segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Francis Scott Fitzgerald - O grande Gatsby (Romance)

(Biblioteca O Globo, 2007
Trad. Brenno Silveira) 

Estou relendo “O grande Gatsby” de Scott Fitzgerald. A edição é da Biblioteca O Globo, com tradução assinada por Brenno Silveira (quanto a isto, preciso do aval de Denise Bottman, minha consultora especial para assuntos de tradução honesta). Gosto de rever romances antigos, porque aguça a curiosidade a cada nova leitura. Tipo essa:

“Numa banca de jornais, [Tom] comprou um exemplar do “Town Tattle” e uma revista de cinema e, numa drogaria da estação, um pote de Cold Cream e um pequeno frasco de perfume”.

O que é Town Tattle? Agora sei que, como o nome diz, é uma revista de fofocas da década de 1920, igual à Broadway Tattler. Em nossa terra também tivemos um boom de revistas desse tipo – Revista do Rádio, TV Hora, Pop, Tititi, Paparazzi, Caras, Gente – que mudaram o denegrido “fofocas” por “celebridades”. Tais revistas – apoiadas pelos famosos fotógrafos paparazzi – volta e meia enfrentam processos judiciais por calúnia, difamação, exposição não autorizada, etc. E não só se expandiram do papel para programas de Rádio, faixas sensacionalistas da TV, como também invadiram a internet, resistindo a tudo e a todos.

E “um pote de Cold Cream” – que diabo é isso? Por que o cara com a namorada a caminho do apartamento compra um creme? Pensei na Pomada Japonesa e no KY. A Pomada Japonesa é pra dor de cabeça e o KY é um gel pra ser usado quando se irá penetrar em locais apertados, mas que, depois, se vê que foi jogar dinheiro fora. Pois o Cold Cream (o nome vem da sensação de frio na epiderme) – emulsão de água, óleo, cera de abelha e perfume –, diz que é pra amaciar e limpar a cútis. No entanto é creme de múltiplo uso: remove maquiagem, limpa os olhos, enxágua o rosto, faz máscara facial, purifica a pele, alivia queimadura, e faz barba!  Como se vê, o Cold Cream, a Pomada Japonesa e o KY têm lá suas afinidades...
        
         Scott Fitzgerald tem a sua permanência assegurada não só por registrar o retrato de uma época e de uma sociedade, mas porque, como uma máquina fotográfica, fixou imagens da cidade que crescia vertiginosa, bonita, feliz e cruel. A Nova York simbólica ficou afamada com tais descrições, retratada por imagens que se transformaram, mas permanecem, são atuais, estão ainda presentes entre o volume assimétrico das edificações modernas.
        
Neste pequeno trecho vimos como F. Scott Fitzgerald se mostra observador do panorama de Nova York e adjacências, sem deixar de lado as mudanças e transformações sociais que se vislumbravam:

“Atravessávamos, agora, a grande ponte, com a luz do sol, através das barras de aço, a lançar sombras palpitantes sobre os automóveis que passavam, enquanto a cidade se erguia, do outro lado do rio, em brancos montes de edifícios, construídos sem se levar em conta o dinheiro. A cidade, vista da Ponte Queensborough, é sempre uma cidade vista pela primeira vez, em sua primeira e violenta promessa de todo o mistério e de toda a beleza existente no mundo”.  

É o próprio repórter fotográfico que fixa a fotografia de dois mundos, tão próximos: a cidade campo de guerra e a vila da paz, aonde se recolhem os guerreiros após a refrega para o banquete, a dissipação e o consumo dos lucros obtidos com o butim às vítimas saqueadas. Por outro lado...

“Ao atravessarmos Blackwell’s Island, uma limusine tomou-nos a dianteira, dirigida por um chofer branco, e nela se achavam três negras bem vestidas, dois sujeitos e uma menina. Ri às gargalhadas quando os seus olhos rolaram sobre nós em altiva rivalidade”.

“Tudo pode acontecer, agora que deslizamos sobre esta ponte”, pensei. “Tudo, absolutamente tudo...”

