sábado, 12 de outubro de 2013

Estória e História do Rio Amazonas

*Henrique Américo Santa Rosa (do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) - “História do Rio Amazonas” - Oficinas Gráficas Guajarina - Pará – 1926
*Ernesto Cruz - “Na terra das igaçabas” - Etimologia indígena - Contos, mitos e folclore da Amazônia - Oficinas Gráficas do Instituto Dom Macedo Costa - Pará – 1935

Primo Quincas, missão cumprida! Estou aqui com o livro "História do Rio Amazonas" do Dr. Henrique Santa Rosa, que você pediu para pegar, em troca do Ernesto Cruz, “Na terra das igaçabas”. Sabe o que aconteceu? Botei o livro do Ernesto Cruz dentro de um saco plástico, esperando a primeira oportunidade para ir à Rua Frei Caneca trocá-lo. Quando estou nessa arrumação o livro se separou em várias partes, então – surpresa! – uma daquelas partes lá estava, vivinho da silva, o outro que querias e tinha dado como perdido: “História do Rio Amazonas”. O dito cujo é tão fininho que mais parecia uma das partes soltas do outro livro e por isso não o percebeste.

Aproveitei meus dotes de consertador de livros velhos e dei uma arrumada no livro de Ernesto Cruz, ficou bom; mas o do Santa Rosa está tão castigadinho pelo tempo que precisa de cuidados especiais. Essa providência deixo contigo. E pra nãodizer que não falei de flores, aproveitei que estão comigo e dei uma lida rápida em ambos: o livro do Ernesto Cruz, como bem tu já havias notado, trata-se de obra de diletante, sem compromisso científico, escritor e “folclorista” amador (acho que posso dizer: igual a este que te escreve).

Ernesto Cruz chamou seu trabalho de “Etimologia indígena”. Ele pega temas folclóricos já conhecidos e dentro de uma perspectiva pessoal, tenta reinterpretá-los. É daqueles escritores que lê os trabalhos alheios, com intenção e prazer em demolir, divergir, contestar. Por exemplo, veja estes capítulos: “Caramuru ou Tatamuru?”; “Bororós ou Borôros?” Coisas desimportantes, enfim. Além disso, juntou no mesmo volume um vocabulário indígena e algumas lendas do folclore amazônico. Mas lá pelas tantas – sempre se deixando levar por um tipo de paixão escrava do folclore – está narrando a lenda indígena “No tempo dos bichos”, quando aparece entre os personagens ...um URSO! Bom, pensei, um urso amazônico nem em lenda – aí foi mesmo que desisti de aprofundar a leitura!

Já o livro do Santa Rosa é outra coisa. Trata-se da Tese com que o mesmo foi admitido no IHGB. É obra para ler devagar e reler, reler. Bem cuidada, com a erudição necessária. Está dividida em duas partes, ambas com certa base científica, fruto de estudos e pesquisas: a primeira perpassa pela pré-história e estuda fisicamente o meio-ambiente que envolve o rio Amazonas; a segunda começa no “descobrimento”, fins do século XV, isto é, deu um salto direto para Pinzon, ignorando a vertente dos viajantes nórdicos, vikings.

O problema é: será que naquele tempo (1922) já era conhecida essa perspectiva? Ademais, se tudo no Universo é representado por bilhões de anos e outras cifras fabulosas, por que quando se trata da história do homem tudo se reduz a um traque de tempo? E com estas interrogações me despeço e desejo para ti boa leitura, com efeito em crônicas vindouras... No nosso primeiro encontro te devolvo os livros. Teu primo Saloca. Como síntese do livro de Santa Rosa, reproduzo o Parecer dado pela banca julgadora do IHGB, verbis

A tese apresentada pelo Dr. Henrique Américo santa rosa – História do Rio Amazonas – relata o assunto com ampla informação, estudando em primeiro lugar a Geografia física da região banhada “pelo rio por excelência, glória do nosso Planeta” – como o qualificou o eminente Elisée Réclus – para passar em seguida à história do descobrimento por Vicente Yañez Pinzon nos dias iniciais do século XVI, às empresas trágicas ou malogradas de Pizarro e Orellana, de Ursua e de Aguirre no correr do mesmo século, às aventuras dos que buscavam o El Dorado e dos que procuravam colonizar as terras, até a expedição famosa de Pedro Teixeira na primeira metade do século seguinte, às missões de catequese, às viagens de caráter comercial – e às explorações cientificas, que vêm de Humboldt, Spix e Martius, aos naturalistas e viajantes do Museu Goeldi. Quanto se pode dizer, em síntese, da exposição do Dr. Santa Rosa, é que ela desenvolve com método e erudição a história do rio Amazonas, tão interessante quanto até agora fragmentária. Sua aprovação se impõe e aplausos são devidos ao ilustrado autor. S. S. em 11 de setembro de 1922 - Gastão Ruch, presidente, Rodolfo Garcia, relator, I. Feijó Bittencourt, J. Mattoso Maia Forte
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