quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Fernando Braga - Magma (Poesia) - 2014


Fernando Braga - Magma - Ed. Kelps (GO) 2014
 
Chegou MAGMA, de Fernando Braga. Veio escorrendo, líquido e poderoso, desde o planalto central. Fernando Braga é poeta que dorme com as palavras. Mas será verdade que o poeta não gosta de palavras? Que escreve pra se ver livre delas? Talvez. Como fica no talvez que a palavra torna o poeta pequeno. No abismo da morte o poeta escreve terra, palavra que ele se apega e suja a página. O poeta sangra, com raiva inicia a escrita. Cada palavra é vidro em que se corta (Couto). Com fúria e raiva o poeta acusa o demagogo, o capitalismo das palavras: é preciso saber que a palavra é sagrada, a ela o poeta deixa a alma confiada. Desde o início o homem soube de si pela palavra e nomeou a pedra, a flor, a água, e tudo emergiu. O homem se promove à sombra da palavra, da palavra faz poder e jogo, transforma palavras em moeda, como se faz com o trigo e a terra (Andersen). 

Tudo serve pra escamotear o vezo censório, a amperagem moralista contra as locuções chulas e o palavrão. Os deliciosos fonemas que nomeiam as partes pudendas, ignorando que não existe palavra impura (Barros). Não existe palavra nobre, sancionada pra a poesia, nem mesmo a proscrita do verso, que deveria ser escorraçada ao inferno da língua (Back). Certas palavras dormem à sombra do livro raro. É a senha da vida, a senha do mundo – buscada a vida inteira. Se tarda o encontro ou não a acho, não desanimo, procuro e a procura será a palavra. Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar, em hora qualquer. São restritas, reservadas pra companheiros de confiança, devem ser sacralmente ditas, em tom especial, onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança. São palavras simples: definem partes do corpo, movimentos, atos do viver que a nós é defendido por sentença. Quando tudo é proibido, então falamos (Drummond). 

Não importa a palavra corriqueira: é esplêndido o caos de onde emerge a sintaxe, os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”, o “o”, o “porém” e o “que”, compreensíveis muletas. Quem entende a linguagem entende Deus cujo Filho é o Verbo. A palavra é disfarce da coisa mais grave, surda-muda, inventada pra ser calada. Em momentos de graça se poderá apanhá-la: peixe vivo com a mão. Puro susto e terror (Prado). O que é a palavra descansada? Haverá sempre no mundo as palavras descansadas ou haverá ainda outras, as que não se cansam nunca, as mortas? As palavras morrem ou são esquecidas? As palavras que estão no dicionário, elas estão recuperadas, estão salvas ou apenas prisioneiras: quem terá interesse na prisão das palavras? As palavras simples navegam o mundo complicado com a verve de sempre ou perdem a compostura? Haverá, no meio delas, as tontas, as virgens, as palavras desavergonhadas, as vesgas? Existirá a palavra que tem em si a fuga dos sentidos e as que, resguardada do tédio, pode ministrar no silêncio a dor e a mentira? 

No sentido figurado, poesia é tudo aquilo que comove, sensibiliza e desperta sentimentos. É qualquer forma de arte: o ritmo, os versos, o som, a cor e as estrofes. Os versos livres têm liberdade pra definir o seu próprio ritmo e criar as próprias normas. A poesia é usada como forma de expressar sentimentos, como o amor, amizade, tristeza, saudade. A poesia é o espelho que torna bonito aquilo que é distorcido (Shelley), é a música da alma, sobretudo de almas grandes e sentimentais (Voltaire), é o eco da melodia do universo no coração humano (Tagore). A humilde canção popular é poesia (Croce), quando a emoção encontra o pensamento e o pensamento encontra a palavra (Frost), é o sentimento que enche o coração (Conde), é a religião sem esperança (Cocteau), é a arte de materializar sombras e dar existência ao nada (Burke), são pensamentos que respiram, palavras que queimam (Gray), está na alma, como o rouxinol nos ramos (Musset). A poesia genuína pode comunicar-se antes que se seja entendida (Eliot). Se alguém perguntar o que quiseste dizer com o poema, pergunta o que Deus quis dizer com o mundo (Quintana). 

Só os poetas têm autorização pra mentir (Plinio); o poeta nunca vive, morre aos pedaços (Félix); não há poema em si, mas em mim ou em ti (Paz); a poesia é ao mesmo tempo o esconderijo e o autofalante (Gordimer), é a metralhadora na mão do palhaço (Mattoso), a ilha cercada de palavras por todos os lados (Ricardo), a eterna Tomada da Bastilha, o eterno quebra-quebra, a queimação de Judas (Quintana). O poema está em tudo, tanto no amor como no chinelo, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas (Bandeira). Cadê a poesia? Indaga-se por toda parte. E a poesia vai à esquina comprar jornal (Gullar). Poesia é brincar com as palavras como se brinca com bola, papagaio, pião. Só que bola, papagaio, pião de tanto brincar se gastam. As palavras não (Paes). Eu faço versos como quem chora de desalento, desencanto.  Fecha o meu livro, se por agora não tens motivo nenhum de pranto. Meu verso é sangue. Volúpia ardente, tristeza esparsa, remorso vão. Dói-me nas veias. Amargo e quente cai, gota a gota, do coração. E nestes versos de angústia rouca assim dos lábios a vida corre, deixando o acre sabor na boca. – Eu faço versos como quem morre (Bandeira). 

O poema deve ser como a nódoa no brim: fazer o leitor satisfeito que dá desespero. A poesia é também orvalho. Mas este fica pra as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento, as amadas que envelhecem sem maldade (Bandeira). Escrever a água da palavra mar, o voo da palavra ave, o rio da palavra margem, o olho da palavra imagem, o oco da palavra nada (Maciel). Explicar a poesia ninguém consegue explicar. É mais pesada que o chumbo e leve igualmente ao ar. É fina como cabelo, é bela como o luar! Toca na alma da gente fazendo rir ou chorar. Faz a tristeza morrer e o sonho ressuscitar. A poesia é tão santa que, quando o poeta canta, Deus pára pra escutar! E pra terminar meu hino, a poesia seu menino, como tudo que é divino não dá pra gente pegar (Dedé). Quem faz o poema salva o afogado, abre a janela. 

O poema continua sempre, o poema que não ajuda a viver e não prepara pra a morte não tem sentido. Todo livro de poesia deve ter margens largas, páginas em branco, muito espaço pra a lágrima, o sorriso, a dor, a alegria e pra que as crianças possam encher de desenhos, gatos, homens, aviões, casas, chaminés, árvores, luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças, estrelas – que passarão a fazer parte dos poemas (Quintana). O poema é o mistério cuja chave deve ser procurada pelo leitor (Mallarmé). O poema nunca está acabado, somente abandonado (Valéry). O poema não deve significar, mas ser (McLeish). Os poemas têm direito à liberdade (Virgílio). Poemas não morrem (Ovídio). O que vou dizer da Poesia? O poeta não pode dizer nada da poesia. Nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia (Lorca). 

Poeta Fernando Braga, é assim que dou recebimento de MAGMA, espelhando, com palavras alheias, por toda parte, o teu engenho e arte. Pra que gastar saliva? Os poetas que celebraram de outros a fama e a vitória, hoje cantam valor mais alto, que do planalto se alevanta. Nada mais justo, né? 

Rio de janeiro, Cachambi, 05/11/2014.
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