quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Índio não quer apito, quer demarcação

Já estou de saco cheio! Acabo de ouvir um índio na TV. Ele está num bom pedaço de terra, por detrás corre um rio, crianças brincam no terreiro, árvores por todo lado. Ele diz:

“Há mais de vinte anos os nossos antepassados estão sepultados aqui; não é ali, nem lá, é aqui. Então essa terra onde nossos ascendentes estão enterrados é nossa, por isso lutamos pela sua demarcação”.

Há tempo essa teoria me irrita, me tira do sério, o mesmo se dá com a aceitação oficial e unânime dessa regra burra. Ora, senão vejamos: grosso modo, em geral tudo que está debaixo da terra é fóssil. Nós construímos nossas cidades sobre cemitérios, por cima de cadáveres em decomposição. Todos nossos avôs, bisavôs, tataravôs, estão debaixo de nossas casas. Isso é parte da história da humanidade. Então, por que se aceita um argumento tão simplório para ‘demarcar’ as terras indígenas?

Nossos antepassados também estão enterrados aqui, Brasil afora, os antepassados negros, os judeus, os antepassados árabes, os chineses, os japoneses, os antepassados dos antepassados, o homem das cavernas. E daí? A terra é de todos, a terra é sagrada. Índios, quilombolas, caiçaras, negros escravizados, chinas, carcamanos, japas, todos temos ascendentes que hoje estrumam as terras para uma boa safra de soja e milho. E daí? Se formos seguir esse argumento o certo é devolver todo o Brasil aos índios, né?

Num documentário o índio defende a tese de que o Brasil não foi ‘descoberto’, mas ‘invadido’. Nem um nem outro meu caro tocador de apito. Temos que ver como a sociedade e o estado estavam constituídos na época. Nos anos 1.500 o mundo já estava organizado socialmente, seja como reinado ou nação e o conceito de pátria não era arraigado, mas existia, apesar de feudal. As terras ao sul do Equador, principalmente no que viria a ser o Brasil, não tinham a mesma forma de governo - alguns, como em Pindorama, nem governo tinham. Os impérios inca e asteca eram organizados por políticas originais típicas: os fundamentos de domínio eram a religião e o poder opressor.

Aqui entre nós, esse lado bobo da história indígena começou quando o marechal Cândido Rondon organizou e chefiou a famosa expedição desbravadora, com a finalidade principal de implantar linhas de telégrafos Brasil afora, invadindo florestas, atravessando pântanos, morrendo de doenças, flechas envenenadas, onças e jacarés, comendo macaco e pegando malária. A finalidade sub-reptícia – o plano secreto – era mesmo subjugar os índios ‘civilizando-os’, inserindo-os na sociedade. Foi por isso que o marechal Rondon introduziu a política de tutelar o índio, difundido a imagem de que se tratava de povos primitivos, ingênuos como anjos celestiais, inocentes como Adão e Eva no paraíso, carecendo, pois, da proteção do Estado. Esse roteiro foi seguido pela maioria de nossos indigenistas.

Como se viu pouco depois, o índio era mesmo um povo primitivo, ingênuo como anjos celestiais, inocente como Adão e Eva no paraíso, que Rondon nos fez imaginar – mas apenas em seu gene, pois não tinha nenhuma imunidade contra doenças dos ‘brancos’ – a cada contato, centenas foram dizimados por tifo, diarreia, gripe, pneumonia, um resfriado simples. Morte que as roupas brancas com que Rondon vestia as tribos não conseguiram evitar... Todo esse paternalismo foi apadrinhado pela frase positivista (ou cabotinista?): – “Morrer se preciso for, matar nunca!” Foi essa frase que serviu para incutir um conceito de  ‘pena’ que merecia o índio brasileiro, sendo assim apresentado à sociedade, que deveria acolhê-lo como pessoa ingênua e desamparada.

Darcy Ribeiro pôde convencer o presidente Getúlio Vargas para ver o sonho de uma grande reserva indígena ser criada, como de fato se deu e hoje é o Parque Nacional do Xingu, palco de filmes, romances de cavalaria e novelas. Darcy defendeu por muito tempo a tese de que ninguém melhor que o índio poderia preservar e cuidar das florestas, seu elemento natural. Felizmente o caboclo de Maricá não sobreviveu para assistir aos índios de outras reservas negociando com madeireiras e mineradoras, com a ambição de um grileiro qualquer, que invade a terra da união para arrasá-la, depois sair sem deixar um benefício sequer.

Já viajei muito pelo interior do país (pelo chão e não via aérea), peguei muita estrada, engoli muita poeira, atravessei reservas indígenas sem pagar pedágio e acredite, nunca encontrei um índio, um caboclo, um quilombola que fosse bobo, ingênuo e inocente como Adão e Eva no paraíso. A cara sim é de ingênuo, os gestos e a fala malandra, de quem finge não conhecer o mundo, o olhar de espanto: – É mesmo? – num teatro que a vida ensinou ante a cruel esperteza de quem chegou ali antes, arrasando, matando e roubando.

