domingo, 29 de dezembro de 2013

O último diário do facebook


Salomão Rovedo e Pepe Varela
Prêmio de Redução de Estoque de uísque, vinho e cerveja.
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Horário de verão: antes das seis horas o sol se salienta por trás do morro da Mangueira e desaba direto na cama. Hora de levantar, todo cuidado pra não despertar Anelka. A claridade ataca o corpo dela em cheio, destacando as partes íntimas. Se alguém duvida que Deus exista é ver cena igual. O clit um pouco proeminente, que ressalta o seu lado andrógino (parece o pinto de recém-nascido) brilha sob a luz. Os pêlos ralos, fios de ouro adolescentes, as penas esguias, os braços soltos, o corpo todo relaxa em sono. Anelka se mexe com o rumor enquanto me arrumo. Ao calor do sol abrem-se as pernas, expondo mais ainda ao olhar a beleza das partes íntimas (estranho modo de chamar a vagina). Tirei uma foto com o celular, mas não vou postar: como as biografias, tais fotos precisam de ok prévio! O Facebook censurou um poema de Hilda Hilst! – imagina as partes outrora intimas de Anelka – não obstante ambos serem belos! Enquanto me arrumo, a beleza de Anelka levita, se move no ar, pênsil. Os lábios triscam – vagina sorri? – acho que sim, tanto que me aproximo e enjaulo o riso brejeiro com um roço apenas. À saída, na porta, dou a última olhada – preciso mesmo ir trabalhar! (28/11/2013)
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Recebi o folheto na rua, o anúncio: Espírita-vidente Dona Cilda, recém-chegada do Maranhão, aos sete anos de idade desvendou o passado, presente e futuro de toda a sua família, agora é minha vizinha, mudou-se pro Cachambi. Ainda não fui consultá-la porque – a essa altura – não quero ser orientado sobre problemas comerciais, particulares ou amorosos; não quero ninguém querido de volta; não quero recuperar um grande amor; não quero ganhar fortuna. Nunca fiz mal a uma mosca! – vou lá querer destruir malefícios, ciúmes, invejas que alguém cometeu? E setentão na idade terei tesão para alcançar êxitos, ter bom emprego, curar meus vícios – que custei a adquirir e tanto prezo? Não me cabe recuperar comércios falidos ou coisas tais. Se minha conterrânea, Dona Cilda, chegasse aqui há tempos, estaria na fila de consulentes. Mas agora fica como Deus quis – é bem melhor, né? Amores que não tive, livros que não li, mulheres que não amei – pra que mudar? Poderia ser um viver mais melhor? Nada! Este que carrego – jenipapo com açúcar – rúim mesmo não é, nem jamais foi nem jamais será. (29/11/2013)
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No metrô sentei perto de um rapaz cuja opção sexual está protegida por lei. Isso mesmo, um viado. Bonito, educado, voz delicada, do mesmo timbre da vizinha de assento: eram duas moças conversando. Eis um tema para o qual me preparei. Sexualidade? Nunca vou discutir, tomar partido, criticar: mistério da vida, do tempo do tataravô de Adão! Então pra que gastar tempo e neurônios? Homens que são mulheres, mulheres que imitam homens, com enigmas. Também não sou “politicamente correto” – não vou desmontar a fama de rebelde que a custo construí. Mas enquanto durou a viagem me coloquei numa posição de cobiça, sem humilhar as mulheres com a tese freudiana da “inveja do pênis”. Fico no popular: teria eu desejo de ser uma mulher bonita? Dona de peitos enormes e sensuais? E que tal eu ficaria com uma bunda igual à que ornamenta com louvor o corpo das negras e mulatas? E a bocona da Angelina Jolie, não é de dar tesão em qualquer um? Essas ambições até que dão certa compreensão ao desejo de ser outro(a). Mas, chegando em casa, o espelho mostra a realidade: que tesão dará uns pobres mamilos cercados de pêlos grisalhos, ou uma bunda murcha que já perdeu a elasticidade e nem pra assento serve mais? (02/12/2013)
