sábado, 7 de junho de 2014

Memoria de mis putas tristes


Gabriel García Márquez - Memoria de mis putas tristes - Editorial Sudamericana/Mondadori - 2004

Primo Quincas. Escrevo-te para agradecer as imagens recebidas, em que fazes o registro fotográfico dos amanheceres mirados da tua janela aí em São Luís. Gritaria daqui: Bom dia, amigo sol! Pode entrar, a casa é sua! Esse é apenas um dos muitos e melhores trunfos que temos – os quase velhos – saber gozar o amanhecer, os primeiros raios da alvorada, constatar que ainda desta vez não ‘acordamos mortos’, que a indesejada anda longe, passou ao largo... que a vida segue.

Imagina que estava remexendo na minha velha estante quando dei de cara com o livro de Gabo (Gabriel García Márquez), “Memoria de mis putas tristes” que já havia lido antes. Sem delongas achei por bem partir pra releitura. Se ler livros é bom pra alguns tarados como nós, reler é mais melhor ainda, porque revemos o que não se tinha visto e saboreamos o que ficou virgem. É que nem uma segunda trepada, se a primeira foi boa... Estou lendo a primeira edição de 2004. García Márquez começa o conto assim:

“El año de mis noventa años quise regalarme una noche de amor loco con una adolescente virgen”.

Vê-se logo que García Márquez não quer mais praticar, nesta novela, aquela escrita com preocupações literárias, que este agora é o narrar de quem já largou a fama de lado e quer escrever por prazer, né? Uma escrita sincera – se podemos dizer assim. Notei algo que dá parecença com tuas (e minhas) manhãs; vem no relato lá mais um pouco pra frente, quando o velho descreve o próprio acordar (ao ler me ri de peidar):

“El dia de mis noventa años había recordado, como siempre, a las cinco de la mañana. (...) Los síntomas del amanecer habían sido perfectos para no ser feliz: me dolían los huesos desde la madrugada, me ardía el culo, y había truenos de tormenta después de tres meses de sequia”.

Esse ‘perfectos para no ser feliz’ é uma tirada, né? O detalhe é que, mesmo separado por vírgula, dá pra se ler nas entrelinhas que os “truenos de tormenta”, bem que poderiam ser, por analogia, ”truenos estomacales” ou de origem intestinal que costumam acometer os velhos vinte anos antes dos noventa. Mas a frase também rima igualzinho aos trovões que antecedem os temporais, tanto da Colômbia tropical, quanto de São Luís, aguaceiro que alaga tudo em minutos e logo depois se desmancham as nuvens negras, de repente o sol reaparece leonino e feroz. E assim estou já a meio livro.

Em Gabo – principalmente neste raconto, que vaga entre memória e ficção – não dá nem se pode estar separando frases de efeito, pois tudo está sempre bem colocado. Taí um autor que não aparece muito nas redes sociais, em meio àquelas citações miraculosas, remédio pra tudo na vida. Mas em “Memoria de mis putas tristes” García Márquez sacaneia mais o leitor (e pior ainda: o tradutor), porque escreve em castelhano de Colômbia, caribenho, que é outra escrita dentro da escrita. Tem frases inteiras que não entendo nada sem recorrer à tradução, mesmo precária como a minha.

Faço um parêntese para registrar o ponto pra mim: lembra que referi isso a você naquela cisma que tenho com Saramago e autores portugueses que têm a aquiescência maldosa do editor brasileiro e exigem, com arrogância, publicar suas obras aqui no Brasil em português “lusitano”? Por outro lado, já reparou que na internet os editores de texto especificam o espanhol para cada região, cada país, ao passo que o português é apenas “de Portugal” ou “brasileiro”? Onde foi parar a tal lusofonia que em tentativa insana praticou a farsa de propor a “unificação” do português? Caiu de podre, não foi? Isso depois de gastar alguns milhares de dólares com viagens, reuniões, publicações, etc. Ora, pois, pois.

