segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

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Volto ao passado. Um amigo me telefona. Precisa falar comigo urgente, sem falta. Nunca falto aos amigos e às mulheres. Pede pra encontrá-lo no Bar Estrela. Vou lá, procuro, me informam que está na área, por ali, nalgum lugar. Lá está ele, sentado na calçada, no meio-fio. Chego e vejo que tem uma arma na mão entre as pernas, cabeça arriada, ombros curvados, um retrato nelsonrodriguiano... Uso a terapia do esporro: - Que foi? Que não foi? - Vou me matar, diz ele. - E por quê? - Descobri que sou corno! - Ora, merda, é isso? Ele me olha espantado com o desdém que dou ao tema. - Eu já sou corno faz muito tempo e nunca me matei! Não sei por que disse essa merda, mas funcionou. Peguei a arma, tirei as balas (precaução nunca é pouco) e decretei: - Vamos ao Estrela beber uma gelada, brindar à vida! (29/10/2013)
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Quem avisa amigo é. O réveillon 2013/2014 no Rio de Janeiro está prometendo ser o mais caótico possível. Obras, obras, obras. Atalhos, vias expressas, novas linhas de metrô, melhoramento em aeroportos e rodoviárias, prometidos para a Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, estão longe da realidade. Se o turista conseguir superar o estresse causado pelas obras não realizadas no Aeroporto Tom Jobim (Galeão) e quiser ir, por exemplo, para a Barra da Tijuca, terá de enfrentar engarrafamentos nas Linhas Vermelha e Amarela. Para ir para a Zona Sul (Copacabana, Ipanema, Leblon, Gávea e São Conrado), terá que comer muita poeira e trânsito caótico. Causa? As obras do Porto Maravilha, desmonte do Elevado da Perimetral, construção do túnel da Via Binária. Isto é apenas um trailer, que promete virar um thriller de horror. Quer saber? Melhor não vir. Lembre-se: Quem avisa amigo é! (01/11/2013)
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Tenho pavor de frio. Meu pior pesadelo é aquele em que estou em terras nevadas – geralmente morro antes de acordar. Talvez seja por isso que o esperma que fez este bonitão que aqui escreve deixou para se materializar nos trópicos de Rio Tinto, beira rio, beira mar. Senão, havéra de nascer parnanguara ou coritibano, donde tenho lindos parentes que, ao contrário d’eu, cagam e andam pro frio. Quando fui a Curitiba na primeira vez só consegui andar na Rua XV de Novembro pulando de loja em loja, de bar em bar, me aquecendo a custa de café preto, acrescido do bom conhaque George Aubert. Ali tem uma corrente de vento que parece vir por uma BRT que liga a Antártida a Curitiba! Essa natureza crespa, porém, cria suas próprias compensações: por causa desse frio congelador as mulheres curitibanas apresentam tal volume calórico, que não fica nada a dever à mais legítima caribenha! (02/11/2013)
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Agora nesta primavera carioca de 2013, alguém, alhures, do mar, da serra, assopra um ventinho lascado, impertinente, frio. Ah, quer saber, dane-se! Finjo que é primavera em país onde tem primavera. Vejo flores de jasmim, café, maracujá, macieira, cerejeira, lilás – quê mais? Mas nem tudo é frio no Paraná: em Paranaguá dá 40° no verão. O primo Nenéca que, menino ainda, conhecia toda a rota marítima de lá – as ilhas, as rias, a baía – me acordava cedinho para, na lancha do tio Nélis (emprestada sem este saber), fugir para as águas mais límpidas e transparentes que já vi! Mergulhar, nadar o dia inteiro, voltar de noite, famintos, pra comer uma pizza de sardinha que me dava engulhos, mas que ele adorava. Nenéca trazia a lancha com o cuidado que teria com uma Ferrari, rezando pro velho não descobrir. Só que tio Nélis media o nível de óleo, aí a vaca ia pro brejo com corda e tudo. Mas o sobrinho mais velho – eu – assumia que tinha pedido e tudo ficava em paz... (02/11/2013)
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O brasileiro tem mania de desmerecer o Paraguai de país atrasado, humilhando os hermanos guaranis. Mas como se pode chamar um país atrasado, se ele fabrica e manufatura todos os produtos, de todos os países do mundo, do modo mais moderno possível – em lançamento simultâneo com a produção original? Todo artigo de marcas, grifes, cigarros, eletrônicos, a gente acha no Paraguai. Isso é país atrasado? Vou contar uma história. Um amigo meu, já falecido, fabricava ótimo uísque Cavalo Branco.  O conjunto incluía: garrafa de Cavalo Branco, legítima, com datação e tudo; lacre de segurança; o cavalinho branco no gargalo; fundo convexo, litro com numeração interna! Mas o conteúdo não álcool misturado com iodo e outras porcarias, não: era uísque nacional. As caixas de cartão (numeradas na Escócia), com 12 litros, eram despachadas aos fieis clientes. Jamais ele recebeu uma reclamação, uma devolução. E era tudo original – made in Paraguay! (05/11/2013)
