terça-feira, 19 de maio de 2015

Uma carta de 1999

Rio de Janeiro, 1999.
Caro poeta.
Tomo a liberdade de escrever a você após temporada em São Luís e ter tido a felicidade de ser hóspede da tua turma. Todos são pessoas boníssimas, cultas, inteligentes e foi um prazer conhecê-los. Conheci também o grupo periférico, menos um mais descolado, que só vi uma vez e não tive tempo de bater um papo mais demorado. Uma grande família – pode crer.
Para nós, que somos exilados (moro no Rio desde 1963), voltar a São Luís é sempre um choque. Choque porque tudo aquilo é muito diferente da realidade à qual ficamos acostumados. Falo por mim, que sempre vivi no eixo Rio - São Paulo, mas acredito que com todo mundo é igual. Parece outro país remoto que não aquele guardado na distância dos nossos sonhos...
          A turma me encheu de livros e foi assim que conheci a antologia “A Poesia Maranhense no Século XX”, de Assis Brasil. Alegria grande confirmar que a nossa poesia está entre as melhores, sem falso louvor. É claro que apenas um volume, apesar de alentado, não dá para comportar a poesia de um século (ainda mais do Maranhão, onde todo dia nasce poeta), mas é o que se pode ter no momento e ficou ótimo. Quem sabe no futuro não caberá um volume mais para contemplar os esquecidos?
 Isso me anima, me deixa otimista com a literatura maranhense que, da década de 40 para cá, foi lastreada no fazer poético. Mas a poesia é assim mesmo. Todo escritor, mesmo o prosador, não deixa de cometer os seus versinhos, de ter o ócio poético. Acho que até mesmo nosso romancista gaulês Josué Montello há de ter seus poemas avaramente ocultos nalgum baú.
           O que senti também é que São Luís está pedindo uma revista de poesia. Primeiro pensei em Revista de Literatura, depois fui mais ousado: só de poesia mesmo! Fiquei vidrado pela ideia, minha cabeça ficou quente, fumegando. Pensei até num título, pensei em NORTE, depois achei que NOR ficaria bem mais poético e misterioso. Se tiver mais tempo irei trocar ideias com algumas pessoas para tentar levar a publicação adiante.
         Mas ler a Antologia foi um deleite! Os senões são devidos mais à torcida que temos dos nossos favoritos (talvez à assessoria que o Assis Brasil teve). Por exemplo, (só exemplo): Manuel Caetano Bandeira de Melo, poeta fantástico, na grandeza de João Cabral de Melo Neto e de Carlos Drummond de Andrade, teve poucas poesias, não as mais representativas, aliás, comprimidas em duas páginas, já Dagmar Desterro ganhou seis alentadas páginas! E acredito que ainda assim não tivemos a melhor Dagmar Desterro.
        Também foi ótimo conhecer Laura Amélia Damous – que concisão! Que poeta, que poetisa! Ler o incrível Alberico Carneiro, cujo “A Dama Negra em Noite de Núpcias” transporta-nos à de (s) composição exaustiva, à fragmentação extremada, levada às últimas consequências. E ler outros, e outros, e muitos outros!
       Dou rápida passagem, sem mencionar os mais próximos, já consagrados: Bandeira Tribuzi, Nauro Machado, Carlos Chagas, Dagmar Desterro, Ferreira Gullar, Nascimento Moraes, Lago Burnett – que ficou muito tempo longe dos livros, etc. Nem quero falar de você, que, ademais de ser suspeito por fã, é chover no molhado. Alex Brasil, Rossini Corrêa e Luís Augusto Cassas também estão carimbados.
           Dos mais novos, Roberto Kenard e Wanda Cristina, demonstram que são poetas até a medula. Paulo Melo Souza, poeta de raiz, dono de sonoridade e inventiva. César William confessa nos versos fontes populares (cordelistas), próprias da poesia falada e Luís Inácio Araújo, talentoso, mas mal antologiado, porque os quatro poemas publicados falam da mesma temática: os próprios poemas, a arte de fazê-los, etc.
        Fora isso, Assis Brasil acertou em cheio. Em cada antologiado, abre-se o capítulo com uma citação, seja do escolhido, seja de outrem a respeito do poeta. Lá pelas tantas, reparo numa referência de Nauro Machado, na apresentação de Nascimento Moraes Filho:
        “Espírito aberto às reivindicações do tempo presente, das quais não pode fugir pela sua origem e pela sua formação, voz inata de condoreiro, sem, contudo, o rimário fácil e ilusório que invalida algumas tentativas de poetas historicamente ultrapassados”.
