terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Oliveiros Litrento - Tempo de Cachoeira

Romance - Prêmio da ABL 1982
Editora Numeriano - Maceió, AL - 2004

Conheci Oliveiros Litrento no Clube de Xadrez Guanabara, onde, é claro, a conversa raramente ultrapassava os limites dos tabuleiros e partidas. Muitos parceiros eram assim: maestros, militares, matemáticos, engenheiros, músicos, gente de toda classe frequentava o CXG – jogadores de xadrez também! Litrento foi o melhor dos companheiros: fala macia, sempre sorrindo, apaixonado por xadrez. Mas quando a conversa pulava a cerca além do jogo, a prosa fluía mansa e firme, cheia de conhecimento. Desviamos uma conversa ao acaso para literatura, pois no dia seguinte ele me presenteou com Tempo de Cachoeira, romance de tua terra natal.

“Don’Ana, educada, falando com aquela deferência desembaraçada em movimentos, a arrastar o vestido comprido de punhos bordados, cabelos negros e longos, cuidadosamente enrodilhados em cocó, a filha mais velha do Coronel Chiquinho era tão bela como um passarinho de sua infância. Flores derramadas no caminho. Brancas. Vermelhas. Roxas. Uma senhora de engenho, casada, cujas belas feições guardara, parecia ter quase o mesmo rosto da namorada. O roçar do vestido, aproximando-se, fazia com que baixasse a vista, como se estivesse face a face com o andor de Nossa Senhora da Conceição. De olhos fechados, voltava aos passeios alegres da meninice”.

Interessado em conhecê-lo melhor fui descobrindo uma obra gigante nas letras nacionais. Então aquele Oliveiros Litrento, jogador de xadrez a quem comove as belas jogadas, simples em gesto, fala e aparência, trazia a reboque importante carga de conhecimento, que, alegre e feliz, dividia com alunos, leitores e amigos, pois era professor de Direito Político e Internacional na UFRJ, Gama Filho e UERJ, de Direito Constitucional Penal Militar Internacional na AMAN, Perito e Doutor em Direito Internacional pela ONU. Tempo de Cachoeira é um romance que fala desse outro Oliveiros Litrento, de inspiração cuja utopia vira sonho e o sonho vira utopia:

“Era Don’Ana o sol esquentando o rio, a chuva que gerava o canavial do engenho, a alegria da safra, o gosto de açúcar mascavo, a moça das toadas nostálgicas, com formosura de princesa, que os cegos cantavam nos abecês de feira e os almocreves repetiam, tangendo bestas, em longas e carregadas viagens, cansativas e solitárias. Cantigas de gajeiro. Cavalhada. Canavial gemendo. Fragmentos da Nau Catarineta. Os samburás com aguardente batendo. Argueiro no olho da poeira dos caminhos. A toalha leve, que se alongava na mesa, toda serpenteada de riscos azuis, lembrava o mar, que não conhecia, trazendo ruas daquele rio de janeiro, belo, misterioso e distante. E a moça quase não sorria. Mas o que dissesse era agradável de ser ouvido”.

Na literatura, área de meu interesse, meu parceiro de xadrez foi laureado com os Prêmios Sílvio Romero, Olavo Bilac, Jorge de Lima, Paula Brito, Orlando Dantas e Silvio Romero, Oliveiros Litrento integrou o Conselho Superior do IAB, a Academia de Letras do Rio de Janeiro,  de Alagoas e a Federação das Academias de Letras do Brasil. Oliveiros Litrento (São Luis de Quitunde, AL-1923 - Rio de Janeiro - 2006), no romance Tempo de Cachoeira fala de sua terra, de suas memórias, mas relata em especial aspectos de todo o Nordeste:

“Maria Rita, agora, era apenas uma sombra. Não voltaria mais. Tinha as pálpebras fechadas de sono. A longa cabeleira negra vinha do mar e o corpo era denso de noite. Resgatado às origens. Os olhos da adolescente subiram aos céus e piscam agora como estrelas distantes, guardando com ternura as águas que caem fragorosamente dos despenhadeiros selvagens de Cachoeira. Era como se magicamente tivesse regressado à infância para viver de novo na plumagem dos pássaros coloridos, no ruído leve das folhas acordadas pela madrugada, nas jangadas da manhã nascente, deixando de leve a praia de Pajuçara”.

