quarta-feira, 5 de março de 2014

Carnaval – Alegria e tristeza

Deslocando-me durante o Carnaval procurei transitar por ruas poucos movimentadas, quando me vi às portas do Cemitério de Irajá. Lá dentro, deu para perceber, um pequeno cortejo fúnebre, não mais de dez pessoas, na maioria membros da família, levava alguém – como se diz – à sua última morada. Cá fora soavam marchinhas e frevos, pipocavam tamborins, batucavam tambores dos blocos e bandas. Imagino que lá dentro do cemitério, mesmo com essa zoada toda, fazia-se silêncio nas mentes dos entes queridos que – em muda oração – se despedem de alguém que lhes fora precioso.

Lembrei-me imediatamente de outro Carnaval, já distante, há exatos 50 anos, em 1964. Estávamos em pleno Carnaval do Rio de Janeiro, no dia 9 de fevereiro, um domingo, quando a notícia do falecimento de Ary Barroso, compositor de obras-primas, como “Aquarela do Brasil”, “Na baixa do sapateiro”, “Bahia” e “No rancho fundo” – entre outras tantas músicas de grande beleza, cantadas no mundo todo e também de muitos sucessos de carnaval, surpreendeu os milhares de foliões e brincantes.

Não preciso repetir o quanto o Rio de Janeiro é alegre e agitado durante o Carnaval, festa que é o próprio sinônimo da cidade, cuja dimensão se espalhou como exemplo por todo o país e até no estrangeiro. Sim, hoje temos carnavais “cariocas” em Paris, Nova York, Tóquio, Copenhague, Xangai e pelo mundo afora. São carnavais onde culturas se misturam com harmonia tendo como base o samba, a marchinha, o frevo, o maracatu, no Maranhão, a reminiscência dos tambores – a nossa Casa de Palha, o Tambor de Crioula – mas que também aceitam o rock, o reggae, o pasodoble, as sisudas valsas vienenses e o som barroco do Carnaval de Veneza.

Ary Barroso, era fanático por futebol, foi locutor esportivo, cronista e comentarista, ilustrava suas irradiações dos jogos com o apito estridente de uma flautinha de plástico que reproduzia as sete notas musicais. Toda vez que ele fazia um comentário, era aquele irritante pi-pi-pi-ri-ri-ri-lá pra lá e pra cá. Além disso, era torcedor do flamengo, daqueles fanáticos, que se enrolam na camisa e dormem com lençol rubro-negro. Então, com essas qualidades todas, morrer em pleno domingo de Carnaval, dá pra imaginar a reação do público e da imprensa. Foi um alvoroço total!

A notícia se espalhou rápido como fogo na palha, causando rebuliço e alterando a programação de foliões. Uma multidão, mudando de direção, começou a se encaminhar para acompanhar o féretro e levar o compositor à sua última morada – para repetir o chavão – que seria o Cemitério São João Batista, em Botafogo. Não foi pouca gente, não. Milhares de indivíduos lotaram o campo santo, sem se importar com outras pessoas que ali estavam para enterrar seus mortos. Blocos, escolas de samba, bandas, representantes de clubes esportivos e mais a torcida do Flamengo – que não se conta nos dedos – todos estavam ali para dar adeus a Ary Barroso.

Os mesmos que acompanhavam as transmissões das partidas, os mesmos que ouviam suas músicas nos rádios e TV, os mesmos que cantaram as marchinhas “Flor tropical”, “Grau dez”, “Upa upa”, “Eu dei”, os sambas “Cinco horas da manhã” (mais conhecida por “Zé marmita”), “Eu gosto de samba” e outras músicas que se tornaram populares, lotavam o espaço do Cemitério São João Batista, como se estivessem no próprio Maracanã. Não foram poucas as marchinhas e sambas com que o compositor se fazia representar nos carnavais e quase todos eram ali cantados de entremeio ao samba mais famoso: “Aquarela do Brasil”, que a multidão, entre lágrimas e risos, executava emocionada.

Acredito que o próprio Ary Barroso, se pudesse, teria escolhido para morrer esse mesmo domingo de Carnaval e para o seu féretro teria optado por esse ambiente surreal em que se transformou o Cemitério São João Batista – uma multidão de palhaços, arlequins, colombinas, fofões, marinheiros, homem vestido de mulher (e vice-versa), dançarinas, bate-bolas – envolvido pelo som dos tamborins, o lamento da cuíca, os soluços de adeus, tendo como fundo sonoro a sua música cantada em todos os recantos.

Tudo isso debaixo de um calor de 40 graus. Em todas as direções se viam grupos carregando bandeiras rubro-negras do Flamengo, trazendo as flâmulas tricolores do Fluminense, uma ou outra Estrela Solitária do Botafogo ou a Nau Cruzmaltina do Vasco – a grande maioria dos clubes cariocas se fez representar em respeito à grande figura que foi Ary Barroso.

Se fôssemos fazer um paralelo, viria logo à mente o carnavalesco féretro que acompanha os mortos de New Orleans, outros que se tem conhecimento de muitas tribos, dos aborígenes da Nova Zelândia e diversas tradições que transformam a morte em alegria, tanto em honra da vida que o morto levou na terra, quanto pelo acervo que deixou entre os seus. É nesse rito de passagem, que muda e se transforma, onde fica toda a maldade, a feiura, o erro cometido, a injustiça – nesse momento nada se julga: a purificação se faz.

Pois é assim que é o Carnaval: o folguedo da alegria é a mesma festa da tristeza que se embaralha e se estende por toda a nossa existência, acompanhando-nos ao comum destino final. 
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