        Sublinhei essa parte final porque é uma faceta do Nauro Machado que eu não conhecia: o lado crítico, aliás, nada corporativista. Sabe que uma das poucas classes artística não corporativista é a dos poetas? Por quê? Porque tem muito poeta. Tanto e tanto que temos de criar “ismos” a todo instante, composições e decomposições, que modificar a linguagem da poesia para que ela se torne mais restrita e mais restrita.
         Lembra o caso daquele ator que assassina uma jovem atriz, ambos em início de carreira. Uma tragédia amorosa que Nélson Rodrigues poderia assinar, incluir em “A vida como ela é”. Os colegas saíram a acusá-lo: “Ele não é do nosso meio, não é da nossa classe”. Isto é: bastou transformar-se num assassino para ser execrado, excluído. Como quem diz: “Um ator nunca pode ser um assassino.” Mas o mesmo não se deu com a atriz que matou a tiros o marido, não ator. Essa, mesmo condenada, foi perdoada pela classe. Hoje, idosa e sem trabalho, vive na benemerência do Retiro dos Artistas.
     Voltando ao “rimário fácil” – que todos criticam mas não larga mão: penso que estará eternamente vinculado à própria poesia, como elemento associativo, de fixação oral, de memória, facilitando o modo pelo qual a poesia se difunde, inclusive como notícia ou elemento de interligação cultural. Enfim, rima, ritmo, cadência, sonoridade, são elementos necessários e, pode se dizer, nativos da poesia. Mas são como a tiquira: uma dose vai bem, não pode é abusar. Fico repelindo o meu lado apimentado, que está provocando para perguntar: “Será que o próprio Nauro Machado não se dá conta de que ele mesmo é usuário profícuo dos dicionários de rimas fáceis e ilusórias?” Bom, deixa para lá. Voltemos a falar de poesia.
         Tenho pena de quem não tem prazer de ler, principalmente ler poesia. Escrever, escrevo por vício, mas não seria nada sem o prazer orgânico de ler. É engraçado – já reparou? – todos nós temos esforçadas receitas para fazer com que os outros compreendam e amem a poesia. Cheguei a receitar em algum verso: “De como te ler poesia,/ sem ter flatulência ou azia.” Uma boa memória sobre o tema é o poema “Safra”, de Bandeira Tribuzi. Temos todos nós o receituário, mas nunca a bula se esgota. Isso é que é fantástico na poesia, não é?
           Falar nisso, é claro que a minha estada em São Luís me provocou uma enxurrada de anotações, que acabou se transformando no feixe de escritos que estou ajuntando agora e vou mandar uma cópia para você, desde já pedindo vênia pela falta de revisão e da operação cirúrgica que toda escrita merece, ou seja: revisar gramaticalmente; executar a poda dos excessos; extirpar protuberâncias; seguir, enfim, a lição de CDA e eliminar tudo aquilo que a emoção nos leva a cometer.
           É meu calcanhar de Aquiles, a dosagem de preguiça. Quando o texto vai para publicação, peço para alguém fazê-lo. Quando é para leitura de amigos, conto com a compreensão deles. Ademais, sou escravo passivo das emoções. Viver sem elas é impossível, porque a emoção maior é aquela que traz a mais gostosa e pecaminosa coisa da vida: a Paixão.
            Estou lendo um número da revista “Caros Amigos” que ficou excelente, principalmente por uma entrevista inédita de Carlos Drummond de Andrade. Mas não se deve perder também a voz dessa magnífica Marilena Chauí, lúcida e lúdica, mas de pé no chão, como sempre. Imperdível. Carlos Drummond de Andrade, lá pelas tantas, sobre a produção literária entre os 22 e 82 anos de idade, diz:
           “(...) agora escrevo com mais consciência e também com mais dificuldade, porque passei a ter uma noção mais íntima da língua em que escrevo e das dificuldades que ela tem, uma certa preocupação maior de usar a palavra própria, o termo adequado, e não um termo aproximado ou um termo impressionista como então eu fazia, porque eu cuidava mais dos adjetivos, cuidava mais de uma forma de exprimir minhas emoções, do que propriamente de construir uma obra literária correta e com conhecimento das particularidades da língua e também com a preocupação de dizer alguma coisa que não fosse exclusivamente emocional, e sim uma coisa que envolvesse uma visão mais ou menos crítica da vida”.
            Está claríssimo, porém, não sou contra em se dizer alguma coisa “exclusivamente emocional”. Aliás, no prefácio que Assis Brasil faz na “Antologia” ele registra que o Romantismo no Brasil durou mais de 100 anos. Eu diria mais: no Maranhão (e por extensão no Norte), o Romantismo durou 200 anos – ou mais! Acho que os brasileiros, aqueles que não têm o privilégio de viver geminados às culturas europeias, ficam imunes à passagem do tempo e continuam cultuando as paixões românticas.
