domingo, 19 de abril de 2015

O milongueiro Fernando Arrabal


 

Logo no “Prólogo ao ocupado leitor” dá para reparar que Fernando Arrabal, ao escrever “Um escravo chamado Cervantes – Um retrato do criador de Dom Quixote”, compôs um texto polêmico a seu jeito e perfil. Desta vez a convite dos organizadores do I Congresso Internacional de Cervantistas, realizado em 1988 na cidade de Alcalá de Henares, terra de Cervantes. Portanto, seria texto para ser lido no congresso cervantista, oportunidade que Arrabal – ele mesmo o Salvador Dali das letras – não deixaria passar em brancas nuvens.

Fernando Arrabal aproveitou a espetacular oportunidade que lhe ofereceu o “destino caprichoso, quase prodigioso!” para especular sobre um documento que havia sido recém-descoberto – a “Ordem de Captura” contra “um Myguel de Cerbantes” (sic). Ora, escrever um texto para ser lido não é o mesmo que escrever um texto para ser publicado em livro.

A oratória dá uma eloquência ao texto que a impressão não tem. É como tese de mestrado (sempre acompanhada do chatíssimo abstract), feita com base em estética pretensa acadêmica, com linguagem e itens obrigatórios, agradecimentos inclusive.

Assim é como fica uma palestra quando passa para a impressão, ademais de ter sido classificada como biografia pela editora – coisa que não é. Arrabal escreveu um texto especulativo e para isso recorreu à ficção. Para justificar a ousadia que permeia o texto, Fernando Arrabal se sustenta em obras e autores similares:

“Ruth Reichelberg estuda-lhe as origens em “Dom Quixote ou O romance dum judeu disfarçado”; Louis Combet examina-lhe a homossexualidade e o masoquismo em “Cervantes ou As incertezas do desejo”; Rosa Rossi analisa-lhe a personalidade e as raízes em “Escutar Cervantes”.
           
Arrabal cita também outros autores:

Sarah Leibovici (1921-1991), verdadeira caçadora de judeus e sefarditas: “Mosaiques de notre memoire: les judéo espagnols du Maroc” (1982), “Noces judéo-espagnoles. Nuestras bodas en Tetuan” (1983), “Chronique des Juifs de Tétouan: 1860-1896” (1984), “Christophe Colomb juif” (1986).

Dominique Aubier (1922-2014), autora de “Don Quichotte prophète d'Israël” (1966), primeira obra a evocar a presença de tradições judaicas no Dom Quixote. No entanto, Aubier não encontrou apoio para sua tese, que foi refutada por Selon Ruth Fine, da Universidade de Jerusalém, afirmando que textos da tradição hebraica não estavam acessíveis à época de Cervantes. O professor Fine acha impossível que Cervantes tenha tido acesso à Cabala e à tradição esotérica judaica em época de Inquisição. Em análise feita entre o texto de Dom Quixote e as bíblias (hebraica e católica), Selon Fine chegou à conclusão que Cervantes usou a vulgata em sua versão tridentina.

Marthe Robert (1914-1996), autora que pesquisa Cervantes sob a ótica e ética psicanalítica em “Robisonadas e quixoterias”:

“Para que o romance abandone as franjas feéricas a que foi por muito tempo confinado, convém claramente que a Criança Perdida desperte para as exigências mais realistas do Bastardo edipiano, de tal modo que aprenda a ver o mundo como se apresenta e, voluntariamente ou não, dirija um olhar interessado às coisas do presente. Ele é Robinson, ou Dom Quixote, segundo tome um dos dois caminhos possíveis; na verdade sempre um pouco de ambos, ora mais lúcido, ora mais perplexo, um Robinson quixotesco ou um Dom Quixote náufrago. Porém, seja como for, o romance não existe mais sem a fissura que deve agora enfrentar; pelo menos não há mais história pretensa que não escolha como tema os conflitos do herói consigo mesmo no aprendizado da vida”.  

Victor Malka (1938), escritor que já publicou centenas de livros de história, de anedotas e do folclore judaico;

Leandro Rodríguez (1934), espanhol cervantista, escreveu: “Miguel, Judío de Cervantes” (1978), “La vía de Don Quijote en Sanabria” (1981), “Documentos de crianza del sanabrés Don Quijote” (1983), “Cervantes en Sanabria”, “Ruta de Don Quijote de la Mancha” (2004), etc.

O marroquino Fernando Arrabal tampouco tenta dissimular a vaidade (logo quem!):

“E, quando mais exposto me julgava, aplaudiram-me de pé brilhantes eruditos: de Jean Canavaggio a Martín de Riquer, aos quais tanto li, com os quais, se me permitem, tanto amei” – diz ele ao fim do prólogo.

