segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Jane Austen - Persuasão (romance)

Jane Austen – Persuasão (romance) – Edição comentada, seguido de duas novelas inéditas em português (Lady Susan e Jack e Alice). Zahar, 2012 – Trad. Apresentação: Ricardo Lísias, Tradução: Fernanda Abreu, Notas: Fernanda Abreu e Juliana Romeiro.  

Um verdadeiro séquito editorial acompanha esta edição de Persuasão, romance da mesma autora de “Razão e sensibilidade” (1811), “Orgulho e Preconceito” (1813) e “Mansfield Park” (1814). Mas o que faz um romance inglês originalmente publicado em 1817 percorrendo plagas brasileiras?  

Os romances de Jane Austen formam excelente material para filmes de época e séries de TV. É aquele chamado romance água com açúcar, uns bons, outros nem tanto. Essa é a principal razão de seus romances serem tão longevos. Outras editoras já os lançaram e relançaram entre nós: L&PM lançou Box com quatro romances em pocket book; Martin Claret editou o mesmo para livrarias e leitores de rodoviárias; Best Seller, ramo da Record, também tem a sua edição. E por aí vai...   

O autor da Apresentação (Jane Austen precisa mesmo de apresentação?), Ricardo Lísias derruba algumas árvores tentando tirar leite de pedra, trabalho árduo. No entanto, deste texto pode-se depreender alguma coisa, face ao que está dito na página 9:  

Assim como o cenário e as personagens, o estilo de Jane Austen não varia entre seus romances. Os textos são límpidos, redigidos de forma clara e sem sobressaltos. Às vezes, as descrições ameaçam exceder-se, mas o domínio técnico da autora, incomum e vistoso, interrompe-as antes do exagero. Normalmente ela faz isso utilizando o diálogo”.  

Mas logo no parágrafo seguinte o apresentador comete um exagero, talvez como obrigação técnica, quem sabe como um afago na editora ou ao provável leitor:  

Como exímia estilista, Jane Austen conhecia a medida das coisas. A propósito, colocando-a como ‘clímax’ do romance do século XVIII (*), o crítico Ian Watt conclui o célebre estudo A ascensão do romance com Jane Austen, ressaltando a precisão de seus textos”. A seguir vem a citação de Ian Watt, que não é senão outra, similar à já reproduzida pelo próprio Ricardo Lísias.  

Mas nem mesmo Watt teve a coragem de intitular a romancista inglesa de “exímia estilista”, contradição visível ante o parágrafo anterior. Para completar, a marca (*) registra um ato falho, ou do Lísias ou do Watt, posto que a reputação como escritora coloca Jane Austen entre a geração do século XIX.   

Ricardo Lísias tem ampla razão. Esse estilo retilíneo, sem maiores sobressaltos, acompanha o romance de cabo a rabo, tanto deixa o apresentador quanto a tradutora na situação do fácil/difícil. A tradutora Fernanda Abreu – será a cantora ou xará da mesma? – deve ter tido muito trabalho para arrumar em brasileiro esse texto tão pífio. Mesmo assim sobraram algumas palavras repetidas na mesma frase, como se faltasse um dicionário de sinônimos – ou bons revisores.  

Os comentários, nos quais a tradutora foi auxiliada por Juliana Romeiro, não fedem nem cheiram – apenas chateiam o leitor que de vez em quando tem que desviar a atenção do enredo por aqueles números chatos, que irão levar a um comentário inútil e mais chato ainda. Será que serviria de ajuda aos editores afirmar que a busca da perfeição às vezes é um tiro pela culatra? Não acredito: editores brasileiros primeiro contabilizam os tostões que não pagariam, somados aos reais que receberão.  

Enfim, as “duas novelas inéditas em português” que encerram o volume na verdade se mostram dois contos (ou contecos, como dizia Mário de Andrade). No caso, “Lady Susan” é que mais se assemelha à novela, não obstante a temática carregar o texto para a categoria de conto. O estilo epistolar está bem próximo de “As ligações perigosas”, famoso romance de Choderlos de Laclos, publicado em 1782. A comparação é inevitável.  

Tanto a obra de Laclos quanto o texto de Austen retratam as relações de grupos de aristocratas, através das cartas trocadas entre si. Enquanto Choderlos de Laclos confronta nobres sem escrúpulos, de modo a destruírem-se mutuamente as próprias reputações, Jane Austen repete a tradição conservadora de seu tempo. Ainda que o enredo tenha como foco personas manipuladoras que se movem entre a intriga e a sedução, tudo é feito “sem sobressaltos”, ao estilo Austen.  

Ainda hoje se faz enorme confusão, cheia de regras e explicações mais estapafúrdias, sobre o que é romance, novela e conto. Na maioria das vezes – como no presente caso – cabe ao leitor deduzir por conta própria: “Persuasão” é romance ou novela? “Lady Susan” e “Jack e Alice”, são novelas ou contos? Você decide...
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