segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O queijo de São Bento e a Serra da Mantiqueira

Pego carona na crônica de Joaquim Itapary no O Estado do Maranhão (São Luis), na qual o jornalista critica o tratamento rigoroso dado pela fiscalização a um queijo tradicional da cidade de São Bento, para fazer registro que essa mesma maldade institucional é feita aos queijos artesanais das regiões serranas de Minas Gerais.
Outro dia mesmo, como de costume faço aos domingos, visito a feira livre que temos aqui no Cachambi, assim como vou aos mercados populares, lugares que os apreciadores de manjares não podem perder de vista em qualquer canto do mundo.
Na feira, logo ao lado do meu prédio, tem uma barraca de lona em que uma senhora, com ares de nordestina, prepara na hora a tapioca, o tradicional beiju. São várias as maneiras que o beiju é feito aqui: uma, dobrado ao meio, com recheio de coco e mais uma variedade imensa, como queijo, doces, leite condensado, etc.; tem outra, de modo mais simples, apenas pondo manteiga, que se derrete sobre a superfície quente. Agora é só encher a xícara de café com leite bem quente e saborear.
Se quiser tem também sobre a banca o bolo de macaxeira, sacos de bolacha (salgada ou doce), bolo de massa puba, canjica de milho verde (curau) e pilhas de queijo minas meia-cura. Não aqueles frescos, que se desmancham em soro e devem ser comidos de logo, mas um mais sólido, de consistência acentuada e sabor incomparável.
Esse queijo tem vários nomes: meia-cura é o nome genérico, mas chamam também de queijo Canastra, queijo do Serro (mais curado e recoberto de fina casca amanteigada), o queijo Curado. O da Serra da Canastra se caracteriza pelos furinhos com que o seu interior é atopetado, como se fosse aerado, semelhante ao queijo suíço, só que em miniatura.
Pois bem, o que esses queijos têm em parecença com o queijo de São Bento, da crônica de Joaquim Itapary? Acontece que estes queijos, feitos no interior de Minas Gerais, tanto na região da Serra da Canastra quanto da Serra da Mantiqueira, só conseguem chegar à mesa do carioca contrabandeados. Sim senhor, acreditem ou não, assim como o queijo de São Bento está proibido de ser vendido em São Luis, os queijos de Minas mais tradicionais – Serro, Canastra, Meia-Cura – só chegam do Rio de Janeiro ilegalmente.
O pequeno produtor que for pego será autuado, perderá toda a carga e levará de volta o prejuízo do trabalho que levou tempo para executar. Se duvidar irá preso também. E por quê? Porque algum Ministério, associado naturalmente a outros órgãos e Agências paquidermes que assolam o país, aquadrilhados com órgãos estaduais e municipais decidiu, por conta própria, cuidar da nossa saúde (sem nos consultar, como sempre). É o porrete, o big stick, a imposição de cima para baixo.
Com esse propósito, os burocratas que não têm o que fazer, bem confortáveis com the ass on chair (para usar uma expressão americana), em assentos acolchoados e salas com ar condicionado, resolveram mostrar serviço baixando atos e mais atos, exigindo dos fabricantes artesanais o cumprimento de uma série de “exigências e normas” – algumas sob o ‘aval’ da ONU – para que seus produtos feitos em casa possam ser oferecidos fora do estado de origem. Pura burocracia que impede com que os pequenos produtores possam prover sua subsistência de modo legal e dá margem para que fiscais corruptos possam achacar os fabricantes de produtos caseiros.
Estamos consumindo contrabando da China ou do Paraguai? Não!  Aqui é Brasil, Minas é Brasil, São Bento é Brasil, aqui é o nosso país! Mas para saborear o queijo de São Bento e os queijos Serranos de Minas Gerais (também o queijo manteiga, o queijo de coalho, etc.) temos que nos transformar em cúmplices do crime de contrabando.
É tempo de se tratar o assunto com mais seriedade do que fazem os funcionários posudos de Brasília, bem assalariados e incompetentes. Esses e outros produtos caseiros – doces, compotas, embutidos e queijos – são fabricados há séculos, com fórmulas e receitas trazidas de vários lugares do mundo pelos emigrantes, nossos antepassados, avós e bisavós.
Será que um dia a tapioqueira, a que me referi lá no início, será obrigada a usar uniforme e luvas assépticas, como médicos e tais, para poder fazer o beiju a ser consumido no mesmo instante? Não e não. É preciso lembrar que todos esse produtos são parte da nossa cultura e devem também ter tratamento especial – o mesmo dado ao samba, ao tambor de crioula, aos acepipes baianos (o acarajé em especial), às comidas, açaí, tacacá e frutos do amazonas, etc. etc.
Se o cronista Joaquim Itapary reclama que está na hora de trazer de volta ao Natal de São Luís – que já se aproxima – a tradição de ter o queijo de São Bento, o resto do país também reclama o direito de ter em sua mesa os produtos fabricados desde nossas bisavós. É um bem cultural que não deve se acabar; deve vir livremente, sem ser taxado de contrabando, sem que o trabalho secular de seus produtores seja criminalizado como se fosse o furto de reles punguistas.
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