terça-feira, 27 de maio de 2014

OVNI em crônica de Rachel de Queiroz

Hoje não vou fazer uma crônica como as de todo dia; hoje, quero apenas dar um depoimento. Deixem-me afirmar, de saída, que nestas linhas abaixo não escrevo uma letra que não seja estritamente a verdade, só a verdade, nada mais que a verdade, como um depoimento em Juízo, sob juramento. Escrevo do sertão, aonde vim passar férias. E o fato que vou contar aconteceu ontem, dia 13 de maio de 1960, na minha fazenda “Não me deixes”, Distrito de Daniel de Queiroz, município de Quixadá, Ceará.

Seriam seis e meia da tarde; aqui o crepúsculo é cedo e rápido, e já escurecera de todo. A lua iria nascer bem mais tarde e o céu estava cheio de estrelas. Minha tia Arcelina viera da sua fazenda “Guanabara” fazer-me uma visita e nós conversávamos as duas na sala de jantar, quando um grito de meu marido nos chamou ao alpendre, onde ele estava com alguns homens da fazenda.

Todos olhavam o céu. Em direção norte, quase noroeste, a duas braças acima da linha do horizonte, a luz brilhava como uma estrela grande, talvez pouco menos clara do que Vésper, e a sua cor era alaranjada. Era essa luz cercada por uma espécie de halo luminoso e nevoento, como a nuvem transparente iluminada, de forma circular, do tamanho daquela “lagoa” que às vezes cerca a lua.

E aquela luz com o seu halo se deslocava horizontalmente, em sentido do leste, ora em incrível velocidade, ora mais devagar. Às vezes mesmo se detinha; também o seu clarão variava, ora forte e alongado como estrelas de Natal das gravuras, ora quase sumia, ficando reduzido apenas à uma grande bola fosca, nevoenta. E as variações de tamanho e intensidade luminosa se sucediam de acordo com os movimentos do objeto na sua caprichosa aproximação. Mas nunca deixou a horizontal. Desse modo andou ela pelo céu durante uns dez minutos ou mais. Tinha percorrido um bom quarto do círculo total do horizonte, sempre na direção do nascente; e já estava francamente a nordeste, quando embicou para frente, para o norte, e bruscamente sumiu – assim como quem apaga uma luz elétrica.

Esperamos um pouco para ver se voltava. Não voltou. Corremos, então, ao relógio: eram seis e três quartos, ou seja, 18.45hs. Pelo menos vinte pessoas estavam conosco, no terreiro da fazenda e todas viram o que nós vimos. Trabalhadores que chegaram para o serviço hoje pela manhã e moram a alguns quilômetros de distância, nos vêm contar a mesma coisa. Afirmam alguns deles que já viram esse mesmo corpo luminoso a brilhar no céu, outras vezes – nos falam em quatro vezes. Dizem que nessas aparições a luz se aproximou muito mais, ficando muito maior. Dizem, também, que essa luz aparece em janeiro e em maio – talvez porque nesses meses estão mais atentos ao céu, esperando as chuvas de começo e de fim de inverno.

Que coisa seria essa que ontem andava pelo céu, com a sua luz e o seu halo? Acho que, para defini-la, o melhor é recorrer à expressão já cautelosamente oficializada: objeto voador não identificado. Mas, não afirmo. Porém, isso ele era. Não era uma estrela cadente, não era avião, não, de maneira, nenhuma coisa da Natureza – com aquela deliberação no voo, com aqueles caprichos de parada e corrida, com aquele jeito de ficar peneirando no céu, como uma ave. Não, dentro daquilo, animando aquilo, havia uma coisa viva, consciente. E não fazia ruído nenhum.

Poderia recolher o testemunho dos vizinhos que estão acorrendo a contar o que assistiram: o mesmo que nós vimos aqui em casa. A bola enevoada feito a lua, e no meio dela a luz forte, uma espécie de núcleo, que aumentava e diminuía, correndo sempre na horizontal, do poente para o nascente. Muita gente está assombrada. Um parente meu conta que precisou acalmar energicamente as mulheres que aos gritos de “Meu Jesus, misericórdia!” caíam de joelhos no chão, chorando. Sim, em redor de muitas léguas daqui creio que se podem colher muitíssimos testemunhos. Centenas, talvez.

Mas faço questão de não afirmar nada por ouvir dizer. Dou apenas o meu testemunho. Não é imaginação, não é nervosismo, não é coisa do chamado “temperamento artístico”. Sou uma mulher calma, cética, com lamentável tendência para o materialismo e o lado positivo das coisas. Sempre me queixo da falta de imaginação. Ah, tivesse eu imaginação, poderia talvez ser realmente uma romancista. Mas o caso de ontem não tem nada comigo, nem com o meu temperamento, com minhas crenças e descrenças. Isso de ontem EU VI. (Revista O Cruzeiro de 04/06/1960)
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