terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Son Saruê: O poeta e o Reino Encantado


Existem dezenas de estudos, análises, críticas, ensaios e comentários, esmiuçando o universo contido no pequeno folheto de Manoel Camilo dos Santos "Viagem a São Saruê". É mesmo um folhetinho, pequeno de tamanho, mas suficientemente ­vigoroso e consagrador a ponto de destacar o poeta paraibano de seus contemporâneos.

Ao invés de sair a campo queimando pestana em busca de tais estudos, na procura de alguma luz que ilumine esse mist­erioso encantamento que possui o folheto, optei por uma penetração no próprio território de São Saruê e eis-me tal Alice no país das maravilhas ou Fernão de Magalhães em busca da passagem secreta entre os Oceanos Atlântico e Pacífico.

A verdade que ninguém pode impunemente conhecer a história de São Saruê tal como Manoel Camilo dos Santos narrou e sair ileso da aventura que é descobrir, percorrer e se deslumbrar com a cidade mágica e encantada. O folheto maravilhou a néscios e intelectuais, tanta é a força criadora da imaginação semeada nas pequenas páginas do livrinho.

Mas, segundo o próprio poeta, este não é o seu melhor romance. Ou não era... Mas o poema caiu de tal maneira no gosto dos leitores – mais ainda – no gosto dos eruditos que se deleitam com a poesia de cordel, que acabou por celebrizar o autor, notabilizando-o pelas dezenas de outros folhetos de sua autoria, de igual qualidade, mas que passaram despercebidos.

Manoel Camilo dos Santos, nascido no dia 9/07/1905 em Guarabira (PB), aos 24 anos foi morar em João Pessoa, onde vivia da profissão de cantador de viola. Na década de 1940 começou a escrever e vender seus folhetos. Depois foi para Campina Grande-PB, onde montou a famosa folhetaria “Estrella da Poesia”, com a qual se fixou na Literatura de Cordel. É este o retrato do autor do romance “Viagem a São Saruê”, cuja influência mais notória foi a leitura de “Uma viagem ao céu”, de Leandro Gomes de Barros.

Além da sua obra, Manoel Camilo dos Santos foi editor de João Melchíades Ferreira (de quem adquiriu todas as obras) e lançou novos nomes como Manoel Pereira Sobrinho, Cícero Vieira da Silva “Mocó” e Manoel Monteiro, entre outros. Manoel Camilo dos Santos faleceu no Rio de Janeiro, no dia 9/04/1987, antes de completar 82 anos.

Após a morte de Camilo, o escritor e pesquisador Umberto Peregrino, amigo íntimo e admirador, criou no bairro de Santa Teresa a “Casa São Saruê”, destinada a aglutinar todo o acervo da Literatura de Cordel no Rio de Janeiro e coletar os folhetos importados do Nordeste. A “Casa São Saruê” servia também de pousada: poetas, violeiros, cantadores que chegavam ao Rio de Janeiro tinham ali um quarto, um lar, com todo conforto. O local e o acervo foram posteriormente transferidos para o poeta Gonçalo Ferreira da Silva, que assim pôde realizar o seu sonho maior que era criar a Academia Brasileira de Literatura de Cordel.

Apesar de ter certa raiz folclórica, o Rei­no de São Saruê não encontra registro em nenhum compêndio conhecido, como entidade fantástica. É São Saruê uma das muitas cidades maravilhadas produzidas pelos cérebros doa poetas da Literatura de Cordel, onde tudo ocorre por força de encantamentos e milagres. É ela a mesmíssima El Dorado dos antigos desbravadores, o Reino das Amazonas onde tudo é de ouro, a Terra das Esmeraldas pela qual as espadas e garruchas dos bandeirantes dizimou tribos inteiras. É também o País das Maravilhas de Lewis Carroll e Alice, o Reino Encantado de Oz, quiçá a própria terra prometida dos judeus errantes.

Alguns calepinos registram em geral a expressão Saruê como sinônimo de Sarará. No Nordeste é também a "espiga de milho que nasce com poucos grãos". Saruê, Sarigueia ou Sariguê é o marsupial, conhecido por alguns por Mucura e por outros – erroneamente, a meu ver – por Gambá.

