quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Valsa pra Joaquim Itapary

São Luís (MA) - Centro histórico
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Lá vai Joaquim Itapary pela beira da calçada com seu passo de quelônio...
Diz-que vai caminhar, diz-que é bom pra saúde,
mas aquecido sob o sovaco leva o livro das aventuras
do cavaleiro catalão Tirant Le Blanch.
O padre Antônio Vieira viu-se assim destituído
pelo tal Johanot Martorell, pois remexeu a ossada no túmulo.

– Estará ele pensando nos desígnios da humanidade?

Lá vai Joaquim Itapary, o cronista mal amado com seu passo de Juriti...
Diz-que vai por aí levando Antônio Vieira debaixo do braço.
Cada passo que ele dá é uma nota que solfeja e se uma pipira
apurar bem os ouvidos vai logo descobrir que se trata
de uma arte de Bach ou Mendelssohn decantada pelo arco de Pau Brasil
que decola do cello majestoso de Antonio Meneses.

– Rejubila-se pela fumaça branca que elegeu o Papa Francisco?

Lá vai Joaquim Itapary, arqueado mas solene como o Jaburu pantaneiro...
Apertado junto ao peito carrega um livro de crônicas de Lago Burnett.
Entre o nadir e o zênite vagabundeia o pensamento fluido do cronista e vai.
Entre netos avós tios irmãos e primos tudo se materializa nas aventuras
do cavaleiro da triste figura que risca a vida entre porcos, donzelas, bandidos e moinhos.

– As passadas militares, solenes, se queixarão das mazelas de São Luís?

Lá vai Joaquim Itapary – o ex-sermonário das formigas e dos peixes...
Ora nomeado seresteiro de incelenças e réquiens:
– ao Rio Pimenta Olho d’Água e Rio Anil.
– às ladeiras lodosas de mijo e cocô
– às praias ferventes de coliformes fecais
– à natureza morta da cidade-porto que o lançou cronista.

– Irá dar a volta ao mundo tal Marco Polo tardio?

Lá vai Joaquim Itapary a passo e canto de siricora...
Com seu olhar sagaz, aquilino, com seu destino de Sísifo
montado no rocim tordilho Mercedes-Benz,
levado de roldão por toda São Luis farejando amores e ódios,
ração para uma crônica de flor e sangue.

– Esse íntimo sorriso é pelo florescer dos descendentes queridos?

Lá vai Joaquim Itapary o cronista felino, sagaz como a suçuarana...
Tento dissuadir o cronista enfezado a trocar o instilado fel das agruras inusitadas
pelo destilado malte produto das highlands escocesas ou pela tiquira de Barreirinha,
por uma cachacinha vinda lá de São Bento ou por um Casillero del Diablo –
todas essas maravilhas inventadas pelo bicho homem que entre rosas e açucenas
nos guardam e nos protegem de todos os males amém.

– Pensará no Muçum regado com pimenta e azeite da querida São Bento?

Lá vai Joaquim Itapary no compasso, com seu andar mocorongo...
Vai tourear a vida como o toureiro toureia o touro na arena de Sevilha,
vai botar cabresto na palavra como a muleta perversa que espicaça o lombo do miúra.
Com pensamentos mais profundos ele pensa consertar o mundo
com ares de salvador da pátria guerreia o vento as ondas as pedras a caatinga,
mas o que deseja mesmo é o porto a rede enseada entre coxas, a restinga...

– Ainda não imagina o Paraíso – mas pensará com saudade do abraço caloroso?

Lá vai Joaquim Itapary, santarrão disfarçado, com passo de calango...
Os joanetes assimétricos, aquela curvatura que leve assoma às costas
não é o peso das asas é também o peso da vida – que não lhe mete medo
mais do que dor de dente, vai o cronista matutando um sermão às saúvas,
pelejando pela remissão irrestrita dos pecados da carne humana,  
na perpétua Ressurreição da alma, na vida eterna, amém.

– Pensará na falta que faz as tapuiranas e o queijo de São Bento?

Lá vai Joaquim Itapary com seu passo de jaboti...
Andar triste, desinfeliz por sua amada São Luís, mas a sua carapaça
é tão mais leve como o algodão-doce, doçura de dar inveja e deixar saudades.
Portanto deste Rio de Janeiro em pleno mês de março e calor de 40 graus,
debaixo de um aguaceiro guaçu, mando um guaçu abraço e ponto final. 
Ciao! Saloca. 
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