terça-feira, 2 de julho de 2013

Revoltas - A ponte Egito-Brasil


Todos nós estamos agora, com a bunda arriada no sofá, achando as manifestações uma reação maravilhosa e necessária. Cronistas, escritores, repórteres, artistas, blogueiros, todos – exceto Boris Cazoy – se expressam, enfim, apoiando as manifestações aqui e alhures. Mas não nos iludamos como se as manifestações fossem naturalmente saída de nós, de nossas ideias, de nosso comportamento, de nossas entranhas. Lamento dizer-lhes: nada disso é nosso, nada disso estava em nossa cabeça acomodada, nenhum passo a ser dado sequer passou pelas nossas cabeças! Estamos a reboque, somos o passado, estamos acomodados com a situação e achamos nossa democracia – advinda da ditadura – a melhor coisa do mundo.

E por quê? Porque nada mudou: saíram os militares, decretou-se o perdão de criminosos e vítimas, vieram os presidentes nem fede nem cheira, elegeu-se o Lula Marketing que por sua vez inventou a presidentA Dilma, essa história que todo mundo conhece e ficamos felizes, porque nada mudou. Não é ótimo isso? O Brasil transformou-se não no paraíso, mas no purgatório – que não é um mau lugar, porque afinal ficamos ali por um tempo carpindo nosso fel na espera do paraíso que virá, sem dúvida alguma, com o perdão para todos os nossos lucrativos crimes (porque a omissão e o amém também são crimes). Muito ao contrário do que a Cora Rónai um dia afirmou nas páginas dO Globo, mea culpa sim!

Agora, por que “ponte Egito-Brasil”? Essa é fácil – porque a gritaria geral se dá em países recém advindos da Ditadura, ambos rezando na cartilha do Tio Sam, um dos mestres mais desacreditados para ensinar alguém o que é democracia. Senão vejamos: quem acredita numa democracia que se mantém, desde que virou república, dividida nas mãos de dois partidos que são exatamente Esaú e Jacó? A ponte Egito-Brasil existe porque as nossas manifestações, iguais, estão fora de controle e se dividem, iguais, entre pacifistas e vândalos – ou como disse o governador Cabral quando os bombeiros do Rio se rebelaram: baderneiros.

Pacifistas, tranqüilizem-se, porém: os baderneiros, vândalos e anarquistas estão fazendo o que nós não temos coragem de fazer. Eles pegam em pedras e cheiram gás temperado com pimenta malagueta, eles fabricam coquetéis molotov e atiram de volta bombas de gás lacrimogêneo, levam porrada da polícia, recebem tirombaços de bala de borracha, eles quebram as vitrines dos bancos que têm lucro fabuloso a cada ano – eles fazem tudo isso que sonhamos um dia fazer, mas não fazemos por nossa mulher, por nosso filho, por nosso neto, por nosso salário... Ou por nossa covardia, escolham.

A ponte Egito-Brasil existe porque nem Mursi nem Dilma sabem o que fazer! Renunciar, dissolver o Congresso e convocar eleições seria uma saída honrosa. Mas... numa democracia? Jamais! Afinal ambos foram eleitos ‘pelo povo’, não foram? Quem acredita nesse tipo de democracia? Claro está: não os manifestantes, mas nós, os acomodados, sim acreditamos.

Quando o último prefeito deixou o cargo eu pensei: até que enfim o cachorro largou o osso. Foi-se o mais ladrão de todos os administradores. Ledo engano. Quando ouvi nas campanhas eleitorais que prefeito, governador e a presidentA iriam trabalhar juntos e tudo seria melhor para nossa cidade, me veio logo uma questão: e aquela história que todo presidente eleito diz no ato do juramento à Constituição, na hora da posse de que irá “governar para todos”? quer dizer, é tudo conversa mole pra boi dormir? Não, não era, chegaram os mais ladrões de todos, agora sob a tutela do mesmo partido. A corrupção instalou-se na República, agora de cima para baixo...

E aqui posso concluir a travessia da ponte Egito-Brasil. Ambos são governos que convivem com a corrupção e com os corruptos, numa relação tipo ela é feia, mas eu como. A corrupção tem remédio? Não, não tem. Lembremos de Judas, que entregou Jesus por 30 pratas. Mas se cortarmos as mãos ou as cabeças dos corruptos como ainda fazem alguns países selvagens (a maioria na mira das transformações primaveris, rumo à democracia pregada pelo Tio Sam), bem que poderíamos reduzir a corrupção. Não vou fazer uma co-relação entre a expressa facial de Cabral com Mursi – afinal, que expressão tem o presidente egípcio? O cara é a própria esfinge...

Então, não nos enganemos, não vamos bancar heróis agora, como muitos estão fazendo, se aproveitando da coragem do jovem brasileiro. Aquele que ficou do lado de fora dos estádios bonitos e das arquibancadas repletas de almas brancas, como ocorre nos estádios europeus. Como os estádios dos dominadores. As manifestações e as revoltas são uma reação maravilhosa e necessária, ainda mais quando vêm de forma espontânea. 

Tá certo que cronistas, escritores, repórteres, artistas, blogueiros, todos enfim, se expressem apoiando as manifestações aqui e alhures. Isso é preciso, mas nego: as manifestações não saíram de nós, de nossas ideias, do nosso comportamento, das nossas entranhas. Lamento reafirmar: nada disso é nosso, nada disso é de nossa alma acomodada, nenhum passo sequer passou pelas nossas cabeças! Estamos a reboque, somos o passado. Ajoelhados diante da situação, achamos que essa democracia é a melhor coisa do mundo. Mas não é não! Não, não é!
Postar um comentário