segunda-feira, 17 de março de 2014

Carta ao cronista Joaquim Itapary

Luar sobre Panacoatyra (*)

Caro cronista Joaquim Itapary. Instado pela leitura de suas crônicas, confesso, resolvi incluir a Ilha do Maranhão no meu roteiro de férias, para finalmente conhecer a cidade que, sob sua pena, embora não esconda as próprias mazelas, muitas belezas tem: São Luís. Constatei in loco que tudo que está em seus escritos é verdadeiro, que também é verdadeiro o sentimento de paixão e ira que permeia suas palavras quando vê a cidade querida maltratada pelos administradores, que deveriam governar com equidade, mas não o fazem.
             
Visitei muitos dos lugares a que você alude nas crônicas e, ajudado pelos roteiros e dicas que deixa entrever nas entrelinhas, descobri belezas e fealdades, escondidas dos folders e das reportagens turísticas que costumam ser e divulgados nos hotéis. Que fazer? Paris, Nova York, Buenos Ayres, Xangai – são cidades belas, mas também escondem as mazelas e maldades de toda cidade do mundo. São Luís não poderia ser diferente... Ou poderia?
             
No fim de semana meus anfitriões tinham me prometido visita a um lugar ainda selvagem, recém-desvendado e que se transformou no mais novo balneário da cidade, local da moda, onde as primeiras moradias começam a ser erguidas, de nome para mim estranho, pois nunca o li em qualquer de suas crônicas: Panacoatyra. A descrição subjetiva era a promessa de casa ampla e confortável, bem em frente ao mar – o que me fez imaginar um descanso de pernas esticadas e copo à mão, ouvindo o som e assustado com o respingo das ondas quebrando a meus pés.
             
Qual não foi minha surpresa ao chegar, não pela casa, que era realmente ampla e confortável, de acomodações aconchegantes, mas pela ausência do mar. Quilômetros e quilômetros de areia dura como asfalto se estendiam praia afora a perder de vista – mas nada de mar, nada de ondas e nada da vasa que vara as narinas, salobras, insinuantes, almiscaradas, saborosas até. 

A pergunta veio direta e seca: – Cadê o mar? Espanto geral, olhares insinuantes, risos contidos. – Então, não está vendo? Lá. Olhei o local indicado e o que vi foi uma fímbria de água, longínqua, brumosa, igual às que se vê nos cinemas – uma miragem no deserto, distante mais de quilômetro da varanda, das pernas esticadas, do copo de uísque com água de coco. Ante o meu silêncio espantado, mais risos, mais aquele tisc tisc tisc, só faltaram debochar da minha ignorância.

Meia hora depois os copos começaram a tintilar, o cheiro de carne principiou a fugir da churrasqueira, os peixes e crustáceos marinavam em poças de alho, limão e cheiro verde e logo após já estavam sendo servidos os aperitivos, uísque, cachaça e essa coisa esquisita chamada tiquira – tudo isso, somado à palestra amena e agradável dos anfitriões, me fez esquecer a distância que me separava do mar, que passou a ser parte secundária da história. 

Fato é, caro cronista, que, estando abancado à frente da casa, esquecido de todos, mas bem abastecido de bebidas e acepipes, pude assistir ao pôr-do-sol e ver o véu da noite deitar-se sobre Panacoatyra, de tal modo em sequência volumosa, tão ágil e imperceptível quanto à sombra do álcool enublava minha mente e meus olhos. 

De repente, sem mais nem menos, um tremor saído assim do nada, abalou os alicerces da casa, a varanda começou a se mover. Um ruído misto de motor de trem e marulho do mar encheu o ambiente, como máquina fantástica saída das histórias de Jules Verne, me vi transportado adiante, não em pequena velocidade. Em verdade não sei quem se movia mais rápido, o mar ou a casa, mas o fato é que se não houvesse como parar essa loucura, um choque inevitável entre ambos se daria. 

A única coisa sincera que havia era uma lua cheia que varava as nuvens cinzentas, espelhando sobre as águas uma estrada infinita de prata e contas de pedras preciosas, um colar para enfeitar o colo de Panacoatyra. Esperei corajosamente agarrado ao copo de uísque – o mar que vinha e a casa que se atirava à frente, como o Titanic e o iceberg. Não rezei nem para São José de Ribamar, nem para Iemanjá ou para Netuno, o rei do mar. “Me arranjo aqui mesmo com a tiquira de Santa Quitéria, o camarão seco, mais o uísque Brown Label, dito escocês” – disse à minha alma, já que ninguém me socorria. 

Essa tutaméia durou alguns segundos, não mais, para arrematar desse susto sem tamanho, ficou tudo estagnado – a casa e o mar, frente a frente – como se dois titãs olhassem um ao outro em desafio. Dei um grogue na tiquira, mordi um camarão e fiquei ali, o cu pequenininho, esperando o choque fatal. Mas nada aconteceu, ou melhor, o que ocorreu é que a casa começou a vibrar de novo e o mar borbulhar de refluxo, ambos se afastando um do outro. Em poucos minutos estava tudo tal e qual começou: o mar virou miragem apenas. 

E foi assim que me encontraram, lá na varanda, sozinho, as calças molhadas (uns dizem que era mijo outros, que foi água do mar), lívido como a tiquira, uma cabeça de camarão esquecida entre os lábios, a expressão de alegria, olhos sorridentes como um devasso. O fato é que, caro cronista, de hora em diante prefiro ir conhecendo sua terra na leitura dessas maravilhosas crônicas que saem semanais, assim não gasto passagem, nem hotéis, nem corro o risco de ser convidado a lugares misteriosos e fantásticos que nem essa tal de Panacoatyra... 

Dê cá um abraço a seu fiel e agradecido leitor, despeço-me, etc. 

*(foto Joaquim Itapary)
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