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Uma amiga, que só leu meus textículos depois que implorei genuflexo a seus pés (ela nua, claro), concluiu que escrevo “só coisa rúim” porque tive uma infância difícil, infeliz. Minha infância foi normal, até onde me lembra. Fui à escola pública, mergulhei nos rios, joguei bola na rua, namorei, tomei banho de chuva, fui demais à praia, espiei meninas nuas, caminhei horas pra encontrar o paraíso, debaixo dos juçarais, me masturbei, afundei de olhos abertos em nascentes límpidas e aos doze anos aprendi com a empregada de dezoito como se faz neném. Isso é infância difícil, infeliz? Se existe algo pra reclamar é que o velho João Rovedo educava à moda antiga – na chibata! Mas tive uma mãe capaz de botar o indicador no nariz dele e desafiar: – Bate! O velho recuava. Dona Mizika sabia a hora de abrir as pernas. Mais tarde, sendo pai, me vi no papel do vilão, a tempo de refletir: – Péraí, estou usando em meu filho o que meu pai fazia comigo? Preferi ganhar as causas pela ameaça, mais tarde na conversa e, por fim, com o silêncio, o abraço, o sorriso, a cumplicidade. Ainda bem, senão em vez de filhos teria inimigos. (03/12/2013)
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Quero ser Xenia Antunes, que largou Copacabana no auge do verão, as águas mais verdes da face da terra, largou o hotel Copacabana Palace recebendo os mais famosos astros internacionais, sem se despedir das ondas que encaixotavam na areia, nem da arrebentação, nem dos pegadores de jacaré que ficavam encarcerados na maré até que o salva-vidas fosse dar uma mãozinha. Eu quero ser Xenia Antunes, que trocou o barzinho dos becos, o Alcazar, o Pérgula, trocou os assovios dos garotões pelo pipilar dos sanhaços, canários e pardais, que perdeu o prazer de descascar a pele queimada no último verão, de cobrir as sardas e o nariz com hipoglós pra se proteger do calor de 40°C. Eu quero ser a Xenia Antunes que trocou as ondas turbulentas do oceano pela marola mansa do Lago Niemeyer, eu quero ser Xenia Antunes que ao pisar o solo de Brasília declarou: - ¿Hay gobierno? ¡Soy contra! Eu quero ser a Xenia Antunes que plantou um mamoeiro, escreveu um livro de poesia, pariu uma banda de rock, desconstruiu um mito chamado Lula e ainda encontra tempo para pintar, fotografar, desentranhar um estranho fruto chamado blues e amar Billie Holiday. Etc. (04/12/2013)
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Tomo às manhãs o cafezinho diário no bar e restaurante Aveiro, dos irmãos Manoel e Pereira. O Pereira há tempos não trabalha – contou-me o Manoel – recolheu-se, as pernas destroçadas pelas varizes, que o trabalho duro dos emigrantes patrícios ocasionam. Anos e anos gastando energia e saúde em pé, pra lá e pra cá a atender fregueses, minam a resistência das pernas, corroem as articulações, dinamitam os joelhos. Tudo isso com a obrigação de atender sorrindo e com amabilidade. Ao passar, aceno à distância, “bom dia”, a mão espalmada; ele responde com o polegar e o indicador próximos: “um cafezinho”; aponto o polegar para baixo:“não, não dá” e com a mão no ritmo da vassoura do baterista, “tenho pressa”; duas voltas com o indicador , “depois, mais tarde”; ele levanta o polegar, “ok, entendido”, de novo acenamos os dois, “xau! bom dia!” Essa linguagem de gestos corre o mundo, com mínimas variantes, mas no amor não funciona – o amor exige gestos econômicos, proximidade, odores, líquidos, cheiros, agarramento, saliva. Nem mesmo para o ciao as mãos se movem, basta um breve cruzar de olhares. (06/12/2013)
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Todo mundo já escreveu sobre Nelson Mandela. Não sobrou uma mísera vírgula para que eu possa enaltecer esse amigo da humanidade. Guardei dele um fato simples: Mandela foi convidado a gravar o na TV o clipe-convite para a Copa do Mundo de Críquete de 2011, a ser realizada na África do Sul. No estúdio, recebido com mesuras, deram-lhe um chapéu alegórico, de palha, abas estreitas, fita preta, desses que caracterizam o típico malandro. “Por favor, ponha este chapéu na cabeça”. Mandela, com rapidez e puro instinto, botou o chapéu da maneira mais carioca possível: de viés, caindo sobre os olhos, o nariz, tapando todo o rosto. Foi uma gargalhada geral! Com o gesto Mandela quebrou o protocolo. Se a gravação saísse assim, ninguém veria ali o Nelson Mandela, patrono do evento. De repente os técnicos, diretores, o estúdio todo – inclusive eu, anos depois, vendo o documentário –, tivemos que render a ele lágrimas de emoção. Nelson Mandela assumiu uma missão e depois de cumpri-la recolheu-se, não quis ser político, não quis apodrecer – senão como a árvore que o tempo encarquilha e derriba. Eis um homem que eu gostaria de abraçar. (07/12/2013)
