sábado, 9 de agosto de 2014

Duayer – As histórias do meu avô

Duayer – As histórias do meu avô – Secult – Vitória – ES – 2014.

Feliz de quem tem avô para ouvir dele as histórias que plantou por décadas na imaginação; feliz de quem tem neto para ouvir histórias, inventadas e vivenciadas, que se tornarão mais vívidas na imaginativa mente infantil. Duayer já havia lançado o livro Cartas, no qual faz importante elo de ligação entre a correspondência antiga que chegava nas mãos dos carteiros e o e-mail, correio eletrônico que vaga como uma nave estelar até chegar ao destinatário.

Pois este “As histórias de meu avô” tem o mesmo valor daquele, mas desta vez é o tempo-espaço transfigurado, com datação, idade e período, trânsito de uma época, cuja atmosfera é necessário que se faça conhecer às novas gerações. Duayer teve a sabedoria de fazê-lo utilizando o mesmo jeito, pois era costume secular o encontro de gerações, na mesa, na varanda, sob uma árvore, para narrar e ouvir.  

Postura ancestral milenar que vem sido transmitida até hoje, as ‘histórias de meu avô’ é mais que gênero literário, é, sim, um modelo de qualidade cujo teor é o gotejar da lição imperceptível, aquela que se aprende com os ouvidos atentos e a expressão de espanto ante o inusitado – coisa que jamais se esquece.

Marco Aurélio, Imperador de Roma, cujos pais morreram novos foi criado pelo avô, de quem ele fala com calor, afeto e respeito. Com o avô, teve uma infância feliz e de muito estudo. Entre os anos 170-180 – já Imperador – Marco Aurélio anotou conselhos e pensamentos para si mesmo. Esse ‘diário’ chegou até nós com o título “Meditações” e a primeira frase do livro registra a sua gratidão ao velho: “A cortesia e a serenidade, aprendi-as eu, primeiro, com o meu avô”.

Em sua narrativa Duayer reflete o mesmo tipo de gratidão pelos dias que, menino, passava numa fazenda do interior mineiro: “Ah, quando me lembro do meu avô o coração sempre aperta”. É uma narrativa da memória que muitos escritores não conseguem esconder e um dia explode mundo a fora. Rachel de Queiroz também experimentou a mesma impossibilidade ao escrever com a irmã as histórias da fazenda “Não me deixes”, lá pras bandas de Quixadá.

“Meu avô chegava sempre no fim da tarde. (...) Nós, meus irmãos e eu, corríamos para abraçá-lo (...) e esperávamos, impacientes, para ele nos dirigir sua atenção e nos segurar no colo para falar palavras de saudade”. Juntos com as palavras vinham os contos de aventuras, as histórias assombradas e assombrosas, narrativas fantásticas que servem tanto para despertar a imaginação quanto para advertir sobre os males que a humanidade carrega escondidos, disfarçados de monstros. Desse medo que surgia a cada vírgula formava-se um escudo para defender as crianças em futuro vindouro.

“Quando ele acabava suas histórias, seus olhos brilhantes cruzavam nossos olhares medrosos e sonolentos, nossos corpos sem gestos. Tinha a certeza que nos ensinara uma lição”.

Gostaram? Procurem o Duayer por aí: ele estará de braços abertos esperando uma conversa, pois, tendo herdado os mesmos sintomas do avô, já conta aos netos velhas aventuras, recicladas com novos assombros.


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