quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ora pois pois, Inês, por quem sois...

Inês Pedrosa – Fazes-me falta – Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2010

Depois de muita ruminação, começo a ler o livro de Inês Pedrosa, que faz tempo me olhava de soslaio (finalmente uso essa palavra que ninguém ousa incluir na fala oral; quando ousarei escrever perspicaz?) da beira da estante. Estava – o livro, claro – humilhado ao ver-me todas as manhãs pegar uma leitura em detrimento do seu direito de anterioridade: ele estava ali a acumular poeira por bem um mês.

Primeiro tenho que lamentar que esse romance já chegue aqui defasado em oito anos. É provável que no ano de 2002 Inês Pedrosa não valesse os euros que vale hoje, pois é assim que os livreiros vêem o escritor: cifrão e nada mais. Segundo, mais lamentação: depois que José Saramago, do alto do Prêmio Nobel, recusou a permitir que os seus livros fossem traduzidos para o brasileiro, parece que virou moda. Também este Fazes-me falta vem em português lusitano.

Assim é que durante toda a leitura tive de fazer pausas para repensar ou pesquisar em dicionário o que significa isso e aquilo. Parece que não faz diferença, mas faz sim. Em particular aqui neste livro de enredo muito maçante, que exige do leitor também muita paciência. É um livro pesado, lerdo, com a temática de construir o difícil e improvável diálogo entre uma falecida e seu último aluno-amante-professor-alter-ego vivo. Essa combinação de leitura e texto difícil transforma o livro num pesado fardo para o leitor comum – como eu.

Desde o título, num português incomum em nós, atravessam as páginas centenas de expressões, palavras, falas naquela língua estranha. Além do mais, um dos suportes do texto é a paixão da personagem por adágios e frases feitas: também os anexins entremeiam abundantes toda a narrativa. Embora muitos desses ditados tenham chegado até nós, sejam do nosso conhecimento, não há como evitar a consulta num e noutro caso.

Vejamos alguns exemplos:

“...o meu pequeno e velho Deus de algibeira, meu amigo.”

“– Um dia chego cá e encontro-te no meio dessa papelada, morto de cansaço, pronto a encaixotar. Olha, eu é que não te empacoto – ganhei medo a mortos.”

“Que sentido faz a morte de uma rapariga de 37 anos, catano, roída pela própria posteridade? Tinhas deixado de fumar para não morreres de cancro.”

“– És um pulha. Digas o que disseres, és um pulha. E o teu filho vai saber o pulha de pai que tem.”

“A primeira sensação que experimentei, depois de ter desmaiado de dor, foi um intenso perfume de bebé, um perfume quente e azedo de leite bolçado.”

“Deixaste a luz da casa de banho acesa, as portas do roupeiro abertas e umas calças de bombazina vermelho-escuras enrodilhadas ao lado da cama.”

“Pensavas tanto e tão bem que intercalavas sempre as citações nos sítios certos.”

“Através de ti eu existia antes de ter nascido, no vocabulário áspero e secreto de uma guerra que já não me pertenceu – moita carrasco, gatilhos olvidados, o tanas.”

“...trocávamos inibições e desaires como os miúdos trocam cromos.”

“Às vezes sacudia-te, só por aflição, imagina, uns desenrascanços de timidez que me punham as moléculas a ferver...”

“Cachopa. A falta que fazem ao mundo as tuas certezas absolutas sobre o Bem e o Mal. Certezas um bocado aldrabadas, está claro, com fendas por todos os lados.”

“Gamaste-me uns trabalhitos sobre o teu excelso mulherio – e eu gozei arabicamente a tua aflição impudica.”

“...garras coloridas e afiadas remetiam-me para costumes bárbaros, odores de bairro da lata, rituais primitivos.”

“Dei-te o braço, dirigimo-nos à dama, osculei-lhe a pata com olhos de encornador e depois recitei-lhe...”

“Desde que tu lerpaste, só consigo ver crocodilos.”

E assim segue o texto eivado dessas expressões em claro e nítido lusitanismo, nas centenas de páginas que compõem o livro. Mas não é só a palavra que na fala comum ou literária faz a diferença: também a colocação pronominal, os adjetivos substantivos e vice-versa, expressões européias contemporâneas, tudo, enfim, merece uma adaptação para o brasileiro, porque, queiram ou não, a língua portuguesa é distinta aqui, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde, em Timor. Ademais estamos na América Latina, abaixo da linha do Equador e não há como fugir disso.