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Hoje é aniversário de Yasmina, minha neta: oito anos! Outro dia, em julho, data nacional da França (tomada da Bastilha), Calian, o outro neto, fez sete anos. Parabéns, beijos e cheirinhos aos dois deste avô relapso. Mas o fato misterioso dessa convivência com eles confesso: tô tomando jeito. Os netos, os netos fazem avôs agirem como gostariam ter feito com os filhos, mas a vertigem do tempo não deixou. Ao mesmo tempo, avô não deve tomar o espaço dos pais que, por dever e amor, têm de estar grudados aos filhos queném carrapatos. Quanto carão levei por não ir à festa deles. Ora, a festa é deles, dos amigos deles, dos primos deles, a festa é das crianças, nada mais justo deixá-los livres para desfrutar o momento e consolidar a amizade com amigos e parentes. Sabemos, por conta própria, que no tempo certo a vida exigirá que estejam juntos e amigos. Sabemos também que a adversidade – até mesmo a felicidade – cuidará de contaminar amizades não solidificadas na infância, na juventude. Papai, mamãe, titio, titia, primos, parentes e aderentes: com seu próprio exemplo prove a meus netos que a amizade, a família, a tribo, tem importância e valor. Amanhã poderá ser tarde demais. Beijos. (08/12/2013)
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Martiniano nunca mais irá a Cururupu. Martiniano vai morrer na Praça Mauá. Depois que o conheci, ele soube que estive em Cururupu, ficamos amigos. Martiniano me contou que tem um irmão branco: – Eu sou preto, mas meu irmão é branco, dizia. Martiniano não é preto, é cabôco rijo, forte, que rilha os dentes pra provar: – É tudo natural, meu ainda! Não sei como Martiniano veio dar com os costados no Rio, mas está aqui desde rapaz. Trabalhou anos a fio numa fábrica de roupas, homem de confiança do patrão. A fábrica fechou, Martiniano tinha tempo pra aposentar, mas o patrão não depositou INSS e FGTS. Martiniano sofreu cinco anos até receber: – Agora vou ver meu irmão branco, volto pra Cururupu. O tempo passou e Martiniano toda vez que me vê repete que está arrumando a mala. Mas o cabôco rijo e forte foi derribado pelo álcool, travestis, prostitutas e amizades afins. Morou num sobrado da Prainha, hoje não sei onde dorme, dizem que é chegado a cheirinho da loló e chupa carreira, mas não acredito: Martiniano não tem grana pra comprar papelote – ele sabe – se não pagar, morre. Martiniano não vai nunca mais a Cururupu. Martiniano vai morrer na Praça Mauá, no Beco do Escorrega, na Pedra do Sal, na Rua Jogo da Bola – adeus Cururupu! Martiniano vai cair na Praça Mauá. Vai pra vala com a boca cheia de formiga. Êh, Martiniano, meu amigo, nunca mais Cururupu. Êh, Martiniano, meu chapa, nunca mais caranguejada – vais morrer na Praça Mauá. Martiniano não vai ver nunca mais Cururupu. (09/12/2013)
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Crianças, outro dia eu comprei uma juçara pensando que iria matar as saudades de minha terra, mas a disgrama veio junto. Primeiro – não reparei que a dita era misturada com... tcham... tcham... tcham... morango! Quando provei o desastre confirmou-se: ô diacho danado de rúim! Combinação errada... Aí, só então, como bom brasileiro, fui ler a fórmula, ou seja, os famosos “ingredientes”, sempre detalhados com aquelas letras miudinhas pra cacete. Então, vamos lá: Ingredientes. Polpa de açaí médio (que merda é açaí médio?), min. 50%; água, suco de morango concentrado, açúcar, corante carmim de cochonilha, acidulante ácido cítrico (INS 330), estabilizante goma xantena (INS 415), antioxidante ácido ascórbico (INS 300), extrato de guaraná, aroma idêntico ao natural do açaí, aroma idêntico ao natural do guaraná e aroma idêntico ao natural do morango. O nome desse líquido estranho é Amazoo (os habitantes desse ‘zoo’ somos nós, os consumidores), o fabricante é uma tal Globalbev Bebidas e Refrigerantes Ltda. Mas, peeraaíí, esse final ‘bev’ não lembra alguma coisa, tipo assim, Ambev? Empresas desse porte têm de cuidar mais de seus produtos, não é? Ademais, alguém pode me explicar porque nós, moradores de um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, somos obrigados a beber tanta porcaria? Arre! Mil vezes arre! (10/12/2013) 