Saruê é também a "dança em que se misturam figuras da quadrilha francesa com passos de danças sertanejas e na qual a marcação é feita num misto de francês estropiado e de português". A expressão, dizem, é corriqueira no centro-oeste ali por Goiás, Mato Grosso e adjacências. Particularmente tenho assistido desde a infância as representações juninas, que culminam com o casamento dos noivos durante as festas, sempre sendo chamada de quadrilha.

E para encerrar esta digressão conto que nas leituras ainda descobri que algumas lendas indígenas citam Saruã como uma coisa ou um lugar encantado, misterioso, aonde tudo que ocorre e se descreve não se acha explicação racional. Esta é decerto a ideia mais aproximada da fantasia criada e elaborada com esmero por Manoel Camilo dos Santos.

No livro "Minha Gente (Costumes de Sergipe)" de Clodomir Silva (Paulo, Pongetti & Cª. 1926), pequeno volume temas folclóricos, deparei com alguns versos ditos pela boca de cantadores em desafio – um se acompanhando da tradicional viola e o outro com um cavaquinho, pasmem! – versos esses que tomam mais remota localização da mágica cidade em que Manoel Camilo bebeu o vinho celestial da fantasia:

"Na terra de Som Saruê
tem coisa de admirá:
muié corta de machado,
deixa os cambito virá;
amunta nos pordo brabo,
é quem dá sarto mortá;
e cond'as muié dá lúiz,
os home dá de mamá..."

Portanto, a fama de lugar onde coisas maravilhosas acontecem já vem de longe. O próprio Manoel Camilo dos Santos confirma isso no princípio da sua história:

"Eu que desde pequenino
sempre ouvia falar
neste tal São Saruê".

Mostrando, assim, que as origens do mítico Reino de São Saruê – a Eldorado do cordelista – é mais longínqua do que se pensa. No volume anteriormente citado, do qual não encontrei qualquer outra referência literária, nem do livro nem do autor, Clodomir Silva registrou também a resposta à oitava cantada pelo desafiante, sendo que esta foi recitada em sextilha, que é uma forma mais aproximada do cordel:

"Na terra de Som Saruê
é onde véve meus vizinho,
creando cabra de leite
pra sustenta bacurinho;
é bem nas unha dos gato
adonde os rato faiz ninho."

Pelo que se viu, a impressão que fica é que sob o mote “Na terra de Som Saruê / Tem coisa de adimirá” muita fartura de rima pode correr pela imaginação dos poetas, ao som das violas, do pandeiro e do cavaquinho. É um filão nobre pra cantador nenhum botar defeito.

A princípio estava eu mais propenso a considerar o desafio registrado como fruto da imaginação do autor de "Minha Gente", princi­palmente achar fantasioso o fato de cantadores se acompanharem com cavaquinho, instrumento jamais visto em cantoria. A confiança numa "explicação introdutória" do autor, no entanto, me fez ter fé nas informações ali contidas.

Diz a nota:

"O que se escreve aqui é fruto de observação. Pode ser defeituoso, mas é verdadeiro. Representa um contingente para a compilação dos modismos de Sergipe ainda poucos conhecidos e muitos descuidados."

Lendo o livro "Eu Conheci Sesyom", do biógrafo e grande glosador caicoense, Francisco Amorim, reforça a ideia que o cavaquinho já teve sua época como acompanhante de cantadores:

Mote:
Júlio, Rodolfo e Macrino
São necessários na farra.

Glosa:
Quando a tarde toca o sino
Chamando para a novena
Aparecem logo em cena
Júlio, Rodolfo e Macrino
Não sei dos três o mais fino
No cavaquinho e guitarra
Digo mais, não é fanfarra
Contando ali réis por réis
Sou franco: os três menestréis
São necessários na farra.

Mais adiante, voltando ao Clodomir Silva, em seu livro reclama que “nada se tem recopilado em Sergipe, depois de Sylvio Romero, o maior de todos, no culto a nosso berço e a seus costumes”.

Portanto, nada mais justo que pôr fé nos informes prestados no livro "Minha Gente", segundo os quais, terminada a faina diária, o pessoal se reunia no terreiro varrido de novo (recém-varrido), "espantando, ao som do cavaquinho e da viola, as canseiras de um dia de labor".

