quinta-feira, 15 de maio de 2014

O futuro é ontem



No dia 10/05/2014 recebi do primo Quincas Oliveira o texto “Direito mastigado e literatura facilitada: agora vai!”, de Lenio Streck. É um texto que se propõe doutrinário, mas, pensando bem, vejo que apenas reflete o pensamento que herdamos da Idade Média: não conseguimos entender nem ouvir as novas gerações, não conseguimos compreender nem avaliar o novo mundo; e nessa frase se substituirmos o não conseguimos por nos recusamos, verá que também é justo o que ocorre.
Por ventura da humanidade, ninguém se coloca diante da situação atual, na qual vive a própria existência. A celeridade do tempo e da vida muda à velocidade tal que não conseguimos perceber o que está milímetro adiante. A vida nos impõe tantos transtornos – uns felizes, outros indigentes – com a exata rapidez de não permitir que os contemporâneos tenham como absorvê-la, entendê-la. Mudar isso é impossível. 
A teia do tempo (posso dizer: da tecnologia) pegou o Lenio Steck, autor do artigo, pelo gasganete, não foi o primeiro nem será o último. O seu ponto de vista exposto sob a ótica do jargão “jurisprudês”, sendo Procurador por profissão, contraria a própria estética que critica, macula o texto. A sociedade – simbolismo de raça humana – tenta assimilar de imediato, mais do que nunca, que o tempo voa, nos arremessa junto, que, portanto, a juventude está tão distante de nós que não chegamos a seus calcanhares.
Porém, esse bigbang da informática que ora ocorre, que não tem como ser evitado (efeito e causa do artigo citado), veio bem a tempo de impedir que toda a humanidade fique impassível nas mãos desses loucos que dirigem os países, Putins, Obamas, todos pequenos e grandes ditadores de nós, humanos e malditos. Isso porque o movimento gerado pela comunicação digital é a reação inevitável e simples, é também – graças a Deus! – incontrolável: a Internet, o monstro que ‘eles’ criaram, torna-se O Robô, que pensa, tem vida própria e liberdade suprema. É o Frankenstein moderno. É a lenda contemporânea do Superman: cultura, folclore, mitologia, fábula, história.
Tudo que o tempo coloca à frente, hoje e sempre, estará acima da nossa compreensão, do entendimento dos que estão a bordo da nave, mas nem por isso devemos ignorar ou nos mostrar refratários, como fez o douto Lenio Steck, sem pioneirismo, porque tem milhares de artigos circulando por aí com o mesmo espírito e teor. Embora nem todos carreguem na alma a paz, o desejo de liberdade no coração, nem qualquer respeito, antes, tratam no íntimo como se fosse simples anedota, facécia ou gracejo. Isso sim seria piada de mau gosto.
Para que nosso olhar não se perca, desejaria que pudessem todos assistir, juntos e maravilhados, ao milagre prodigioso que ora se materializa debaixo de nossos narizes. É o futuro que jamais imaginamos, o repeteco do milagre de Cristo, Sócrates, Copérnico, Galileu, Magalhães, Gagárin – número infindável de feiticeiros que produziram o mesmo efeito com o passar do tempo não cronológico – algo a ser vivido em carne e alma. 
Um parêntese quanto à correção do texto de Machado de Assis (também aventada no mesmo artigo): o tema foi objeto de blog que escrevi alhures, não só sobre o tamanhão de importância que dão a Machado de Assis, quanto a deterioração e o bolor que cai sobre suas obras. É tamanha a relevância e reverência à obra de Machado de Assis, que fica difícil encontrar outro exemplo universal de escritor ao qual ele se possa igualar! 
Pelo menos nesse ponto Lenio Streck pensa igual sobre a velhice previsível de seus contos, romances e crônicas. Ou seja, não há como evitar a atualização ortográfica dos escritos: por causa dessa visão obstrutiva de falso purismo que está inteira no artigo que me enviaste, crucificaram Camões, Monteiro Lobato, etc. lembra? Assim entendi...
Se “la donna è mobili”, podemos dizer que “la scrittura è anche mobili” e o que assemelha à situação apresentada é que a escrita não precisa de ‘acordos ortográficos’: ela tem vida própria e, mutante, se recria a cada instante. No entanto, no artigo, isso é o de menos: o mais importante é a cegueira que acomete pessoas possuídas de alto nível cultural sobre o que agora ocorre no universo que nos cerca, globalizado, sim, mas tão fragmentado quanto fractal, isto é, a supremacia da desordem organizada. Precisamos nos vacinar urgente contra o vírus da alienação ou nos tornamos aliens em nossa própria terra. 
Será que teremos de nos obrigar a implantar aquele terceiro olho hindu, o sexto chakra, para que nos expanda o grau de percepção a nível imperativo, para abarcarmos e gozarmos de toda a maravilha em que o mundo se transforma diante de nosso espanto? É burrice perder tempo oferecendo resistência, não aceitação, intransigência e qualquer obstáculo ao que está ocorrendo – ou não aprendemos nada? 
Caro Quincas Oliveira, lembra-me surpreender o teu semblante melancólico ao desfrutarmos, sós, a sala maravilhosa que cuidaste de arquitetar em teu apartamento para recepcionar amigos, quando te veio a imagem daquele mesmo ambiente, um dia repleto de convivas, cheio de luz, sussurro de falas, tintilar de taças. As visitas eram tantas que tiveste necessidade de improvisar assentos. E o jeito amoroso com que descrevias as reuniões prenhes de amigos e de assuntos, pejadas de sorrisos felizes porque, sendo o homem – como os cães – espécie de convivência em matilha, só vive bem em grupo.
É triste: não existe mais a sala de recepção, as reuniões se tornaram virtuais, ninguém visita ninguém, somos párias dos monitores, portanto, entes menores. Ah, com tal analogia, de repente me encheu o saco essa digressão! Poderia juntar aqui um monte de lugares-comuns: o tempo voa, a vida passa, mas de que adianta se não percebemos que a celeridade é que atropelou nosso olhar, nosso pensamento, de tal modo imperceptível, igual ao átomo que ninguém pode controlar?
“Não falo a néscios” (repito o sábio), por isso o que posso desejar – palavra de primo-ermão – é que a percepção desse novo olhar se reflita em teus escritos, nas leituras e atitudes, de tal modo prismatizado, que tenha a envergadura de interferir na vida de teus leitores. Não há tempo a perder. Pois hás de te lembrar do artigo em que comentei o quebra-quebra nacional de outro dia – que irá se repetir, como repercutem os cometas – pois somos passageiros do mesmo trem. 
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