domingo, 2 de fevereiro de 2014

50 anos de ditadura musical!


Estava finalizando este artigo quando descobri o vídeo acima e o interessante texto de Marcos Napolitano, que complementam o meu artigo:

“O campo social da vigilância e do controle, dentro da lógica da segurança nacional implantada pelo golpe militar de 1964, era enorme: entidades da sociedade civil, espaços de sociabilidade e cultura, atuação pública de personalidades críticas, todo o tecido social e os espaços públicos eram virtualmente vigiados (...) a vigilância sobre a sociedade civil era constante”.
“Um outro caso de suspeita muito peculiar foi o de Caetano Veloso. As posições políticas de Caetano, sempre críticas em relação à arte engajada de esquerda, já conhecidas no final dos anos 60, acabaram gerando uma série de conflitos entre sua personalidade pública e o público de esquerda, que o qualificava como “alienado”.

[Marcos Napolitano - Departamento de História - UFPR - A MPB sob suspeita: a censura musical vista pela ótica dos serviços de vigilância política (1968-1981) - Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 24, nº 47, p.103-126 – 2004]

Cinquenta anos que começaram nos famosos festivais da canção da TV Record e depois da TV Globo. Esses festivais que mobilizaram a população cultural da época foram bem canalizados pela mídia, rádio, jornais, TV e revistas se uniram num só grupo empresarial para explorar a mina de ouro em que se transformaram. Quando a míngua chegou – era de se esperar – sobreviveram apenas àqueles mais cruéis, os predadores, apoiados pelos mais frios e calculistas empresários, caçadores de sucesso, fabricantes de mais vendidos, donos ou representantes de gravadoras internacionais, que abocanharam também as rádios, as revistas ‘especializadas’, os jornais.

Por trás dessa cruel ditadura musical ficou o rasto de terra arrasada, jovens cadáveres, dizimados pelas drogas, pela depressão, pelo álcool, abandonados pelo simples desprezo, o esquecimento conveniente, as traições. Todos os que estavam bem ali, ao lado, dando o apoio, trabalhando duro nos anos difíceis, nos atropelos do começo de carreira, da sacrificada luta pela sobrevivência, se viram um dia defenestrados, atropelados pela máquina cruel da ambição, destrambelhados pela ausência de princípios morais, éticos, de amizade e até de religiosidade, inexistentes no meio em que viviam.

Em sequência, alguns muitos vieram a mamar nas tetas do dinheiro público, seja por meio de amizade, seja por meio da aderência ao sistema, usando o poder de governos – ditatoriais e democráticos (a ambição não tem ideologia) – elegeram-se deputados, senadores, assumiram secretarias, ministérios, outros ocuparam cargos praticamente invisíveis, mas sempre com salários altíssimos, tudo remunerado e sustentado com nosso dinheiro, o dinheiro público, quer dizer, com a miséria de muitos.

50 anos de ditadura musical – demorada, mas rentável – mais, muito mais, do que durou a ditadura militar; mais, muito mais, do que demoraram os governos de milicos africanos, dos quais todos nós reclamamos e lutamos para extinguir.

Todos os chefes desse implacável assenhoramento da nossa música são hoje dignos, ricos e eloquentes septuagenários – além do ganho com a ditadura musical abocanharam também grandes bocados das ‘indenizações’ com que o governo brindou os perseguidos pela redentora – mesmo sabendo de que todos nós fomos perseguidos, vigiados, doentes de depressão, de diarreia, de dengue, dor de cabeça, sofremos desemprego – as causas e os efeitos da ditadura atingiram a todos, sem distinção.

Quem não se enturmou ficou à margem, foi vender água de coco na praia, foi vender livros nos bares e boates da noite, enrustidos com medo do pau de arara. Ah, sim, eles também infernizaram os nossos pobres ouvidos com algumas músicas bem podres, além de deixar de fora, com o conluio de produtores, gravadoras e rádios e tevês, os novos sons que apareciam em nosso rico país, porque talento nós temos de sobra. Os sons novos e experimentais, que deveriam nos levar ao futuro da música, ficaram para alegrar os anjos no paraíso.

Charlatães do labirinto das palavras, letra e música, dos sons repetidos à exaustão, mágicos, ilusionistas, nos fizeram de bobos, nos fizeram acreditar que era música a cantilena monocórdia que hipnotizou por mais de 50 anos toda a população brasileira, num casamento infernal contratado como núpcias interioranas: com a declaração formal “até que a morte nos separe”. Ah sim, eles infernizaram milhões de ouvidos, deixando de fora os novos compositores que traziam a esperança de salvação de nossas almas penalizadas.

Aproveitando-se da fama de ‘perseguido pela ditadura’, erigiram e solidificaram a carreira com base nesse renome, posando de vítimas ad-æternum, subterfúgio inventado pela mídia por interesse financeiro, apenas pra faturar, apenas pra fazer o pé-de-meia crescer e crescer e crescer.

Ao mandar para a câmara de gás, para o limbo do purgatório, aquelas vozes que realmente traziam algo de novo, ideal como idealizamos o som novo, a música do tempo hoje, enterrando para sempre a ilusão da palavra e do som mexido como flautas indianas que enfeitiçam serpentes, atraparam o modernismo da MPB que foi preterido sempre, sempre com a anuência dos donos de nossos destinos, como uma repetição saatiana, enterrando-nos na pré-história da música do século XX, porque de lá eles nunca saíram.

Muitos irão me repudiar, lembrando que eles nos legaram belas canções – é verdade. Mas a que custo? E o quanto essas canções se transformaram em canto de sereia? As sereias eram entidades capazes de encantar qualquer um com o seu canto. Diz a lenda que os marinheiros que ouviam seu mavioso e hipnótico canto, perdiam o rumo, o tino e assim descuidados naufragavam. O sábio Homero afirmou que elas podiam prever o futuro, o que condiz com a minha indignação.

Nós nos deixamos enfeitiçar? Nós sucumbimos ao canto das sereias? Então tudo aquilo era fingimento? Isso porque, quando o futuro chegou, nos demos conta de que também nossos cantores e compositores ‘perseguidos’ pela ditadura, como as sereias, anteciparam de maneira sábia o que viria ocorrer: mesmo que a maioria deles não precisasse, porque vinda de berço de ouro, o futuro lhes trouxe muita e muita grana...


Para o resto, os demais, os jovens descendentes, as “entidades da sociedade civil, espaços de sociabilidade e cultura, atuação pública de personalidades críticas, todo o tecido social e os espaços públicos [que] eram virtualmente vigiados, [pois] a vigilância sobre a sociedade civil era constante”, ficou a estranha sensação de que serviu apenas de pano de fundo para essa tragicomédia sem fim que os governos militares legaram ao teatro de nossa existência. 
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