Os interioranos aprenderam a lição. Nessa andança esbarrei com pobres e com a pobreza, conversei com gente que não sabia ler e gente letrada, com família que comia pouco e se vestia simples, outros, mais abastados, na moda, mas nunca topei com um bobo, um trouxa, um otário. Muito pelo contrário, quando eu dava mole eles me comiam com casca e tudo: que o diga a dúzia de abacaxis docinhos que comprei na beira da estrada, mas que depois em casa milagrosamente se transformaram em ananás. 

Aquele ser ingênuo que aparecia nos filmes em preto e branco desapareceu há muito, quiçá jamais existiu. Depois de tanto ser enganado – como o foram os incas e os astecas –, depois de trocar ouro e prata por vidrilhos, depois de oferecer as donzelas e “suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras”,  esse ser se transformou em Macunaíma, que o diga Mario de Andrade!  O Jeca Tatu de Monteiro Lobato virou Mazzaropi, o jeca filho de emigrantes que se fingia de bobo, mas ao fim vencia todas. 

Agora, essa reserva de autoproteção tem seus fundamentos. Basta ver o lado político da coisa, pois está claro que as terras ‘demarcadas’ na verdade será propriedade do governo, do Estado. Assim, ao retomar as terras indígenas invadidas por grileiros – grandes fazendeiros e plantadores de grãos – para depois ‘demarcá-las’ e transformar em reserva indígena, na verdade o que o governo faz é ‘desgrilar’ a terra, retornando-a ao poder público, como também as suas riquezas a serem exploradas, dependendo de qual pirata estiver no Palácio do Planalto, em Brasília.

Isso não diminui a minha irritação, meu pré-infarto. Ainda acho que ir à TV dizer que “os nossos antepassados estão sepultados aqui, então essa terra é nossa” é uma mentira deslavada, pano de fundo para ambições, dinheiro e política; conversa mole pra boi dormir. Uma curiosidade é que não se vê registro de nenhum conflito entre os grupos que fazem a reivindicação: as terras a serem demarcadas para o índio nunca estão em Quilombos, os quilombolas jamais reivindicam terras reclamadas pelos índios. Mas a história desmente esse fato: escravos fugidos buscavam refúgio em tabas, eram bem acolhidos, ficavam amigos e até casavam com índias.

Isso porque o índio brasileiro sempre foi um povo nômade, por vários motivos. Primeiro, tinham toda a terra disponível para si e viviam em pêndulo de acordo com as condições climáticas. Segundo, os inimigos eram poucos, as guerras se travavam justamente em disputa pela terra mais fértil. Agora estamos na modernidade, mas a ambição política é a mesma desde Brutus, Maquiavel, Bush, Putim, Lula. Nós (e vocês) somos apenas bucha de canhão. Nosso latifúndio mede apenas sete palmos de fundura, ou um retângulo nas paredes dos cemitérios superlotados.

Então esse refrão repetido por índios, quilombolas, caiçaras e outros ‘povos’ que querem as ‘suas’ terras de volta, fiquem sabendo: a terra só foi de vocês antes de Cabral aportar e trazer a reboque as piores quadrilhas da Europa, da qual herdamos todas as podridões políticas – coisa que nem Shakespeare poderia imaginar.

Acho bom o índio retornar aos velhos costumes e se satisfazer com apitos, colares de vidro, facas e panelas. Nos quilombos sei que não faltará um bom terreiro, Linha branca, Nagô, Mina, onde – ao som do xeroquerê, do agogô, dos atabaques e ganzás, do afoxé e adjá – possam cultuar suas entidades, os Caboclos, Pretos Velhos, os Exus, as Pombas Giras Ogum – e também o Zé Pelintra – melhor símbolo do esperto não há!

Que seja assim, em paz, que se enfeite o país com suas tradições, sem precisar formar currais onde se isolem prostituídas as gentes que fizeram a amada terra desigual chamada Brasil.

Fazer o jogo do poder é retornar à servidão mais cruel por onde todas as gerações transitaram, para um dia pensar em liberdade.

Fazer o jogo do poder é eternizar a separação de tipos, de religião, de tradição e do bem cultural.

Fazer o jogo do poder é perder a identidade, o caráter; foi essa a razão porque Macunaíma, desencantado, ficou triste e doente. É esse o retrato do Brasil – que Mário de Andrade previu – agora querem repetir?

“Macunaíma amanheceu com muita tosse. Maanape desconfiou que o herói estava hético. Era impaludismo e tosse, por causa da laringite que a gente carrega de São Paulo.  Macunaíma passava horas deitado de borco na proa da igarité, nunca mais havia de sarar. No outro dia atingiram as cabeceiras do rio e escutaram perto o ruidejar do Uraricoera. Era ali. Um passarinho sirigaita trepado na munguba, enxergando o farrancho gritou logo: - Sinhá dona do porto, dá caminho pra mim passar! Macunaíma agradeceu feliz. De pé ele assuntava a paisagem passando. Afinal ficou tudo conhecidíssimo. Enxergou o cerro manso que fora mãe um dia, no lugar chamado Pai da Tocandeira, enxergou o pauê trapacento malhado de vitórias-régias escondendo os poraquês e os pitiús e pra diante do bebedouro da anta se viu o roçado velho agora uma tiguera e a maloca velha agora uma tapera. Macunaíma chorou”.
Postar um comentário