segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Brasil abaixo de zero

Todo mundo assistiu “Jamaica abaixo de zero” (Cool Runnings), uma comédia da Walt Disney (1993), dirigida por Jon Turteltaub. O filme é baseado na história da equipe de bobsleigh da Jamaica nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1988 em Calgary, Canadá e faz piadas sobre a participação de países tropicais onde nunca pingou um cristal de neve, em esportes de inverno – aqueles que são disputados no gelo das grandes montanhas. Verdade ou ficção, o certo é que a equipe jamaicana está representada em Sochi, Rússia, agora em 2014.

Além disso, outros países abaixo do Equador e Caribe – alguns sem qualquer expressão esportiva nem no gelo nem em terra nem no mar  – estão listados nas Olimpíadas de Inverno de Sochi.ru: Argentina, Bermudas, Ilhas Cayman, Chile, Ilha de Dominica, a já citada Jamaica, Paraguai, Peru, Venezuela, as duas Ilhas Virgens. É ou não é querer ser ridicularizado? Grosso modo, as equipes desses países (inclusive do Brasil), ao que se viu, são formadas por atletas aliciados de modalidades esportivas mais ou menos parecidas, disputadas em terra firme, ou seja, as agora chamadas, por oposição, Olimpíadas de Verão.

Pois justo agora que se realizam os Jogos de Inverno em Sochi, Rússia, nossa equipe da mesma modalidade daquela jamaicana que deu origem ao filme, é notícia, não do tipo comédia, mas quase trágica pela capotagem espetacular ocorrida num treino. A piloto Fabiana Santos e a companheira Larissa Antunes, do bobsleigh, sofreram grave acidente na curva 11 da pista de Sanki Sliding As duas saíram caminhando, uma mancava muito, passaram por exames e depois declararam que estão em condições de competir. Sinceramente, parecia que eu estava assistindo a um remake daquele filme, desastre total.

Já tendo ocorrido outro acidente – esse realmente trágico – com a competidora de esqui Laís Souza, é tempo de começar a se questionar a participação nacional nessas competições esdrúxulas, que não tem nada a ver com a tradição esportiva brasileira. Laís Souza – lembra? – era da equipe de ginástica artística dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008. Entre 2006 e 2008 esteve ao lado das melhores atletas brasileiras, como Daiane dos Santos, Jade Barbosa e Danielle Hipólito, quando ganhou medalhas de ouro, prata e bronze em várias competições nacionais e internacionais.

O estado da Laís Souza é gravíssimo, mas as autoridades do desporto brasileiro, do Ministério dos Esportes, nem da imprensa, não estão nem aí. A atleta estreou no esqui no ano passado, isto é, sem experiência alguma, mesmo assim foi selecionada pela CBDN para competir em Sochi. Agora se sabe que já existe uma Confederação Brasileira de Desportos na Neve, isto é, os cartolas de novo! Está na hora de se apurar responsabilidades.

Laís Souza treinava com Joselene Santos quando caiu e se chocou com uma árvore. Que porra de treinador é esse que manda esquiador treinar entre árvores? Foi assim, aliás, que o Michael Schumacher se arrebentou outro dia! Ambos tiveram lesões graves e irrecuperáveis. Na queda que sofreu, Laís teve fratura e deslocamento da vértebra, levada ao hospital submeteu-se a cirurgia e foi transferida para Miami, onde continua em tratamento. Laís Souza perdeu os movimentos dos braços e pernas, precisa de aparelhos para respirar e suas chances de recuperar a mobilidade, segundo os médicos, estão próximas à zero.

Depois do acidente, o silêncio – o silêncio criminoso. Êi, cadê todo mundo? Êi turma das redes sociais, cadê vocês? Cadê – principalmente – a família? Quem tirou Laís Souza dos ginásios e botou na neve? Não houve sequer menção do nome da atleta na página oficial do Brasil. Silêncio absoluto. Pode-se confirmar em: http://www.sochi2014.com.

O nome de Laís Souza poderia e deveria ter sido mencionado, ao menos como sincera homenagem à atleta que ficou de fora da equipe por uma fatalidade. Mas não, preferiu-se o silêncio covarde e irresponsável – além do que, a retirada do nome da atleta da equipe equivale a ‘tirar o corpo fora’ em futuras reivindicações sobre os tratamentos médicos, atuais e futuros, a que Laís Souza deve se submeter.

Os fãs de Laís Souza devem se mobilizar e sua família que abra o olho, para não cair em mais uma esparrela que esses órgãos “sem fins lucrativos” (mas terríveis aliciadores) costumam aplicar, quando querem fugir da responsabilidade, E pelo menos neste caso, a CBDN está totalmente abaixo de zero.
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