quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Malba Tahan - O homem que calculava


Malba Tahan – O homem que calculava – Editora Saraiva, 1938

Releio “O homem que calculava”, de Malba Tahan. Lá pelas tantas, ao jovem que recusa as honrarias oferecidas, diz o Vizir:

“– Causa-me assombro tanto desdém e desamor aos bens materiais, ó jovem! A modéstia, quando excessiva, é como o vento que apaga o archote, cegando o viandante nas trevas de uma noite interminável. Para que possa o homem vencer os múltiplos obstáculos que se lhe deparam na vida, precisa ter o espírito preso às raízes de uma ambição que o impulsione a um ideal qualquer”.

As mesmas palavras caberiam a mim – tenho a modéstia como vísceras. Mas ao invés de apagar a lanterna e sujeitar-me às “trevas de uma noite interminável”, a modéstia me deu alforria do egoísmo, me liberou do cárcere do preconceito, desatou-me a alma da ambição, livrou-me da toa, deu amizades e amores, tornou-me liberal. No entanto, o esboço biográfico do autor diz: “– Antes de morrer Malba Tahan pediu que seu enterro fosse simples, sem homenagens flores e coroas. A humildade foi uma constante na vida desse homem que escreveu sobre os árabes e nunca foi ao Oriente Médio. Carioca de família pobre, Júlio César de Melo e Souza (seu nome real) escreveu 115 livros”. Também quero um enterro assim. Agora, quanto aos 115 livros, estou longe, longe...

Esse é um livro que li e reli desde moleque. São histórias contadas à moda de As mil e uma noites, com outros ingredientes: sai o erotismo, entra a matemática e outras ciências do cálculo. O homem que calculava é também um repositório de frases e pensamentos deixados por filósofos e matemáticos – ou geômetras, como o autor prefere. Esse e outros livros me deixaram marcas no miolo. Vou citar alguns, sem ordem cronológica, mas é certo que esquecerei outros:

Miguel de Cervantes: Don Quixote; Mark Twain: As aventuras de Huckleberry Finn; Mário de Andrade: Macunaíma; José Cândido de Carvalho: O coronel e o lobisomem; Mário Palmério: Chapadão do Bugre; Josué Montello: A décima noite; Orígenes Lessa: Rua do Sol; João Mohana: Maria da Tempestade; José Mauro de Vasconcelos: Meu pé de laranja lima; Guimarães Rosa: Grande sertão veredas; Franz Kafka: Metamorfose; Leon Tolstoi: Guerra e paz; Maximo Gorki: A mãe; Ernest Hemingway: O velho e o mar; Virginia Woolf: Orlando; Stefan Zweig: Schachnovelle.

E por aí vai, tem muitos, apenas para citar prosa. Livros de poesia são tantos que não cabe aqui. Muitos livros li por obrigação de aprender a escrever, de apreender a vida a ser vivida. Li O capital (Karl Marx), (acreditem!), a Bíblia, o Alcorão, As mil e uma noites, Os 120 dias de Sodoma (Sade), Decameron (Giovanni Bocaccio). Alguns eu não consegui ler, em especial Ulisses (James Joyce). Jamais passei do primeiro capítulo. Aquele negócio de inventar palavras e, depois, traduzir as invenções para outras invenções, bem isso não me atraiu. Dele prefiro Dublinenses e os poemas. Também não consegui ler O Alquimista (Paulo Coelho). E olha que gosto de ler autor porralouca: Sade, Charles Bukowski, Ernesto Bono, Giacomo Casanova (quando a segunda parte das ‘Memórias’ vai chegar ao Brasil?).

Mas o livro de Malba Tahan é de releitura sempre prazerosa. Já perdi a conta de quantos exemplares comprei, dei, recomprei e doei de novo. Tão misterioso o autor quis que seu livro fosse, que O homem que calculava abre com uma dedicatória que alguns consideram enigmática, cheia de hermetismo, uma alegórica oferenda aos mestres, por isso muitos tentam interpretar essa emblemática introdução.

Dedicatória
À memória dos sete grandes geômetras cristãos ou agnósticos: Descartes, pascal, Newton, Leibniz, Euler, Lagrange, Comte, (Allah se compadeça desses infiéis), e à memória do inesquecível matemático, astrônomo e filósofo muçulmano, Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, (Allah o tenha em sua glória!), e também a todos os que estudam, ensinam ou admiram a prodigiosa ciência das grandezas, das formas, dos números, das medidas, das funções, dos movimentos e das forças, eu, el-hadj, xerife, Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan (crente de Allah e de seu santo profeta Maomé), dedico esta desvaliosa página de lenda e fantasia.
Bagdá, 19 da Lua de Ramadã de 1321.

O matemático Henrique de Oliveira Costa (1879-1949), catedrático no Colégio Pedro II, considerou essa dedicatória “a página mais original que se apresentou, até agora, no imenso campo literário da matemática”. Referindo-se à dedicatória de O homem que calculava, escreveu o erudito economista argentino, professor José Gonzalez Galé: “O conteúdo altamente filosófico dessa estranha dedicatória, pelos nomes famosos que envolve, é uma das lições mais surpreendentes de simplicidade e tolerância religiosa que tenho lido em toda a minha vida”.

Dando exemplo de que os povos podem conviver tendo crenças e conceitos diferentes, os notáveis citados por Malba Tahan na dedicatória não foram assinalados pela fé, nacionalidade ou posição social:

René Descartes (1595-1650), geômetra e filósofo francês (Geometria Analítica), era cristão.
Blaise Pascal (1623-1662), geômetra e filósofo francês (Teorema de Pascal, Máquina de calcular, Cálculo das Probabilidades), era católico.
Isaac Newton (1642-1727), geômetra e matemático inglês (Lei da Gravitação), era protestante.
Gottfried von Leibniz (1646-1716), matemático e filósofo alemão (Cálculo Diferencial), era protestante.
Leonhard Euler (1707-1783), matemático e físico suíço (Deixou mais de mil e duzentas questões sobre a ciência), era protestante.
Joseph-Louis Lagrange (1736-1813), matemático francês (Mecânica Analítica), era católico.
Auguste Comte (1798-1857), filósofo e matemático francês (Positivismo, Geometria Analítica), era agnóstico.
Muhammad al-Khwarizmi (780-850), matemático e filósofo persa (Sistema de Posição), era muçulmano.

Quando o surgem as primeiras histórias narradas por Malba Tahan, em 1919, o autor tentou publicar no jornal ''O Imparcial'', sem sucesso. Outro personagem inventado, R. S. Slade, já fazia enorme sucesso nos Estados Unidos, asseverava Melo e Souza. Ele também aprendeu árabe, leu o Talmude, o Corão, leu a História e a Geografia do Oriente tão dedicadamente tornando impossível imaginar que as lendas, os costumes, mitos e folclores, as tradições e fábulas, originadas de seu vasto conhecimento cultural fosse resultado de estudos e pesquisas.


Foi no jornal ''A Noite'', que finalmente o personagem Ali Iezid Izz-Eduim Ibn Salim Hank Malba Tahan iniciou a caminhada que viria a eternizá-lo. Para dar veracidade às histórias, que datariam no Século 13, o autor também criou o heterônimo do professor Breno de Alencar Bianco, para se passar por ‘tradutor’ das lendas, que perduram até nossos dias. Honra e glória ao homem que calculava ...e ao que contou suas  histórias.
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