Que grande amigo eu tive! Amigo no tabuleiro, quando dividíamos comentários sobre os lances de uma partida de xadrez,  escritor e poeta inspirado, Litrento escreveu em poesia: O soneto e a fábula; O leopardo azul; O astronauta marinho; 100 sonetos de amor; Orfeu e a Ninfa; Inquietação de Narciso. Em prosa: Pajuçara (novela); O cego e o mar (contos); Tempo de Cachoeira (romance); O dorso da pantera (romance). Deixou escritos de crítica literária, ensaios, literatura brasileira, história, além de estudos didáticos na área de direito internacional. O talento do meu parceiro de xadrez ficou claro quando li e reli esse romance maravilhoso:

“Constatado o vazio da clareira, as árvores da mata, aturdidas e silenciosas, pareciam gigantes pesarosos, recusando a humilhação da ausência. Sugerindo que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto, pesada, mas efêmera. Tendo a imaginação tocada pelo delírio, Teodorico apeou-se, amarrando o cavalo solitário e foi encostar a cabeça no tronco daquela mesma árvore que havia abrigado o primeiro amor de sua juventude. E olhando para o chão de folhas, que já não era o mesmo, sentiu-se irrequieto com o espírito vagamente confuso”.

A mesma mesa do Clube de Xadrez Guanabara em que disputávamos com ardor partidas rápidas amistosas, servia de palco para a conversa informal, mais intimista, direito que os amigos chegados possuem. Numa dessas conversas, Oliveiros Litrento comentou que já tinha concorrido a imortal na Academia Brasileira de Letras por várias vezes. Apesar de ter conseguido mais dez votos ele jamais foi eleito, mas continuava disposto a tentar alcançar esse sonho impossível. Mesmo tendo vários amigos na ABL e sendo rico em saber, Oliveiros Litrento não era milionário, senão da palavra. Para a ABL vale mais a riqueza do ouro, do que o ouro da palavra:

Era como se, no escuro, tivesse apagado o último fósforo, como se estivesse descendo as escadas de um subterrâneo com a atemorizante impressão de que pisava um chão de catacumbas. E naquelas formas impuras e incontroladas da existência, exalando vapores asfixiantes de cavernas, retornou vertiginosamente à vida através das águas claras de um mar de esmeraldas”.

Litrento, dono de diplomas de várias entidades e academias, não realizou o sonho de entrar na ABL e eu não tive coragem para acordá-lo do que me parecia uma insensatez. Não tem como libertar o sonhador do sonho, só a morte pode fazê-lo. Quem seria eu, pobre mortal, para escurecer seus olhos verdes? Seria amigo se tentasse acordar os sentidos para uma realidade que matou já outros devaneadores? Ainda bem que em distante refúgio Oliveiros Litrento encontraria encanto e alento para tamanha frustração – tanto nas partidas de xadrez que jogava, quanto nas maravilhosas páginas que escrevia, extravasava inspiração, estro e entusiasmo criador:

“Aquele instante, de expectativa e silêncio, era simultaneamente deslumbrante e sombrio. Havia um frescor de madrugada como se vovô Medeiros, Don’Ana e Maria Rita, todos estivessem apenas dormindo. Mergulhados em dias transparentes, que lembravam as conchas róseas e amigas de Pajuçara. Como voltando daqueles dias verdes. Assim, o homem grisalho intuiu que a morte era tão somente uma passagem, uma ponte para o outro lado do tempo”.

Jogar xadrez é um delírio, tanto quanto o sonho, a utopia – debruçar-se entretido entre peças, perpetrando jogadas, realizando combinações, é o mesmo que sonhar com um Brasil melhor, com amar Maria Rita, dona do romance na imaginação do escritor.  Tenho certeza que Oliveiros Litrento – o próprio – caminhou dentro das entrelinhas de Tempo de Cachoeira, romance que parece degraus de sua primeira existência, cheia de experiência e sabedoria, mas encharcado de sonhos e devaneios, alimento das aspirações ilusórias, das quimeras que se transformam em delírio:

“Na manhã encantada, Cachoeira parecia um vilarejo mágico. Longe do crepúsculo e da morte, todos estavam vivos. A verdade era mentira. E tanto era mentira que Maria Rita chegou de leve, sem as algemas da noite, como subitamente despertada de profundo sono”.

Rio de Janeiro, Cachambi, 2 de dezembro de 2014
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