Em particular pra mim tem um fato que buliu comigo, nesta “Memoria de mis putas tristes”: é que a cafetina do conto de GGM tem o mesmo nome da ‘fornecedora’, amiga e cafetina, que conheci aqui no Rio de Janeiro, em tempos que essa profissão existia ainda. A Rosa Cabarcas aqui era Rosa e, por mistificar, codinome Rosalba. Pra esta escrevi um texto “Rosalba Romero sobe aos céus” e também um poema, depois que soube que tinha falecido (de cirrose). Uma oferenda merecida para Rosa, em memória de uma cafetina que me proporcionou horas e horas de prazer – mas nenhuma virgem, te garanto. Por outro lado, também fazer-lhe uma visita só pra conversar era bom e prazeroso. 

Como Rosa Cabarcas, eu nunca soube a idade real dela, Rosa, Rosalba, eis que mantinha sempre a pele fresca e lisa, loura, olhos verdes, de corpo mais pra magro – tratava-se muito bem. Ademais, Rosa tinha feito algumas operações plásticas, entre as quais, uma pra diminuir os enormes peitos, outra pra apertar a vagina. Os peitos ela me mostrava com orgulho: peitinhos de menina – dizia; a vagina, como pude constatar in loco, a operação surtira efeito – ficou superapertada sim, mas não diria – vagina de mocinha, não... Mas esta plástica deixou um defeito: já não se molhava, perdeu o húmus, a umidade líquida que faz a gente deslizar pra dentro como um mergulho no mar.

A paixão dela – além da profissão de fé, a cafetinagem, à qual tinha aderido por legítima vocação missionária – era beber um bom uísque, chocolates, flores – presente que não faltava em todas as minhas visitas. Também gostava de fumar cigarros americanos. Deveria me bater o remorso por causa da cirrose, mas não o sinto porque beber uísque, fumar e cafetinar eram vício inato nela. Talvez usasse esse artifício para esconder certa tristeza, sempre presente em seus olhos de musgo, melancólicos, que se transfiguravam em prazer, alegria, risos, quando eu chegava com seus presentes preferidos.

Rosas vermelhas, perfume, chocolate, cigarro e uísque – não se pode falar mal da mulher que tem tais gostos. Além do mais, quando eu chegava de surpresa e não tinha nenhuma ‘novidade’ feminina, os presentes, o litro de blended, as rosas, o chocolate, o cigarro, tudo servia de desculpa e acabávamos na cama dando umas folladas, como deves imaginar. Como vês, também já tive pelo menos uma “puta triste”.

Voltando a “Memoria de mis putas tristes”, observo que, pra quem escreve, porém, nem tudo são flores, nem mesmo pra García Márquez, posto que lá pelas tantas ele solta um pum literário, comete uma ingratidão a seus leitores, me desdiz, quando afirmei que não era escritor de frases feitas:

“Nunca olvidé su mirada sombría mientras desayunábamos: ¿Por qué me conociste tan viejo? Le contesté la verdad: La edad no es la que uno tiene sino la que uno siente.”

¡Que mierda, Gabo! ¿Qué pasó? ¡Carajo! Cair na velha armadilha das frases de almanac, não é mesmo primo Quincas? A idade não é a que se tem, mas a que se sente. Francamente. Ora bolas! Enfim, por quem sois, tudo perdoamos a todos – por que não a Gabriel García Márquez, que nos deixou tanta fartura e alegria em seus escritos, em suas vidas? Como ainda não terminei a releitura, por enquanto é só. Abraço-te, etc.

PS: Em tempo lembro-me de exaltar a capa, ilustrada com fotografia de Luis Miguel Palomares, em que Gabo aparece de costas, cabelos alvos, caminha com os braços soltos, inicia uma passada, veste sua roupa favorita: calça e camisa de linho branco. É uma imagem feliz como um amanhecer, pra se guardar na lembrança...

Rio de Janeiro, Cachambi, 6 de junho de 2014.
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