           Eu mesmo confesso ser admirador dos dramas relatados por tangos, boleros e fados da vida, as lamentações de raízes árabes do flamenco e do nosso samba-canção, que deve ser a reunião de tudo isso. Sem esquecer as músicas caipiras, que também têm um cunho eminentemente saudosista e melancólico. Por isso mesmo o brasileiro é um povo diferente. Claro que falo daquele que não tem o privilégio de se educar em culturas avançadas, porque se deixa influenciar e aí perde as raízes.
            Mário de Andrade se orgulhava de ter tomado a decisão de não viajar para Europa – como era moda da época – porque tinha medo de “perder a brasilidade”. Há nisso certa dose de exagero, mas está correto. A gente perde um pouco, quando não sabe somar. Porque eu estive uma única vez por aquelas bandas e quando baixei na Galícia fiquei tonto. Ali está a raiz das nossas falas, ou da fala brasileira, como dizia o próprio Mário de Andrade. O galego é uma linguagem saborosa. É claro que eles próprios assimilaram muita coisa do castelão e também, depois, do árabe. Mas ainda assim é uma bela curiosidade.
            Estava conversando com o amigo galego, Luiz Varela, quando ele usou a expressão “mixaria” – que eu supunha gíria bem nossa, talvez carioca. Indaguei o significado: pois era o mesmo usado aqui! Depois, andando por aquelas vilas interioranas, assim, sem mais nem menos, topei com um grupo dançando pelas ruas ao som de tamborins, violão e outros instrumentos de percussão. Que é isso? É a micareta – disse-me o Luiz. Sim, micareta, que é o nosso carnaval de entremeio, brincado em localidades onde não existe o festejo tradicional de fevereiro/março. E logo veio a conexão linguística: Mi Careta – a máscara. Eis as raízes de nossa herança – em criança eu ria ao ouvir dos caboclos adonde, dacolá, e outras expressões, pensando ser falar errado. 
            Sobre poesia e tempo, Carlos Drummond de Andrade diz:
            “A poesia que nós fazemos, mesmo não parecendo referir-se a esse tempo, ela traz a marca do tempo que nós vivemos, mesmo não sendo uma poesia estritamente temporal (...). Mas a poesia, a meu ver, se considerada na sua expressão mais pura, ela transcende o tempo, é exatamente uma das formas de transcendência do tempo, como a arte em geral, porque a ciência já não é assim”.
            Vale lembrar que a entrevista é transcrição de fitas, por isso está assim, com parágrafos longos e toneladas de vírgulas colocadas pelos que fizeram a transcrição (posso escrever transcrissores ou transgressores?)
            Segue Carlos Drummond de Andrade:
            “Então, a poesia refletindo isso, ela por sua vez é eterna. Também porque nós precisamos às vezes de um certo refúgio contra o tempo, queremos nos libertar, queremos ficar livres da pressão demasiada dos acontecimentos. Onde nós procuramos? Nós procuramos na música, nas artes plásticas, ou procuramos na poesia, são formas de transcender o imediato e o real e fugir a ele, nos elevando acima dele”.
            Rapaz, acho melhor você comprar a revista (se é que já não a tem), porque a entrevista está ótima. Aliás, essa entrevista me tirou uma dúvida que eu tinha a respeito da morte de Pedro Nava. Para mim era um mistério: a notícia dava que ele recebeu um telefonema, saiu de casa e depois foi encontrado morto sentado ao pé de uma figueira na Praça Paris. Pelas notícias – elas jamais dizem toda a verdade – a coisa ficou para mim meio que misteriosa, tipo conto de Edgard Alan Poe, filme de Alfred Hitchcock. Carlos Drummond de Andrade esclarece:
            “Então, foi uma resolução a meu ver súbita, num momento de solidão em que ele não estava apoiado em nenhum amigo, nenhuma força solidária que pudesse demovê-lo dessa ideia, ele então, num momento de desespero, resolveu se eliminar”.
            Engraçado como eu tenho a mesma ideia a respeito do suicídio, tirando, claro, esse num momento de desespero, porque sempre atinei com a ideia de que o suicídio não é nada heroico, nada covarde nem mesmo desespero. É apenas um momento – e como é fatalidade, não há retorno nem explicação, nem esclarecimento.