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Ontem, Dia de Finados, almocei com o primo Joaquim Itapary e Edna. Comemorávamos o nascimento, não a morte – porque também nasce gente no dia dos mortos. Na verdade Joaquim queria ir à Feira (dos paraíbas) de São Cristóvão, mas quando contei no caos que aquele lugar pretensamente cultural se transformou, ele desistiu. Ficamos lá mesmo onde ele se hospeda, no Leblon, que também está caótico devido às obras do metrô. Cemitérios caóticos, praias cheias, botecos idem, ora bolas, é realmente a invasão alienígena que Orson Welles imaginou, putzgrila! Vou-me embora pra Catende, pra Pasárgada, pra Cochinchina, pra Benares – qualquer lugar longínquo que chegue de trem, seja amigo do Rei, tenha mulher na rede, perdoado de todos os pecados. É pedir muito? Que seja! Primo Quincas, você que é cronista dos bons, prometa que vai fazer uma crônica pra mim, assim que esta alma pecaminosa aportar num desses lugares. (03/11/2013)
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Tô com saudade, aliás, morro de saudade. Não é de mulher, se fosse teria morrido tantas vezes! Minhas saudades são dos dias tranquilos, em Barreirinhas, nos Lençóis Maranhenses. Queria passar apenas uma semana, grana curta, fiquei um mês! Ao amigo Buna disse que eu tinha apenas R$ 100, ele foi direto: – Dá! – Fui! Mal chegamos, fomos pro calçadão na Rua Beira Rio, olhos brilhantes, contaminados pela cor do buritizal refletida no manso Rio das Preguiças. Cansados, empoeirados – resistir quem há de? – mergulhamos ali juntos com os meninos. Refeitos e alegres, atacamos umas tiquiras pra matar o bicho no bar do Minervino: tira-gosto de camarão frito, rodelas de caju, pimenta-do-reino e sal. Lá adiante, na curva do rio, lavadeiras cantam o bate-rede, clareando roupas com sabão de andiroba sobre as pedras lisas. Não dá pra perder a ocasião: gozar o milagre, as águas mansas, aquele rio enorme, prazer exclusivo, tudo dividido com crianças, aves, peixes. Nós e o rio, o rio e nós – nada mais. Isto é, tinha sim: aquele céu desnublado, profundo, azul sem mácula, como deve ser os olhos de Deus. (07/11/2013)
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Dez anos sem ler O Globo, ganhei exemplares de sábado e domingo. Vejo que não perdi nada. E ainda condeno a política de terra arrasada que os donos do Globo praticaram contra a imprensa carioca e paulista. Por isso, não compro, não leio, não indico... Agora, faço a mesma triagem de dez anos: folheio-o de trás pra frente as cento e tantas páginas! Fica dez pra ler – sem garantia de boa leitura: os cadernos, Prosa, Segundo Caderno e Ela. Este Prosa celebra 100 anos de nascimento de Albert Camus. A capa inteira, além do cabeçalho, é ocupada por um Camus de Cássio Loredano e propaganda da Editora PUC. Na pg. 2 a foto de uma moça lendo Camus ocupa 1/3 do espaço, a metade da última página é gasta com outra foto gigante de Camus – assim vai. Muito esperdício de espaço, por que não cobri-los de texto? Fiquei puto quando vi que Joaquim Ferreira dos Santos não assina mais Gente Boa, no Segundo Caderno. O caderno Ela, por ser “literatura feminina”, continua legível com alegria, apesar da fama de sério. (04/11/2013)
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Vê-la todo dia sorrindo aqui se pensa conhecer Lella (Antonella, para os menos íntimos). Essa alegria ela dá a todos, claro, semente original, estranha mistura de genes índio com alvura ítala, que num dia esquisito se amaram pra valer. Mas Lella tem num cantinho uma cadeira de espinhos – todos nós temos – onde, vez em quando, é obrigada a sentar. Dói um bocado. Presente, passado e futuro são elementos alquímicos unidos, parte da fórmula inusitada desse estranho xarope chamado vida. O riso espraiado de hoje, repeteco de ontem, será o de amanhã. Conhecer Lella, amar Lella – coisa indivisível – mas quando a gente pensa que conhece, é mentira: falta o detalhe maior, está inédito. Um dia Lella teve que vir ao Rio, mas o babaca aqui só foi vê-la quando já estava de volta pra Curitiba. Levei Patrícia e Priscila, ficamos todos enfeitiçados por vocês sabem o quê e por quem. Querem saber mais? Convidem-na, aposto que Lella, dadinha como é, não recusará amizade a ninguém. (08/11/2013)
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Taí, vou citar: “Tudo na mulher é poesia e samba-canção. Os olhos são o espelho da alma, as mãos herdamos das fadas, o sorriso transporta ao paraíso, a voz é de anjo, a pele de rosas, o corpo de sereia, tudo com infinito poder de beleza e sedução. Mas na hora de falar em público sobre aquelas pequenas partes tão sensíveis e tão femininas da mulher, não há uma linguagem poética, gentil e sedutora que traduza o apreço que se tem por elas. A escolha é entre termos clássicos, tipo vulva e vagina, que soam feios e irreais, os nomes vulgares, aprendidos com pudor e excitação nos grafitos de banheiro, e os inocentes apelidos maternais como xota, xoxota, bimbinha, bobó, pixu, pipi, xibiu, pixirica, xereca, prexeca, perereca, crica, periquita, pombinha, passarinha, bacurinha, partes, países baixos, zona sul...” (Partes mimosas da natureza, do livro "Só para mulheres", de Sonia Hirsch) (07/11/2013)
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