quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Homero – Odisseia

A fidelidade de Argos, o cão de Ulisses
(Transcrição para prosa de excertos dos versos da Odisseia de Homero-
Tradução de Odorico Mendes- e outros escritos correlatos).  

Ali deitado um cão de orelhas hirtas levanta a cabeça. Atende por Argos. Hoje está exangue, mas outrora o próprio Ulisses o alimentava, até o dia que embarcou. Argos era um animal esperto, costumava caçar pelas matas e campos nos arredores de Ítaca. Tendo o dono partido, foi repudiado pelos demais e viveu seus últimos dias fraco e quase cego, infestado de carrapatos, tendo como cama estercos de bois e burros. Mas assim que fareja a presença do seu dono, suas orelhas se eriçam, o corpo freme, agita leve o rabo. Agora Argos está tão fraco que não pode se aproximar, saltando sobre seu dono, como é comum aos cães. Eumeu, que recebe Ulisses anônimo, disfarçado de mendicante, enxuga uma lágrima às escondidas.  
Ulisses comentou: “Um cão tão belo, é de admirar que esteja nesse monturo. Com o garbo que aparenta ter, se vê que era um cão esperto e bem tratado”.   
“Pertenceu ao herói roubado à pátria”, disse Eumeu. “Sim, era ligeiro, forte e bonito. A caça avistada ou farejada dele não escapava. Porém, morto o dono, Argos ficou enfermo e débil, os criados negligentes nem pensam nele. Os escravos se furtam às obrigações, quando a voz do amo não ouve”.  
O homem que nem sempre gosta daquele animal que o defende e o acompanha fielmente, faz muito mal. Muitos bichos têm mais coração e bondade do que certos homens. Argos, o velho cão de Ulisses, era guarda constante do palácio do Herói desde pequeno. Mesmo agora, decrépito e enfraquecido, ainda se mantém de sentinela em frente ao seu pobre canil...  
O velho cão Argos, amigo de sempre, comoveu ao tentar se levantar sobre as patas trêmulas. Ulisses o deixou com imensa melancolia, no dia em que partiu para Tróia. Desde criança, o cão compartilhou todos os folguedos com o dono: corriam pelos campos, caçavam lebres, cabras selvagens, esquilos, veados. Ulisses dava-lhe de comer na mão e ai daquele que tocasse no menino. Logo o cão rosnava, ameaçava morder, ladrava decidido a afastar o agressor. Todos o estimavam pra valer: tinha o pêlo lustroso e escovado, jamais faltava comida. Era como se fosse membro da família 
Mas, como tratariam hoje o velho Argos? A grande aflição que reinava na alma de Penélope e de Telêmaco não os deixava - bem se via - cuidar do animal. Trôpego, lazarento, magro e sujo, o cão envelhecera depressa. Deitara-se fora do canil, em cima do estrume, devorado pelas pulgas, quase cego. Mas, ao ouvir a voz de Ulisses, mexeu a cauda, encolheu as orelhas, quis erguer-se. O coitado não teve forças para correr, latindo e saltando, ao encontro do dono.  
Quem sabe então se lembraria das brincadeiras doutro tempo, a impetuosa caçada aos bichos bravios, a força com que dominava ladrões perigosos, o entusiasmo que o deixava ofegante ao subir montanhas num abrir e fechar de olhos, saltar sobre as valas, atravessar bosques na pegada de algum roedor.  
Ulisses contemplou o cão prostrado e deu vontade de chorar. Ao menos, para consolação derradeira, iria abraçá-lo e afagá-lo ternamente. Acercou-se dele, estendeu a mão para acariciá-lo. Já não pôde tocar-lhe vivo. Ao senti-lo ao lado, o bom Argos, tentando ainda mover a cauda e segurar-se nas pernas débeis, caiu para sempre, com um ganido surdo.  
A emoção ao tornar a ver seu dono consumiu-lhe as últimas energias. Sofreu resistindo à dor de vinte anos de ausência. Mas não resistiu ao júbilo inesperado da presença de Ulisses. Reconheceu-o logo, tentou festejar o seu regresso, mas não tinha forças.  
Eumeu era amigo de Ulisses, Telêmaco era filho afetuoso e dedicado – mas perante o mendigo andrajoso não souberam adivinhar a verdade que, ainda que tonto e meio cego, o fiel Argos de imediato pressentiu. Nesse momento Argos, ao contemplar seu dono após vinte anos, morreu em paz. Ulisses pranteou a sua morte como se fosse a do seu melhor camarada. E mais tempo a lamentaria, decerto, se não se avizinhasse o momento do combate, da vitória e da justiça.  
Essa é a parte mais comovente da história (ou tragédia) da Odisseia, de Homero. Narra a chegada de Ulisses à sua terra Ítaca, quando só o seu cão Argos o reconhece. A fatalidade com que o tempo apedreja o ser humano é chocante. Hoje essa inevitabilidade transporta Ítaca direto ao pesadelo interrompido, à metáfora da miragem, à terra que se alcançará somente pela utopia, miragem que apenas se descobrirá pelo tempo.  
Não está distante da nossa São Saruê nem da Parságada de Manuel Bandeira. Mas delas se descola porque Ítaca não será a terra da felicidade nem Ulisses será amigo do Rei. Em Odisseia a ventura chegará através da travessia, não da chega ao destino final.  
O poeta grego Konstantinos Kaváfis pegou o tema pelo cangote, quando escreveu o poema Ítaca, traduzido por José Paulo Paes. Ou você prefere a tradução mais abusada de Haroldo de Campos? Veja aí. 

ÍTACA
(Trad. José Paulo Paes) 
Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quando houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas. 
 

ÍTACA 
(Trad. Haroldo de Campos)
Quando, de volta, viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colérico Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os suscitar diante de si.
Roga que sua rota seja longa,
que, múltiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto.
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptuosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
Detém-te nas cidades do Egito - nas muitas cidades -
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar sua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.

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