sábado, 4 de outubro de 2014

Manuel Bandeira - Carnaval


Primo Quincas. Vai este à moda das cartas de antigamente. Eis-me aqui me satisfazendo com a releitura dos velhos livros, sempre descobrindo coisas que passaram despercebidas.

Inda agorinha mesmo, não foi ontem, pego o “Carnaval” de Manu Bandeira pra ler na sentina (meio de ocupar o tempo inútil e dar algum sentido às atividades fisiológicas), abro o livro ao léu e caio logo na página do poema que repito lá embaixo. Sabe o que achei? Que o Manu andou bem pertinho de Augusto dos Anjos (ou vice-versa), como que anunciando o vate paraibano.
      
(É outro livro que releio sempre, o EU, de Augusto dos Anjos – que coloco a par de “Folhas de relva”, “As flores do mal” – entre outros. – Um portento! – como diria o Pereira, depois de beber umas e outras aqui no Bar do Geraldo).

No caso do Manuel Bandeira, pelo amor de Deus! – não, não vá dizer aquele repetido: “o primo fescenino ataca novamente”, mas...

“Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.

Não é de beleza sutilíssima, não? E por que não atacam o velho Manu de ‘pedófilo’ – como está em moda no nosso país, que neste pleno século 21 tem leis proibindo até peidar em público, que, sonoro, será decretado crime ou infração com direito a multa – pois se enquadra aí quando ele escreveu:

“Antes da minha puberscência
Sabia todos os segredos...”

E por o caminho das safadezas vai! Confesso: fiquei muito tempo de pé atrás sobre o significado e a qualidade de Manuel Bandeira, na poesia e na literatura brasileira, tantos elogios recebeu de seus pares, principalmente da turma do Modernismo, pensando “é coisa de compadre” (que ousadia!), mas com o tempo o pernambucano me derribou de joelhos.

Mário de Andrade também deu conserto nessa minha bobagem, posto que foi não só amigo, mas aluno apaixonado pelo velho, não foi? Ainda bem, senão – é fato! – eu não teria por que passar entre meus pares por ser um ignorantaço, incapaz e incompetente, impossibilitado de cheirar o óbvio, bem debaixo do nariz?
      
Comentando mais um bocadinho sobre o poema “Vulgívaga”, que está lá embaixo, repito, dá pra notar os muitos elementos de convivência cotidiana que serviram de motivo, datam dos dias em que Manuel Bandeira morava e frequentava a Lapa, bairro boêmio do Centro do Rio – de alta periculosidade à época, até hoje um pouquinho.

“Não posso crer que se conceba do amor senão o gozo físico” – é regra geral que rege a profissão de prostituta.

“O meu amante morreu bêbado, e meu marido morreu tísico” – indicam os motivos dramáticos capazes de levar uma mulher a “cair na vida” (viver na prostituição).

A “mulher da vida” serve com frieza a todos os propósitos: “Aos velhos dou o meu engulho. Aos férvidos, o que os esfrie. A artistas, a coquetterie que inspira... E aos tímidos -o orgulho”.

Depois de explorar a todos, ingênuos, fracos, bêbados, poetas e artistas a meretriz, defronta-a o cafetão: “E todavia se o primeiro que encontro, fere toda a lira, amanso. Tudo se me tira. Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...”

A realidade crua e nua da vida prostituída das mulheres da Lapa, sem regras, é também feita da violência: “Se bate, então como estremeço! Oh, a volúpia da pancada! Dar-me entre lágrimas, quebrada do seu colérico arremesso...”

Uma vivência cheia de fantasia, de ilusões, esconderijo de violenta população criminosa, cuja arma mais temida era a navalha, cuja cicatriz incurável condena pra sempre a agredida: “E o cio atroz se me não leva a valhacoutos de canalhas, é porque temo pela treva o fio fino das navalhas...”

São os temas extraídos de uma convivência entre personagens típicos da noite da Lapa carioca, do Centro do Rio de Janeiro, que, por fim, expirou nos anos de 1960, a raiz da maioria dos poemas que regem Carnaval. Este livro, que Manuel Bandeira imprimiu em 1919, remexeu com a poesia brasileira.

Desiludido da vida pela tuberculose, o poeta viu-se livre e solto pra largar o verbo e o verso, fustigar a literatura pós bilaqueana – tudo se transformou num prato cheio pra os Modernistas.

É desse livro o poema desossado arriba, que – como disse – está bem próximo a Augusto dos Anjos (ou vice-versa). Portanto, em assim sendo, a consequência é que coloca este paraibano mais bem localizado que o simples rótulo de “pré-modernista”.
      
       Não é que eu te pareça tão abusado assim, são olhares preconceituosos, pra os quês me faltam óculos. Agora mesmo se esse artiguinho existe é que vim de bate-papo de mesa de botequim em que o tema foi levantado.
      
       É um consumidor de brama que leva a alcunha de Catedrático e já desanda com os olhares empapuçados, os cotovelos disformes, anômalos, característica dos consumidores excessivos da branquinha.

Aliás, defendo o Catedrático: se bem que deu os primeiros passos da jornada com caninhas de duvidosa qualidade passou em breve pra o malte escocês, dizque com receita médica!

O Catedrático é desses frequentadores de pé-sujo que tem o copo próprio e portanto o uísque vinha bem embalado em recipiente de fundo grosso (pra conservar o gelado), tem as bordas lapidadas a ouro e traz no corpo escudo com o brasão Something Special 1793.
      
       Antes que o Catedrático trocasse de médico e de método, sentindo fundadas ameaças à performance do fígado, pediu desligamento da The Scotch Whisky Association (SWA) e ficou só com a brama mesmo. Bem diz o ditado: quem tem cu tem medo. Bom, voltemos aos trilhos da poesia, que é o que interessa, né?

Vulgívaga 

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos...

Fui de um... Fui de outro... Este era médico...
Um, poeta... Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira... E aos tímidos - o orgulho.

Estes, caço-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi...
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!

E todavia se o primeiro
Que encontro, fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...

Se bate, então como estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas, quebrada
Do seu colérico arremesso...

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas...

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Então, pra não sair assim de fininho como quem não quer nada, boto mais alguns poemas, todos de “Carnaval”, que Manu Bandeira muito nunca é demais, bem como fartura jamais é à toa, abastança não requer carência, fortuna não é só riqueza, que a vida é de abundância muita e míngua pouca... Lá vai!


                  Epígrafe

Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente - se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja... Então, para cortar o soluço que adivinhei subindo de sua garganta, puxei-a para ao pé de mim e, com doçura:
- Tu és a minha esperança e felicidade e cada dia que passa eu te quero mais, como perdida volúpia, com desesperação e angústia...

Renúncia

Chora de manso e no íntimo... Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer, tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...

Alumbramento

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma...

Eu vi a estrela do pastor...
Vi a licorne alvinitente!
Vi... vi o rastro do Senhor!...

E vi a Via-Láctea ardente...
Vi comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...

Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

— Eu vi-a nua... toda nua! 

Epílogo

Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um Carnaval todo subjetivo:
Um Carnaval em que o só motivo 
Fosse o meu próprio ser interior...
Quando o acabei – a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta morta-cor
Da senilidade e da amargura...
– O meu Carnaval sem nenhuma alegria!..

Rio de Janeiro, Cachambi, 4 de outubro de 2014. 
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