quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Cinco anos de uma postagem: dá pra comemorar?

Clamor Insano: contra as indenizações

Não sei o que significa o clamor nacional que se levantou contra Ziraldo e Jaguar sobre a inclusão e aceitação deles no recebimento das múltiplas e milionárias indenizações para reparar ‘danos’ sofridos no período do regime militar.
Para condenar tais indenizações seria preciso, primeiro, que elas não existissem, mas os Amigos Dos Amigos (ADA) – facção muito conhecida nos Três Poderes (com ramificação em todas as casinhas legislativas) – tiveram a luminosa idéia de produzir a inseminação, o parto e a criação dessa fera. Pois agora está de fato escrito na forma da Lei  dura lex, sed lex.

Como coisas desses tipos são figuras alienígenas, isto é, sabe-se que existem, mas ninguém conhece-lhes a forma, a canoa vaga de acordo com a interpretação de cada um, atrelada ao interesse de outro um. Algo assim como aquela anistia ‘ampla, geral, irrestrita’ – que todos abonamos por julgá-la democrática em tese – mas que agora abominamos, porque a irrestrição serve igual a torturadores e assassinos.

Fica evidente que se houvesse o julgamento que a História exige, muitos desses maus elementos não estariam agora acobertados sob o manto do mandato parlamentar, que não só os protege da espada da Lei, como também decreta o perdão e escancara a porta do Paraíso, onde todos passarão incólumes.
Não sem tempo – ou em todos os tempos – a História deu e dá exemplos: desde Nuremberg aos comandados de Hitler, até o Tribunal Internacional, aos aloprados daquele general sérvio porralouca Radovan Karadzic – como também dos casos regionais exemplares ocorridos no Chile e na Argentina. Se algumas omissões ocorreram, tais como a falta de condenação aos comandados de Franco, Salazar e Il Ducce, mais justiça que injustiça se fez.

Este caso ocorrido aqui em nossa taba consiste em que TODOS sofreram de algum modo com a Ditadura Militar. Alguns de nós sofremos mais ou menos, outros quase nada, além dos que foram prejudicados. Se o houvesse um ‘medidor de sofrimento’ capaz de dimensionar o nível de cada qual, a escala maior caberia ao torturado. Mas quem seria capaz de pensar que também o torturador teve seu nível de sofrimento, se fizermos uma triagem dos que torturaram com prazer, daqueles que o fizeram para ‘cumprir ordens’?

Jaguar e Ziraldo (os mais citados), são lugar comum, a ponta do iceberg. Outras decisões alopradas desse Conselho Papai Noel, que distribui milhões a torto e a direito, foram tomadas e executadas em absoluto silêncio. Sim, uma e outra aparecem no noticiário, mas logo se afundam no silêncio do pântano que habitamos: Artur da Távola, Carlos Heitor Cony e mais algumas léguas de etcéteras.

Tenho certeza que todos os indenizados aceitam os milhões oferecidos pela viúva apenas por uma questão de justiça, já que, pelo menos os aqui citados nomine (inclusive os fundadores do Pasquim), vieram de berço de ouro, são ricos de nascença e certamente vão doar grande parte do que receberam aos mais necessitados.

Por outro lado, precisamos saber também quanto ganharam – ou aqueles que NÃO ganharam, ou aqueles que NÃO aceitaram – muitos dos brasileiros notórios, para que, pelo menos, eles sejam julgados como heróis pela sociedade que os admira ou danados ao fogo dos infernos pela corja de pobres que também sofreu sob os tacões da Redentora e recebeu só pontapé na bunda e porrada no cocoruto como indenização...

Só para encerrar, convém lembrar que também os órgãos e entidades de direito público, as defensorias, as procuradorias, os tribunais superiores, também eles têm obrigação de inquirir qual a razão desse desperdício do dinheiro que muita falta faz para debelar a dengue, a febre amarela, a tuberculose, para escolas e hospitais. Então, por que o silêncio?
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