Por outro lado não deixa de reparar com argúcia as mudanças políticas, as transformações, advindas com a profética ascensão de uma nova classe social, aquela que ainda sofre consequências de uma discriminação odiosa em terras do Sul e do Oeste.

Na grande cidade, o acesso é permitido a todos que se propõem a realizar e a participar do seu engrandecimento, do seu progresso sem quaisquer barreiras. Nova York foi uma cidade preconcebida, primeiro como “porto livre” em que se permite liberdade de acesso e de se fixar residência, depois como “mercado livre”, quando o trabalho e o lucro são oferecidos abertamente – assim promoverá o progresso próprio, a ascensão da sociedade.

O registro geográfico também é parte do romance. A ponte Queensboro (atual Ed Koch Queensboro), foi inaugurada em 1909, cruza a Ilha Roosevelt e liga Manhattan ao bairro Queens atravessando o West River. A ilha Blackwell (atualmente Roosevelt), é uma pequena faixa de terra entre Manhattan e o Queens – no passado foi chamada Minnehanonck pelos índios Delaware, Varkens Eylandt (Ilha dos Porcos) pelos neo-holandeses e durante a era colonial Blackwell. Por um tempo, quando era ocupada principalmente por hospitais, foi também chamada Welfare. Em 1971 a Blackwell de Fitzgerald foi renomeada Ilha Roosevelt, em homenagem a Franklin Delano Roosevelt.

Como se vê, O grande Gatsby guarda motivos para ser Cult, reeditado: é um romance que fala a história da sociedade, registra os mitos de uma cidade em pleno crescimento e destaca a movimentação de toda uma sociedade, alcançando não só o centro da ebulição, mas por igual aos personagens periféricos (sem os quais o núcleo não existe). Fitzgerald narra de maneira tão convincente, que o próprio autor muitas vezes se vê confundido com seus personagens – e vice versa! – como se fizesse parte viva integrante do ambiente inventado.

“E, à medida que a lua se erguia, as casas, desnecessárias, começaram a se dissipar, até que, pouco a pouco, me pus a pensar na velha ilha que ali florescera em outros tempos, ante os olhos de marinheiros holandeses – um seio fresco, verde, do Novo Mundo. Suas árvores extintas – as grandes árvores que cederam lugar à casa de Gatsby – tinham servido de motivo, sussurrantes, ao último e maior de todos os sonhos humanos, durante um breve momento de encantamento, o homem deve ter ficado com a respiração em suspenso em presença deste continente, compelido a uma contemplação estética que ele não compreendia nem desejava, face a face, pela última vez na história, com algo proporcional à sua capacidade de espanto”.

Com esse parágrafo magnificente, Francis Scott Fitzgerald aproxima o seu romance a um ponto em que a natureza humana se sobrepõe ao ambiente, à história, para se transformar em sonho, em utopia. Porém, é neste exato momento, em que tudo parece caminhar para a fantasia, a tragédia e a comedia, através das quais os personagens cruzaram, como fantasmas atravessam paredes, neste exato momento a realidade do futuro se mostra bem ali, palpável.

[Gatsby] não sabia que seu sonho já havia ficado para trás, perdido em algum lugar, na vasta obscuridade que se estendia para além da cidade, onde as escuras campinas da república se estendiam sob a noite”.
        
Apolo e Dionísio, as paixões da natureza, são convocados para completar em Gatsby o permanente duplo da alma humana, que vive entre a racionalidade – por um lado, e a fulguração – por outro. São essas as forças que se completam e têm livre trânsito no romance de F. Scott Fitzgerald: utopia, realidade, sonho. A ação se reparte, ora conforme o impulso, ora instintiva, racional, ambientes expressos de modo figurativo e clássico.

         “Gatsby acreditou na luz verde, no orgástico futuro que, anos após ano, se afastava de nós. Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços... E, uma bela manhã...” 


Rio de Janeiro, Cachambi, 17/11/2014.
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