Jean Canavaggio (1936) é um famoso e premiado cervantista francês, enquanto que Martín de Riquer (1914-2013) foi um escritor catalão, que lutou ao lado do tenente nazista Francisco Franco na Guerra Civil espanhola e foi premiado com cargos públicos. Amigo de Arrabal, pois. Escreveu sobre Dom Quixote, Tirant lo Blanc, Amadis de Gaula e o trovadorismo espanhol.
           
Em não sendo caso para tratar neste artigo, a querela Antonio de Segura versus Miguel de Cervantes, está muito documentada, especulada e difundida, pode ser lida em milhares de textos históricos e fictícios pelo mundo afora. Só que Fernando Arrabal, muito esperto, separa a pena do crime.

O crime: “haver dado certas feridas a Antonio de Sigura, andante nestas cortes”.

A pena: “sobre o qual o dito Miguel de Cerbantes, foi condenado a com vergonha pública ter cortada a mão direita e em desterro de nossos Reinos por o tempo de dez anos e em outras penas contidas na dita sentença”.
           
O duelo entre Cervantes e Segura é fato histórico sobejamente conhecido e se a condenação parece desproporcional é porque Antonio de Segura (*) era pessoa importante. O tema foi romanceado por Luis Garcia Jambrina, escritor contemporâneo, no romance histórico “La sombra del otro”, que enfoca a vida de Cervantes, desta vez sob a visão de Antonio Segura. O romance, sem disfarçar o pêndulo do favoritismo para Miguel de Cervantes, começa cercando-se de verossimilhança:
           
“Numa livraria de Toledo, um professor de literatura encontra, por acaso, uns papeis antigos escritos em caracteres arábicos. Trata-se da “confissão” de Antonio de Segura, inimigo dissimulado de Miguel de Cervantes, a quem inveja com toda sua alma e persegue de maneira implacável com a intenção de destruí-lo. Nela, Segura nos relata, do cárcere, como conheceu Cervantes na sua juventude e como foi ferido por ele durante um duelo, fato que mudará para sempre o destino de ambos”.

A cena faz parte das entrevistas dadas por Luis Garcia Jambrina, mas ninguém ficou curioso de perguntar por que Antonio de Segura estava “em cana” (desde la cárcel) – fato não biográfico, ao que parece. Seria uma imitação subliminar da cena de Cervantes escrevendo o Quixote desde la cárcel?

“Aqui [na Plaza de Oriente] estava o Alcázar de Madrid, onde se encontra o Palácio do Oriente; em seu entorno, era crime desembainhar a espada. Cervantes o fez num duelo contra Antonio de Segura, a quem deixou gravemente ferido. Por este motivo o escritor de Dom Quixote teve que fugir para a Itália”.
           
Arrabal desvirtua a pena, levando-a para a legislação sobre homossexualidade, que condena a ser cortada a mão direita daquele que for condenado por sodomia. O livro todo é cheio de convites para crítica, mas é esse mesmo o estilo Arrabal: oferecer o rosto à tapas e bofetões...
           
Cismei também com a tradução de Carlos Nougué que, juro de mãos postas, a princípio julguei ter sido feita através da tradumática, recurso muito usado em tempos de informática. Diante da crítica à tradução uma aluna do professor Carlos Nougué veio em sua defesa, mas eu não pude replicar porque o danado do livro simplesmente sumiu de minha vista. Agora, remexendo papeis velhos, o dito cujo apareceu e só então posso justificar o motivo do meu aborrecimento quanto à tradução.

Tenho a impressão que os tradutores se perdem ao esquecer que estão transferindo um texto estrangeiro para leitores comuns, não para seus próprios pares. Mas esse destino parece inevitável em literatura e nas artes em geral: poeta escreve para poetas, pintores pintam para pintores, músicos compõem para músicos , tradutores traduzem para tradutores – e todos vão discutir seus feitos geniais no Bar Luís, na Casa Cavé, na Confeitaria Colombo...    

Carlos Nougué está na internet www.cursos.carlosnougue.com.br, que propaga o seu trabalho: “Professor Carlos Augusto Ancêde Nougué. Professor de Filosofia. Professor de Tradução e de Língua Portuguesa em nível Pós-graduação (UGF), Lexicógrafo, Prêmio Jabuti de Tradução 1993”.  A página também dá notícia sobre o curso: “Por uma filosofia tomista. Primeiro curso realizado pela CONTEMPLATIO. Curso on-line de 60 horas ministrado por CARLOS NOUGUÉ. As inscrições vão de 18 de setembro a 10 de outubro de 2013”.
           