            Seguindo CDA: “Ele foi à casa desse amigo altas horas da noite, chamado pelo amigo, aliás, e tomou o revólver que ele tinha no quarto e intimou-o com a maior severidade a tratar-se, a reagir contra a depressão. Salvou a vida desse nosso amigo e não salvou a sua própria. Mas acho, continuo achando, que o homem é dono do seu destino, é dono da sua vida, não posso acusá-lo”.
            Apesar de elucidar alguma coisa no todo, a atitude de Pedro Nava continua muito Agatha Christie, não é? Será que ele assimilou tanto o problema do amigo, mas tanto, tanto, que resolveu ele sim se suicidar para salvar o amigo? Tudo se pode considerar, ainda mais sabendo que o Pedro Nava era médico e, portanto, sujeito a juramento de solidariedade, etc. etc. E, afinal, quem era esse amigo?
            Apenas para concluir vou citar mais uma vez o Carlos Drummond de Andrade na entrevista, a respeito de Mário de Andrade e do Modernismo, que só tardiamente influenciou a literatura maranhense:
            “Ele (Mário de Andrade) pessoalmente achou que o modernismo era um movimento ultrapassado e que ele tinha falhado, porque não tinha dado um caráter mais permanente à sua obra. Mas as conquistas, digamos assim, técnicas do modernismo, culturais do modernismo, a atualização da inteligência brasileira, por assim dizer, embora pareça pretensioso, o fato de o modernismo ter trazido um novo estilo literário, um estilo que ficou até hoje, porque todas as liberdades que até hoje se usa e se abusa na literatura, todas elas são fruto do modernismo. A desarticulação da sintaxe clássica sem desrespeito naturalmente ao fio condutor do pensamento, que nada tem a ver com as formas gramaticais rígidas, é uma conquista do modernismo. É um pensamento mais livre. O Brasil se libertou de uma poesia, de uma literatura copiada, imitada de cânones que ninguém mais nem cogitava”.
          Sobre as vanguardas: “Se nós queremos desarticular a linguagem a um ponto em que só restam palavras ou meias palavras, o resto são sons, ou meras consoantes ou meras vogais, então nós estamos desarticulando um trabalho que durante milhares e milhares de anos o homem fez para compor uma linguagem equilibrada e artisticamente válida”.
            E, para encerrar, esta pérola (a gente costuma cunhar a expressão pérola de modo irônico, mas aqui ela é verdadeira): “Eu acho que a história da literatura não é a história da vanguarda.” É claro que, publicada em vida, essa entrevista provocaria complicadas controvérsias, logo numa época em que estavam ressuscitando os arqueólogos irmãos Campos, Augusto e Haroldo...
A respeito do nome da revista — NOR — abuso da sua paciência só mais um poucadinho, para falar da ojeriza que nós maranhenses temos de ser nordestinos. Por isso, estranhei a nova expressão que está sendo cunhada lá pelas bandas da Ilha: Meio-Norte. Em outras palavras, dividiram o ponto cardeal como se divide uma laranja. Por que ser nordestino ainda hoje nos envergonha? Passei por cidades lindíssimas e sem nada a dever às capitais do suleste. Por outro lado, se a gente chegar mais um bucadinho pro Norte mesmo, vamos esbarrar com o Pará, cuja fama de coronelismo não anda lá essas coisas. Sinuca...
           Mais uma coisa sobre revistas. Leio sempre que posso a revista CULT, muito boa, mas tem um senão: é feita por uma meia dúzia de paulista metido a besta, dono da verdade, sabe-tudo. Fora isso até que é um alento saber que CULT existe.
        Pelas as coisas que acontecem no Rio, até que agosto/setembro está sendo uma época particularmente feliz: no MAM, exposição de Picasso (a única que eu vi foi aqui mesmo no Rio - resultou no livro “Suíte Picasso”); no Paço Imperial recebemos a visita dos mexicanos (Orozco, Kahlo, Rivera, Siqueiros, etc.); a Prefeitura anuncia Mostra de Gravura, que vai de Miró a Fayga Ostrower; Arnaldo Cohen toca no Municipal. Por que você não vem passear e ver tudo isso? Assim teria tempo pra esticar o papo...
          Bem, vou ficando por aqui, pedindo desculpas pela extensão desta e pelas chatices comentadas. Enfim, o que mais interessou transmitir a você foi o ânimo de fazer uma revista de poesia. Vocês (estou pensando em você, em Joaquim Itapary, Jomar Moraes e principalmente nos poetas novos), que têm o poder de realizar coisas, é que deveriam se animar mais do que eu, um quase sessentão, pobre, pobre de marré, marré, marré...

            Rio de Janeiro, Cachambi, maio de 2015.
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