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Primo Quincas, como tu sabes, estou há tempo sem beber – culpa dos achaques da idade. Outro dia, porém, não resisti à irlandesa Murphy's Stout que me espiou do bar “Angu do Gomes”, ali na Prainha, colado à escadaria da Igreja de São Francisco. Latona de meio litro, geladinha, amarga, ô bicha gostosa! Ingredientes: água, levedo, malte, cevada. Nada de corante caramelo nem conservante. A preta amarga tem uma bolinha dentro que, ao ser aberta, provoca uma voragem de espuma fervilhando copo acima. Encostei ao balcão, conversa vai conversa vem, fiz amizade com os donos – tudo rapaziada – dizque neto do velho Gomes, portuga que enricou vendendo angu à baiana na madruga do Rio, na Praça XV, Cinelândia, Praça Mauá e adjacências. Fogareiro no fundo do panelão incrustado em carrinhos, o angu, com pimenta de fazer suar frio o couro cabeludo, saía em pratos de ágata, comido a colheradas. Na moita, pros íntimos, servia-se um grogue da branquinha – ninguém é de ferro! Nesse mesmo bar tem um estoque de caninha da melhor procedência e qualidade. Só tem um defeito: a turma tomou gosto pelo lugar – só vive cheio! Com esse brinde maneiro, te abraça o primo Saloca. (14/12/2013)
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Márcia. Se eu estivesse ao teu lado, sabe bem o que iria acontecer, né? Te daria um abraço arrochado e demorado (de dar inveja a teus melhores amigos), olharia bem fundo esses olhos de mil tons de verde... E ficaria em silêncio. Não daria uma só palavra, apenas o olhar romancearia o momento. Meu coração, a essa altura, repinicaria como um reco-reco, revirado pelas ondas da emoção. É certo que meus olhos se encheriam daquele líquido cuja fórmula ninguém descobriu – como agora mesmo ocorre quando escrevo. Isso tudo porque tu és a pessoa autorretratada neste Facebook, confissão de coragem, vibração, fé e amor. Viva 17 de dezembro de 2013! Um beijo na bochecha, desde o Rio de Janeiro, deste teu primo “não sei o quê”, Saloca. (17/12/2013)
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Zébarela (foto) tá com o ânus em festa, embora dolorido. Veio pro Brasil, como milhares de rapazos, contra a convocação de Franco pra guerras coloniais. Pepe é pacífico: quando fica puto com a gente, dá beijos – moda espanhola (beijar homem) que nunca pegou aqui. A gente somos macho! Um dia viu Eveline Boabaid Rovedo num ônibus (mãe a tiracolo) e caiu na armadilha. Nem se deu conta que a velha estava caçando marido pra desencalhar a caçula! Se amarrou aos olhos verdes de Bella e teve três filhas. Duas espanholas: Simone e Samira – uma brasileira: Sabrina (quem conhece sabe do que falo). Educou-as como bom pai – nem uma palmada sequer, mesmo nas que herdaram o musculoso e amplo nadegueiro da vovó Mizika. Natural de Pontevedra, Galícia (a terra mais brasileira de Espanha), Pepe sempre visita a família, depois presta conta dos pecados em Fátima e traz algo pra eu beber. Aguardiente de hierbas, brandy de Jerez, Lacrima Christi  de Málaga e uísque hecho en el Paraguay do freeshop do Galeão, pecado que N. S. de Fátima perdoa. Parabéns Barela, já já vou aí te dar um abraço! (18/12/2013)
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Ferreira Gullar é um chato: tudo que ele diz tem estrume, polpa e sabor – a gente gosta. No programa Impressões do Brasil, Gullar conta algumas fábulas, entre elas porque foi comunista e como a poesia é necessária. A primeira foi devido à leitura do livro de um padre sobre Marx, dividido em duas partes, que revelava, com aptidão, o que é o marxismo e provava porque padres não podem ser comunistas. Gullar leu a 1ª parte e absteu-se da 2ª porque não ia ser padre – logo virou comunista de carteirinha e retrato 3x4. A segunda fábula versa sobre vizinho de mesa chato – um economista porteño casado com uma bonita brasileira, em Buenos Aires dividia a mesa com o poeta. Gullar só ouvia um tema: economia, economia, economia, coisa chatíssima para poetas. Certo dia a morena largou o porteño e quando Gullar o viu após o fim do namoro imaginou o quão trágica seria a conversa: economia, dor-de-cotovelo, paixão. Mas não foi o que ocorreu: o economista mostrou seu profundo conhecimento de poesia – e eis a razão da fábula: a poesia é necessária porque a morena bonita existe. Façamos um esforço de imaginação: o que teria ocorrido se Gullar lesse apenas a 2ª parte do livro do padre e a morena bonita vivesse com o porteño, felizes e apaixonados para sempre? (19/12/2013)