Manoel Camilo dos Santos engrossa a fileira de famosos poetas paraibanos. Se suas raízes familiares não se esticaram pelo terreno sergipano, fonte dessas antigas referências sobre a cidade dos seus sonhos, é mais provável que o próprio Reino de São Saruê, esse sim, se estenda autóctone e sem fronteiras por todo o território nordestino.

A fundação de cidades e lugares absurdos e comuns na de cordel. Leandro Games de Barros (nunca é demais citá-lo), um exemplo desse local só na imaginação dos poetas:

Na cidade da Caipora
Perto de Tabua Lascada,
Município da Rabugem,
Freguesia de São Nada,
Rua de Não Sei Se Há,
Esquina da Sorte Minguada.

Nesse local de difícil localização é que mora, numa vila mais longínqua ainda...

O visconde Cururu
Barão de Cuia Quebrada,
Morava na Vila Nojenta,
Rua da Esfarrapada
Travessa do Lagadiço
Na casa número nada.

(Gosto com desgosto)

O pequeno grande folheto de Manoel Camilo dos Santos (31 sextilhas e 2 décimas) tem o indiscutível mérito de colocar a fantasiosa região – São Saruê é mais que uma simples vila ou cidade, tem ares de nação – em definitivo no cume do folclore brasileiro, via Literatura de Cordel.

Aliás, recuássemos um pouco no espaço/tempo e São Saruê seria não um país, nem uma cidade, tampouco uma região e sim um Reino, um Império, aquele lugar maravilhoso de antigamente que fecundou nossa imaginação quando ouvíamos as histórias contadas debaixo de uma mangueira à luz das lamparinas.

A São Saruê de Camilo é um país, é uma cidade, é uma nação. E moderna, com todos os requisitos dos séculos futuros. Sua localização exata mais correta é a própria mente de cada leitor que folheia as 31 páginas do romance. São Saruê vive na imaginação rica de quem sempre aspira um lugar assim para viver a vida tranquila que sonhou sempre – e não "nas unha dos gato / adonde os rato faz ninho", como no repente sergipano citado antes.

Embora, admita-se, “nas unha dos gato” seja um lugar tão fantástico quanto qualquer outro, capaz de caber outra São Saruê inteirinha por entre os becos e vielas...

A viagem de Manoel Camilo dos Santos e a consequente viagem dos seus leitores – inicia em obediência à ordem expressa do "Doutor mestre pensamento", que afinal irá tornar realizado o sonho do menino que um dia ouviu falar na estranhíssima terra:

Camilo vá visitar
o país São Saruê
pois é o lugar melhor
que neste mundo se vê.

Mas São Saruê é mesmo um país imaginário ou fantasmagórico? Nem tanto, a terra existe, a cidade é real, igual a tudo que "neste mundo se vê". E tudo aquilo que se vê não é fruto da imaginação, a não ser as miragens desérticas que iludem o viajante solitário. E ainda mais, antes mesmo de aportar em terra tão fabulosa, coisas estranhíssimas começam a perturbar a viagem narrada:

Iniciei a viagem
as quatro da madrugada 
tomei o carro da brisa
passei pela alvorada
junto do quebrar da barra
eu vi a aurora abismada.

Pela aragem matutina
eu avistei bem defronte
a irmã da linda aurora
que se banhava na fonte
já o sol vinha espargindo
no além do horizonte.

Surgiu o dia risonho
na primavera imponente
as horas passavam lentas
o espaço incandescente
transformava a brisa mansa
em um mormaço dolente.

Passei do carro da brisa
para o carro do mormaço
o qual veloz penetrou
no além do grande espaço
nos confins do horizonte
senti do dia o cansaço.

O que mais impressiona na mágica viagem que se inicia (e depois na própria cidade folclórica de São Saruê) são os interregnos poéticos, dignos de poetas mais tradicionais, desde Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista.

Para o poeta popular a aventura do lirismo é muito perigosa porque exige alta dose de talento, conhecimento e rigor, para evitar a repetição e o vácuo piegas que costumam transformar em ridículo a criação poética. Manoel Camilo dos Santos, porém, se sai de forma estupenda das inúmeras dificuldades que o texto cria a cada nova estrofe:

Enquanto a tarde caía
em mistérios e segredos
a viração docilmente
afagava os arvoredos
os últimos raios de sol 
bordavam os altos penedos.