Obs.: Por quais razões um beneditino, cujo princípio fundamental é “ora et labora” – reza e trabalha – bandeou para os complexos labirintos do tomismo? O tomismo é tratado como filosofia, mesmo contrariando os princípios de São Tomás de Aquino, que tinha por finalidade conciliar, teologicamente, a filosofia grega e o cristianismo. Da impossibilidade de alcançar esse objetivo é que sobrevivem, 750 anos depois, tais cursos...
           
São Bento abandonou todos os mosteiros que dirigiu. Por ser rigoroso quanto ao comportamento ético, muitos atentaram contra sua (dele) vida. Foi resgatado do deserto onde vivia como eremita para ter seu conhecimento adotado e reconhecido. As figuras de São Bento mostram, junto com o Santo, o livro “Regra”, o cálice quebrado pela serpente e um corvo, lembrando o pão envenenado e outros atentados que recebeu de monges invejosos.

Outro site www.questoesgramaticais.com.br, publica:

PARA BEM ESCREVER NA LÍNGUA PORTUGUESA
CURSO ONLINE DO PROFESSOR CARLOS NOUGUÉ.

Alimenta a propaganda as citações:

A gramática de uma língua é a arte de [escrever e, pois de] falar corretamente. – Andrés Bello

A gramática é a arte de levantar as dificuldades de uma língua; mas é preciso que a alavanca não seja mais pesada que o fardo. – Antoine Rivarol

Mas a minha bronca com o professor Carlos Nougué – que traz no lombo a responsabilidade de ter sido educado no Colégio São Bento, o melhor do país – não tem caráter filosófico, apenas cismei com algumas frases que li no livro mal vertidas para o brasileiro, com inversões desnecessárias. Exemplifico:

pg. 21 – Miguel de Cervantes batizado foi;
pg. 25 – Os tetravós de Cervantes convencidos estavam;
pg. 26 – Precursor do nazismo foi;
pg. 31 – o mais quixotesco de todos, da fogueira não pôde escapar;
pg. 32 – em razão de eu ter escrito dissidente dedicatória;
pg. 32 – a castração, longe de intimidar, a rebeldes asas lhes dá;
pg. 35 – E faltar não podia.

E assim segue a carruagem, até o final do volume. Ora, a tradução de um texto em prosa não exige figura retórica, não tem imagem poética, são frases curtas, de expressão direta, sem outras interpretações. O brasileiro não se expressa assim, como o professor acha. O brasileiro lê e diz: foi batizado, estavam convencidos, Foi precursor do nazismo; não pôde escapar da fogueira; dedicatória dissidente; dá asas a rebeldes; E não podia faltar, etc. etc. etc.

Neste caso faltou à educação do Carlos Nougué uma leitura dos modernistas, desde Menotti Del Picchia e Manuel Bandeira, a Mário e Oswald de Andrade – ou lá distante, no brasileirismo índio de Gonçalves Dias e, mais atrás, de José de Anchieta – fontes nas quais poderia beber sobre o falar e o escrever brasileiro.

Alguém poderá dizer: – Mas, e se o Arrabal tivesse escrito dessa maneira? Eu responderia: – Ainda assim, em não sendo livro que exija interpretação, o tradutor teria que escrever de modo que o leitor brasileiro entenda. Traduzir é trazer para a língua local o que foi escrito noutra língua de modo mais fiel, igual e inteligível.

Tirante isso calo-me porque vejo que o professor Carlos Nougué já arranjou muita sarna pra se coçar, quando caiu em polêmica com o velho Olavo de Carvalho. Quem tem um inimigo como Olavo de Carvalho, não precisa polemizar com um pé-rapado como eu. Vejam “Resposta a Carlos Nougué” – Olavo de Carvalho, em http://www.midiasemmascara.org.

E por que disse ali atrás que Arrabal tinha escrito uma ficção e não uma biografia de fato? Respondo com outra pergunta: – O que haverá de ter ainda para escrever sobre Cervantes? Por exemplo: Arrabal cita um sem número de cidades espanholas que avocam para elas, em vão, o registro do nascimento de Cervantes. Diz Arrabal sobre isso:

“Luís López Fernández, mais conhecido por ‘doutor póstumo’, assegura que em registros de batismos e de herança se encontram documentos com o nome Cervantes: ‘Homônimos, tão frequentes em sobrenomes patronímicos’”.

Então me pergunto por que também não seria um desses casos a ordem de prisão que deu o pontapé inicial para o livro de Arrabal? Logo de início se pescam duas divergências nos nomes: My[i]guel de Cerb[v]antes e Antonio de Si[e]gura. É cada uma que me aparece!

Ademais, Arrabal transita pelos séculos como se estivesse atravessando um sinal de pedestre. Personagens do Século XVI confraternizam com outros dos Séculos XIX e XX, fazendo com que se compreenda cada vez mais a intencionalidade (e vacuidade) com que Arrabal compôs o seu texto – brincando de pique-esconde com fatos, pessoas, histórias.