Há pouco tempo a chamada comunidade lusófona, depois de gastar muito dinheiro e papel, após inúmeras viagens de turismo literário e piqueniques intelectuais, aprovou uma reforma ortográfica que teve a unanimidade de deixar a todos descontentes. É claro, nessa baboseira cheia de vaidade gastou-se tanto dinheiro – não deles, mas dos contribuintes – que havia necessidade de justificar a extravagância, apresentando um resultado. Mas toda essa movimentação, que consumiu anos e o tempo precioso de alguns chefes de estado, resultou num pífio conjunto de decisões, arremedo de reforma, em desastrosa tentativa de unificar o que estava desunido pela própria natureza das coisas. Os meios literários e intelectuais de Portugal repudiaram o trambique.

A língua portuguesa é brasileira, angolana, moçambicana, timorense, cabo-verdiana – e será para sempre. A contribuição que cada país recebe da língua materna é diferente, divergente, cada caso é um caso. Mesmo a assimilação ocorrida em países africanos – Angola e Moçambique, por exemplo, onde a contaminação provocada pelos dialetos tribais é muito forte – é distinta entre si e tem vida própria. São as incorporações havidas de maneira natural, no uso popular, depois culto, aquelas que a língua nativa assimilada recebe e adota como filhas queridas.

Durante milênios, em algum lugar da Terra, a língua nasce, cresce e morre. Os idiomas e dialetos contemporâneos que ganharam a batalha da sobrevivência estão aí porque conseguiram se adaptar e permanecem em constante mutação. Um só elemento tem importância vital para sua sobrevivência – o povo – que a conserva na fala cotidiana, através das tradições, repassando no ensino comunitário.

Quanto ao livro em si, bem, superada a primeira dificuldade (a leitura em língua “estrangeira”), Fazes-me falta, ainda assim, é um livro pesado, morrinhento, que não se lê: se rumina. Como, aliás, não poderia deixar de ser, devido à temática. Além do mais teve o desplante de tentar incorporar nos meus escritos alguns vícios, gerúndios escabrosos, etc. e tal. Mas é leitura que tomo por obrigação, para manter em dia o conhecimento da literatura lusitana. No entanto, tenho notado que os livros portugueses, justo esses que não são adaptados ao brasileiro, em geral se tornam odiosos, tal e qual o velho Luís de Camões o era para os alunos do século passado.

Preocupa também o fato desse livro ter sido recomendado às professoras e professores municipais do Rio de Janeiro, como parte do programa Rio, uma cidade de leitores. O que se espera como resultado dessa indicação? O que esse livro acrescentará ao professor, que o comentará ao aluno de classe primária? Sinceramente nada vejo de positivo nisso. É apenas mais um subsídio ao editor, dos milhares que os governos dão como benesse a um fabricante de produtos caros e nem sempre confiáveis.

Os governos federal, estadual e municipal eximiram as editoras de todo e qualquer ônus na produção e comercialização de seu produto (aí entram o maquinário, a matéria-prima, tinta papel, etc.) – o livro – baseado nas contas de uma redução de preço, que até agora não ocorreu. Quando o valor do livro brasileiro será reduzido na mesma proporção da benesse governamental?

Pois acredite caro leitor, falando-se de escritores brasileiros publicados em Portugal, a recíproca não é verdadeira. Muitos escritores brasileiros foram publicados em Portugal, desde o romantismo. Mais recentemente, em pleno Século XX, obtiveram êxito em Portugal os livros de Érico Veríssimo, Jorge Amado e Rachel de Queirós, entre tantos outros escritores. Todos os livros foram vertidos para o lusitano! Não houve como contemporizar, não houve como atender algum pedido de escritor brasileiro – até mesmo porque eles não o faziam, em respeito à língua portuguesa – como fez aqui José Saramago, exigindo a manutenção do texto original, como condição sine qua non para que seus livros fossem publicados no Brasil.

E na mesma onda que veio Inês Pedrosa, virão outros mais. Os editores brasileiros adoraram a exigência, porque assim economizam o salário de mais um profissional, economizam também na produção, porque usam o mesmo material e os originais utilizados em Portugal. No entanto, trata-se de um erro mercadológico: muitos leitores brasileiros deixam de comprar o livro ao sabê-lo publicado em lusitano. Eu não compro! E todos nós estamos cheios de razão: ler um livro em lusitano é um pé no saco!

Voltando ao livro Fazes-me falta, conto, pois, que estava lá pela metade do romance quando minha irmã me emprestou A soma dos dias, mais um livro de memórias de Isabel Allende. Na primeira folheada gostei, pois se trata de outra escritura, fluente, calma como ovelhas apascentadas. Isabel Allende, aliás, é escritora que se descortinou de imediato ao impor em sua ficção a pseudo memória. Agora que esta memória se torna cada vez mais de cunho pessoal, é leitura cheia de promessas. Mas isso é tema para outra história...
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