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sou porque tu és; tu és a criatura mais linda; tu és eu sou e somos; tu és uma  pequena folha; tu fazes tremer meu peito; te amo; tu és a alegria; te procuro todo tempo; te olho no infinito; tu não te mostras; será que tu existes? não te encontro no Google; não te encontro nas religiões; tu estavas – bem te vi; te busquei não encontrei; te descri na crença; tu tens todas as faces; tu és a nacionalidade; te ofendi e caí; quem tu és?  te encontrei nos amigos; te vi fazer nascer o amor; tu és velho no mundo; nunca te vi com fartura; dentro de tudo estás; tu és livre; tu és o problema; tu és a dificuldade; tu és a solução; tu és o amado; tu és o furto da terra; tu és a resiliência; tu és o obstáculo; tu és a saída; tu és a cor da pele; tu ofuscas até o sol; tu és a lei do ouro; tu és o primeiro passo; tu és a vida; tu és diamante e pedra; tu és a decepção; tu és a felicidade; tu vales mesmo sozinho; tu és irresponsável; tu mudas as pessoas; tu és o silêncio; tu és cego; tu és a mentira e a verdade; tu silencias – mas o mundo não vive sem ti... teu nome é dinheiro. (21/12/2013)
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Antes de eu morrer terás raiva de mim, odiarás trocar fraldas, temerás as caminhadas noturnas, não suportarás o peso morto deste corpo cansado. Antes de eu morrer o ruído de copos e pratos quebrados ferirá teus ouvidos, abominarás os farelos de pão, o arroz no sofá. Antes de eu morrer te envergonharás dos olhos remelentos, das ereções involuntárias, da saliva fluindo dos lábios, criticará o leite derramado, a panela com água esquecida no fogão. Antes de eu morrer me detestarás, porque levanto cedo e esfolo o ar com o som de Beethoven, levantarão tua ira o mau hálito e o mijo fora do sanitário, te zangarás porque não faço a barba, uso roupas amarrotadas e sujas, não corto as unhas. Antes de eu morrer te ofenderá a aparência, os cabelos desgrenhados, os óculos remendados com fita durex, terás ataque de fúria se eu ficar olhando a bunda, os peitos das visitas, te irritarás com a piada de mau gosto. Antes de eu morrer tua cólera se acentuará se no banho molho o chão todo e com furor me odiarás quando, antes de eu morrer, eu ficar bêbado. Depois que eu morrer ficarás aliviada, mas ainda assim te queixarás do peso do caixão, porque morrerei velho, gordo e caduco. (22/12/2013)
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Facebook adeus! Foi bom participar da rede – mina de ouro e lixão – mas o bicho cresceu e quer tomar conta de mim, quer me dominar, coisa que meu anjo rebelde não permite. Cresceu tanto que não dá pra tomar conta sem ter uma secretária. Aí entra a questão da bufunfa: sempre fui durango, sempre vivi como as cigarras, sempre sambei a vida na flauta. Não podendo ser formiga (vôte Kafka!), deixo o Face, mas não fecho a página. E mais: autorizo o uso, a cópia, escrevam o que quiserem. A gente se vê por aí: o mundo tem ruas, calçadas, becos e praças pra encontros; tem bares, restaurantes, cafés e sorveterias pro papo; tem bairros, igrejas, clubes, associações pra ver gente; tudo serve pra aconchegos, bate-papos, beijinhos, convescotes e outras uniões mais safadas. Esqueci os motéis? Também serve. Enfim, quem quer acha, como diz o ditado. Eu acharei, tu acharás, eles acharão e todos ficarão felizes. E ainda tem a passeata, o protesto, o chute na lixeira, o grafite, as exposições, os museus, alguns poetas poetando aos berros! Coisas que reúnem gente, já que as revoluções armadas estão em desuso. Facebook adeus! (25/12/2013)
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