelo coloquial do termo, que só naquela doce ilha é usado, e brada feliz: “Como Bonaparte vão sonhando no caminho, / lambendo-se no cio à sombra de um vinho, / noivos chamando-se pequeno e pequena”.

Depois, o nosso herói que já se misturou com as histórias minha e de Sancho, chega à Ibéria, e canta sob o belo azul peninsular: “Colorido dia de Espanha, / de Espanha e Portugal: / [este ouro que o azul apanha e transforma em mel e sal]”. Este ouro não será o reflexo das areias do Tejo, visto pelos olhos de Sancho? Finalmente, o Quixote poeta e brilhante chega ao Quinto Encontro, ao lembrar-se talvez do Quinto Império, predito pelo Bandarra, sapateiro de tanto espanto: “Nunca jamais se turvam/ mesmo a Lisboa do alto... Com uma vontade de salto, / Lisboa meu chão de nuvem”.
            
           Por fim, lança esta sentença ao seu escudeiro: “Hás de saber, Sancho amigo, que eu nasci por determinação do Céu nesta Idade de Ouro para ressuscitar bela a de ouro ou dourada. Eu sou aquele para os que estão dados os perigos, as grandes façanhas, os valorosos feitos...” E assim tem sido este cavaleiro, poeta e da brilhante figura,ma transmitir bênçãos alegrias...  E esperanças! 

Este livro, ‘Sonetário do Quixote Vencedor’, “fora escrito entre o Cairo, no Egito e Valletta, em Malta. “em nítida demonstração de que o verbo, o princípio, a energia, o espírito e a substância são universais, legando ao barro humano e ao bicho da terra destinos estrelares. Nascer é renascer a cada dia, sob o norte, a bússola e o signo prognóstico da reinvenção do humano a melhor, com um par de asas suplantando os pés de ferro, chumbo e concreto.” 

            E quem será este Cavaleiro da fidalga e culta figura? É o escritor, poeta, jornalista, Doutor em Direito professora, Doutor em Filosofia, em Teologia e em Sociologia, além de ser um dos maiores advogados em exercício atualmente em Brasília, um pensador e um jusnaturalista por convicção e ciência, membro da Academia Brasiliense de Letras, a quem simplesmente o clássico Claude Lévi-Strauss o qualificou “como um sol, nos tristes nevoeiros dos trópicos, reconhecendo-o enquanto mestre na arte de pensar, na sua incontrastável vocação brasileira para a reflexão superior...” De José Rossini Campos do Couto Corrêa, ou simplesmente Rossini Corrêa, dissera Josué Montello, nos momentos de sua derradeira estada na Europa, como Embaixador do Brasil junto a UNESCO, através do saudoso erudito Sérgio Corrêa da Costa... “Em Paris, Rossini Corrêa é considerado um dos dez mais expressivos pensadores do segundo milênio da Cristandade.” 

            Em tempo, digo eu, Rossini Corrêa é um dos homens mais cultos que tive a felicidade de conhecer, meu queridíssimo amigo, a quem tanto respeito e muito amo, o irmão que nunca tive, e, para loas do meu espírito, é ele, ainda, meu compadre de alma.
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in “Toda Prosa”, Tomo III, do livro “Travessia” [Memórias de um aprendiz de poeta e outras mentiras], em organização.


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