Morreu a tarde e a noite
assumiu sua chefia
deixei o mormaço e passei
pro carro da neve fria
vi os mistérios da noite
esperando pelo dia.

Ao surgir da nova aurora
senti o carro pairar
olhei e vi uma praia
sublime de encantar
o mar revolto banhando
as dunas da beira mar.

Superado esse "trânsito" tumultuoso, cheio de surpresas, eivado de figuras assombrosas, promessa de um mundo desconhecido, eis que surge à vista a cidade de São Saruê, igualmente fantástica, faiscante, luminosa:

Avistei uma cidade
como nunca vi igual 
toda coberta de ouro
e forrada de cristal
ali não existia pobre
é tudo rico geral.

Uma barra de ouro puro
servindo de placa eu vi
com as letras de brilhante
chegando mais perto eu li
dizia: – São Saruê
é este lugar aqui.

Os metais preciosos, as pedras de quilates insuspeitados, sempre tiveram a preferência dos humildes, para demonstrar e simbolizar a riqueza quase nunca alcançada. A São Saruê, cintilante e extraordinária, confirma essa tendência. O brilho da prata, a faísca do diamante, a cintilação da pedraria, o colorido das esmeraldas, o rútilo faiscante dos metais, tudo deixa o visitante de boca aberta:  
Quando avistei o povo
fiquei de tudo abismado
uma gente alegre e forte
um povo civilizado
bom, tratável e benfazejo,
por todos fui abraçado.

A preocupação com as igualdades sociais começa a ser ressaltada pelo poeta. O povo, absolvido da visão miserável da região nordestina, aqui e "bom, tratável e benfazejo"...

No fundo, no fundo, trata-se confessar uma esperança e um desejo de que as coisas mudem para melhor, de que o irreal prevaleça sobre a realidade constante e aterradora do sertão. Uma vontade de saber, um desejo comum, um reconhecimento de que a terra poderia ser outra bem melhor...

O povo em São Saruê
tudo tem felicidade
passa bem anda decente
não há contrariedade
não precisa trabalhar
e tem dinheiro à vontade.

Lá os tijolos das casas
são de cristal e marfim
as portas barras de prata
fechaduras de "rubim"
as telhas folhas de ouro
e o piso de cetim.

Da mesma forma que o poeta deseja o bem-estar da população, almeja-lhe fartura, saúde, boa alimentação, de preferência a custo nenhum. Para tanto, é necessário que a própria cidade, com sua natureza fértil provenha a população de modo natural. Não é de surpreender, pois, que nada seja vendido ou comercializado ou objeto de transação comercial e financeira. Em São Saruê tem de tudo para todos, tão gratuitamente quanto a natureza oferece.

Lá eu vi rios de leite
barreiras de carne assada
lagoas de mel de abelha
atoleiros de coalhada
açudes de vinho do porto
montes de carne guisada.

As pedras em São Saruê
são de queijo e rapadura
as cacimbas são café
já coado e com quentura
tudo assim por diante
existe grande fartura.

Feijão lá nasce no mato
maduro e já cozinhado
o arroz nasce nas várzeas
já prontinho e despolpado
peru nasce de escova
sem comer vive cevado.

Galinha põe todo dia
invés de ovos é capão
o trigo invés de sementes
bota cachadas de pão
manteiga lá cai das nuvens
fazendo ruma no chão.

Lá os pés de casimira
brim, borracha e tropical
de nycron, belga e linho
e o famoso diagonal
já bota as roupas prontas
próprias para o pessoal.

Os pés de chapéus de massa
são tão grandes e carregados
os de sapatos da moda
tem cada cachos "aloprados"
os pés de meias de seda
chega vive "escangalhado".

O mais admirável de tudo é que, embora o país de São Saruê ofereça ao cidadão tudo de bom, todo o necessário para a sua sobrevivência, também não falta ali o "vil metal". Para quê? Lá se sabe!... Talvez para que o fascínio que provoca o dinheiro se mantenha vivo entre a gente mais po­bre. Talvez para um caso de rara necessidade... mas seja para qual necessidade for, a verdade é que dinheiro jamais falta ali, tem em abundância.

Sítios de pés de dinheiro
que faz chamar atenção
os cachos de notas grandes
chega arrastam pelo chão
as moitas de prata e ouro
são mesmo que algodão.

