terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Gallego José - Miguel Ábalos (especial para Argenpress Cultural)



Caminha lentamente até a praça, buscando o morno sol de um inverno que se faz longo. Conheceu outros invernos muito mais rigorosos, com neve e temperaturas abaixo de zero. Isto não é inverno... um pouco de frio, nada mais. Não será esse mísero inverno que o deixará imobilizado diante de uma estufa elétrica. Estufas bobas, sem ruído, silenciosas; não como aquelas de seu povoado de Galícia, onde se divertia olhando a dança das chamas formando dantescas figuras ao chiar das lenhas.

Arruma a boina azul para que o vento não a leve e apoia firme sua bengala. Ah... a bengala. Quando era jovem e forte como um carvalho, jamais pensou que algum dia iria usar. O trabalho, a luta diária para dar à sua família o melhor, foi gastando seu corpo fornido. Depois, os anos fizeram o resto. Hoje, completamente só, com a carga enorme de incontáveis anos, resta-lhe o morno sol da praça... e suas recordações.

Ajusta melhor o cachecol e acomoda devagar o corpo no banco de pedra. As árvores... As árvores mantêm algumas poucas folhas tristes, que se recusam a cair, aferradas à sua origem, para não ser joguetes ao vento. Acomoda a bengala ao seu caminhar. Nestes últimos anos a mesa do boliche da esquina da praça foi ficando vazia. Os invernos foram devorando lentamente seus companheiros e amigos, com quem as horas passavam alegres e divertidas. Estava o basco Inzúa com suas estórias, Fernández com suas arapucas no baralho, os irmãos Varelas com seus copos de vinho, o baixinho Rodríguez e suas eternas mentiras.

Já não sobra nada para falar e recordar. Ah... recordar. Sempre é lindo recordar. Quem não gosta reconhecer nos olhares a nostalgia de outros céus distantes? Aqueles povoados da Galícia, que foram abandonados, em busca de coisas materiais, que de nada serviram – porque para encontrar a autêntica felicidade tem que olhar para dentro e não navegar mar afora. Hoje tudo passou, já foi.

O cansaço das pernas que se negam a sustentá-lo. Humilhante cansaço, depois de tanta altivez. O cansaço das mãos calejadas por centenas de horas de trabalho. O cansaço dos pés, endurecidos de tanto andar. E o amor-próprio que se rebela ante tanto cansaço. O tempo, a velhice, gallego. Também a velhice, contra a qual no se pode lutar, que põe lágrimas mudas nos olhos, já secas, sem rebeldia.

Mantém presente a mirada materna, a partir do povoado, nublada pela aflição. E o rosto austero do pai, envelhecido, com o qual procurava ocultar a tristeza. As montanhas, os montes, dando-lhe seu adeus eterno. O campanário da igreja, as casinhas baixas, ficando cada vez mais atrás, cada vez mais distantes. Os sapatos úmidos de orvalho na partida silenciosa, quase secreta. Tudo está tão nítido.

É a velhice, gallego. A velhice que traz a nostalgia do abraço de outros braços. A nostalgia que aperta sem deixar-se ver. O tempo tirano, que puxa pelo braço, que chama, reclamando, sussurrante, insistente.

O sol vai marchando para o poente e a praça, só, vai ficando fria. Tem que retornar. Pegar a bengala, arrumar a boina, apertar o cachecol, o cachecol. Como pesam as pernas e o corpo. Como custa mover as mãos adormecidas. Porém, tem que voltar. Enquanto se pode, tem que voltar. Ah... voltar. Retomar o caminho com o passo cansado e voltar amanhã, talvez. Voltar... para quê? Para quê, gallego, para quê?


Trad. Salomão Rovedo
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