Mas, enfim, estava eu aqui matutando sobre isso quando dou de cara com o texto “La supuesta homosexualidad de Cervantes”, de Daniel Eisenberg (Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2003) para ficar com a estranha sensação de estar enxugando gelo. Ai meu Deus! Todo mundo já mexeu nisso! Mas foi bom, até justo, porque, já tendo o Olavo de Carvalho para cuidar de Carlos Nougé, agora encontro o Daniel Eisenberg para tratar de Fernando Arrabal.  

O artigo de Daniel Eisenberg vem a respeito da discussão sobre a ‘suposta’ homossexualidade de Cervantes – uma heresia para todos os cervantistas do mundo! – tema que surgiu primeiro em artigo de autor inglês – os espanhóis engoliram a provocação em silêncio. Daniel Eisenberg constata: “O único autor espanhol que se atreveu a tocar no tema plenamente é o repugnante – nesse aspecto – Arrabal”.

De fato, é ignóbil alguém supor que o ídolo e gênio da literatura espanhola seja um maricón.  Para reafirmar o massacre a Fernando Arrabal, Daniel Eisenberg, se apossa das notas de Urbina y Diez para baixa o pau no livro “Um escravo chamado Cervantes”:

“Los errores y manipulaciones en el libro de Arrabal, analizado por Urbina y Diez, son espeluznantes. Según él [Arrabal] – y no hay documentación de ninguna de estas afirmaciones:

a) Cervantes fue desterrado por pecado nefando,
b) los padres de Cervantes montaron en Madrid una casa de prostitución,
c) el maestro López de Hoyos enseñaba a sus párvulos la filosofía hispanomusulmana del siglo XII,
e) Cervantes tenía mucho interés en las figuras de Buda y Confucio,
f) Carlos V escribió un libro de caballerías.

Especialmente quisiera señalar que Arrabal no clausuró el I Congreso de la Asociación de Cervantistas, y que no le aplaudieron de pie Martín de Riquer y Jean Canavaggio, como ha sido confirmado directamente por este último”.

Mas – ¡carajo! – quem não conhece Arrabal? Quem não sabe a biografia de Arrabal, que desde os primórdios da carreira escolheu o campo da polêmica, da invenção e da mentira para se expressar? 90% do que Arrabal fez e escreveu são invenções – só 10% são mentiras! (obrigado Manuel de Barros). Dessa maneira, estando tudo explicado, tudo em seu devido lugar, tiro o peso do lombo e vou cuidar de outras coisas mais amenas.
Rio de Janeiro, Cachambi, 8 de abril de 2015.

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(*) Antonio Segura - Pintor de la corte de Filipe II.
El Padre Zarco, en su obra Pintores españoles en San Lorenzo el Real de El Escorial, refiere a «Antonio de Segura, pintor, natural de San Millán de la Cogolla, en La Rioxa». Astrana Marín cuenta que el autor del Quijote, hacia el año 1568, en una reyerta causó varias heridas a un andante en corte llamado Antonio de Sigura. Cervantes, para huir de la justicia, marchó a Italia. Declarado rebelde, se le condenó a que le fuese cortada la mano derecha y a destierro del reino por diez años.
Carlos V en su codicilo había dejado encargado que se hiciera el retablo de la capilla mayor del Monasterio de Yuste. Antonio de Segura se compromete a ejecutarlo tal y como lo desea el rey don Filipe II. El rey loa y confirma y tiene por bueno el contrato celebrado entre Antonio de Segura y Martín de Gaztelu.
El retablo ha de ser de madera, de la altura y tamaño señalados por Juan de Herrera. Ha de representar el juicio final conforme a la pintura de Tiziano que está en El Escorial. Tendrá cuatro columnas corintias con su pedestal. Sobre éste habrá una custodia y en el frontispicio un escudo con las armas del Emperador. Ha de pintar, dorar y estofar el retablo. Además se compromete a labrarlo en el Monasterio de El Escorial, conducirlo al Monasterio de Yuste y colocarlo en la capilla mayor.
Todo lo ejecutó Antonio de Segura a satisfacción del rey, el cual, según Ceán Bermúdez, le nombró maestro mayor del Alcázar de Madrid, del Pardo y de la Casa de Campo en las enfermedades y ausencias de Francisco de Mora. Añade el Padre Zarco que Antonio de Segura murió en Madrid en 1605 y que Filipe III concedió a la mujer del artista dos reales diarios, pensión que, a la muerte de ésta, otorgó luego a María de Segura, su hija. (In “Riojanos Ilustres”)


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