Os pés de notas de mil
carrega chega encapota
pode tirar-se a vontade
quanto mais tira mais bota
além dos cachos que tem
casca e folha tudo é nota."

Os peixes lá são tão mansos
com o povo acostumados
saem do mar vem pras casas
são grandes, gordos e cevados
e só pegar e comer
pois todos vivem guisados."

Sendo tudo fruto de encantamento, em São Saruê a fome e as doenças foram extirpadas. A vida lá realça o prazer sem trabalho­. Um verdadeiro país de diversão, alegria, felicidade e lazer.

Maniva lá não se planta
nasce e invés de mandioca
bota cachos de beiju
e palmas de tapioca
milho a espiga e pamonha
e o pendão é pipoca.

As canas em São Saruê
não tem bagaço (é gozado)
umas são canos de mel
outras açúcar refinado
as folhas são cinturão
de pelica e bem cromado."

A cidade cresce aos olhos dos leitores em tamanho e prodígio. Para fins de localização note-se que lá existe uma culinária bem brasileira, bem nordestina. Não obstante São Saruê pertence a uma região que acompanha o progresso, os ditames da moda advindos das metrópoles mais avançadas do mundo.  Se em São Saruê não existem privilégios, também não há esquecidos. Tudo do bom e do melhor que a vida oferece é para todos e não só para uns poucos como a razão capitalista estabelece e faz sentir.

Dona de uma população perene, São Saruê também vê seus filhos nascerem e deles não se descuida. E quando a velhice chega, não tem problema: é só dar um mergulho no Rio da Mocidade e o octogenário cidadão de repente volta à sua mocidade, fica novinho em folha!

Lá quando nasce um menino
não dá trabalho a criar
já é falante e já sabe
ler, escrever e contar
salta, corre, canta e faz
tudo quanto se mandar.

Lá não se vê mulher feia
e toda moça é formosa
bem educada e decente
bem trajada e amistosa
é qual um jardim de fadas
repleto de cravo e rasa.

Lá tem um rio chamado
O banho da mocidade
onde um velho de cem anos
tomando banho a vontade
quando sai fora parece
ter vinte anos de idade.

O visitante foi bem tratado nos muitos dias que ali passou, gozando "prazer, saúde, alegrias”. Sua única ocupação era recitar poemas.

Lá existe tudo quanto é de beleza
tudo quanto    é bom, belo e bonito,
parece um lugar Santo e bendito
ou um jardim da divina Natureza:
imita muito hem pela grandeza
a terra da antiga promissão
para onde Moises e Aarão
conduziam o povo de Israel,
onde dizem que corriam leite e mel
e caía manjar do céu no chão.

Tudo lá é festa e harmonia,
amor, paz, benquerer, felicidade,
descanso, sossego e amizade
prazer, tranquilidade e alegria;
na véspera de eu sair naquele dia
um discurso poético, lá eu fiz,
me deram a mandado de um juiz
um anel de brilhante e de "rubim"
no qual um letreiro diz assim:
– é feliz quem visita este país.

Depois de apresentada ao resto do mundo com tantos elementos maravilhadores, a terra de São Saruê se transformou num mundo turístico para muitos brasileiros ilustres. Inu­meráveis são as laudas escritas enaltecendo o lugar e seu fun­dador. Muitas são as versões havidas das inspirações provocadas pela poética de Manoel Camilo dos Santos. Contam já centenas de outros reinos encantados, tão encantadores quanto São Saruê, fi­lhos dos reinos mágicos de outrora.

Países de identidade virtu­almente oposta a dos mundos fantásticos da ficção científica, reverso mesmo das terras espaciais frequentadas por um Flash Gordon, e outros heróis futuristas, mas tão intensamente prodigioso quanto elas.

Muitos novos reinos serão ainda descritos, desta vez são saruês com nav­es estelares, videofones intergalácticos, outros sois, outras luas. Tudo o que a nova tecnologia atualizou e mais a internet com seus espaços virtuais. Mas, por enquanto, aqui por nossa terra poética, só existe uma São Saruê.

Convém visitá-la logo, antes que acabe...

Vou terminar avisando
a qualquer um amiguinho
que quizer ir para lá
posso ensinar o caminho
porem só ensino a quem
me comprar um folhetinho. 
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