sexta-feira, 17 de junho de 2011

Hermann Hesse - A alegria de viver...


Hermann Hesse – Pequenas Alegrias – Tradução e orelha de Lya Luft – Ed. Civilização Brasileira

Talvez em nenhum livro, como neste Pequenas Alegrias, se possa observar, acompanhar e compreender tão bem a evolução do espírito desse escritor, considerado nos meios literários alemães como o maior estilista do idioma depois de Goethe.

Começando com reflexões de juventude, aos 22 anos, argumentando sobre a arte de viver em tempos modernos, de apreciar os pequenos prazeres da vida, o livro termina com melancólicas considerações do homem idoso e solitário de 83 anos. Mas o ancião ainda não perdera o senso de beleza: mais do que uma posição estética, é uma profunda filosofia de vida.

Suas descrições entusiásticas das paisagens suíças, que tanto amou, revelam o seu fervor juvenil. Mais tarde, essas descrições se tornarão mais sóbrias, ainda belas, mas com o vigoroso peso da melancolia. A capacidade de descrever que Hesse coloca, tanto na paisagem imponente, como em tênue asa da borboleta, não se contenta, com a mera fruição das cores e formas: indica sempre para além, para as relações da alma com a Natureza e o Mundo – que para Hesse está simbolizada nas coisas objetos.

Um filósofo do belo e do vital, apologista da simplicidade franciscana, do franciscano respeito pela coisa viva, Hermann Hesse – inspirador de várias correntes do pensamento jovem – hoje procura um retorno ao natural, ao que é autêntico, ao singelo e puro, numa sociedade ameaçada pela tortura, pela máquina, pela tecnologia, às quais ele se opôs em seus escritos, na vida, com a força da alma, do coração e da mente.

Roteiro de leitura para seus leitores de jornal, reflexões sobre a cultura oriental e ocidental, as semelhanças e diferenças, comentários sobre autores como André Gide, Franz Kafka, argutas considerações sobre Romantismo e Classicismo, lembranças de infância e juventude... Nada disso, contudo, é gratuito, eventual, casual, tudo gira em torno do eixo fundamental de sua personalidade, filosofia e arte – a valorização da vida, enquanto somos espreitados pela morte. 

A mudança para Montagnola (ou talvez devido ao violento ataque da paisagem dos Alpes), despertou nele o pleno gozo da liberdade intelectual. Foi nesse momento que Hermann Hesse resolveu se dedicar ao que seria a segunda paixão: a pintura. Além do óleo sobre tela, ele optou por dedicar-se à aquarela, vez por outra ao desenho. Hoje o Museu Hermann Hesse possui uma bela e original coleção dessas obras da arte reflexiva. Esse choque de cunho emotivo, que ele sofreu do ambiente natural, trouxe também a paz interior, tão necessária ao seu trabalho e estendeu sua influência ao texto do escritor.

Nesta coleção de artigos, de crônicas e outros escritos diversos, muitas vezes o leitor se depara, entremeados ao tema principal, excertos descritivos do ambiente, pedaços recortados da paisagem, absorvidos exatamente nos locais aonde Hermann Hesse descortina o tema que vai inspirar os desenhos, as pinturas, as aquarelas. Como não poderia deixar de ser, ao chegar à sua casa e sentar na escrivaninha, ocorre o oposto: agora cabe ao observador descrever nas palavras, frases e letras todas as cores, todas as emoções que captou na natureza e exprimiu em cores e matizes. É nesse exato momento quando o que está gravado na tela interfere na escrita.  

Também é notável constatar como o escritor se rende ao pintor no embate que trava com as cores. A mesma batalha árdua que a palavra trava com o escritor, desta vez fere o artista, seja na tentativa – muitas vezes alcançada, poucas vezes frustrada – de criar na palheta a exata confirmação do que a natureza oferece a seu olhar. A luta se estende na busca do matiz exato, na pesquisa da tessitura, no contraste entre a natureza e a imitação. É natural que obstáculos surjam outras vezes ao artista, por exemplo, quando tenta reproduzir uma profundidade cromática da paisagem que à vista se expande, recriando a perspectiva exata do espaço que o cerca.

Às vezes o pintor Hesse se rende à impossibilidade, abatido ele recolhe os trastes, limpa a palheta, frustrado, dando voz e reconhecimento à limitação humana. Houve, sim, o combate entre o homem, a arte e a natureza. Ambos travaram um esforço no rumo do diálogo e do entendimento. Todos buscaram o eldorado da perfeita harmonia que a vida tanto exige. No espaço circundante as cores se mostraram belas, o olhar captou o que a mágica natureza lhe ofereceu, o que seria um convite, o desafio para o registro, para a fixação daquele tempo, que em breve se desmancharia no espaço, mudaria na percepção. Houve a preparação intelectual do artista, consciente de sua qualidade, eficiente em sua fé comprometida, mas havia um degrau no caminho.

Quando algo assim intransponível surge no ato da criação, sobrevém uma luta interior e solitária e devastadora. Muitos artistas perecem nessa travessia, por isso é necessário ser capaz de prostrar-se ante o inevitável e ter uma humildade religiosa para reconhecer as limitações do humano. Ao longo de toda a sua vida Hermann Hesse se viu diante desse obstáculo que é invisível ao olhar comum. Mais do que muitos de seus contemporâneos, talentosos, instigantes, raçudos, foi ele quem conseguiu, com dignidade, superar essas dificuldades, caminhando com altivez rumo ao bom senso. Uma grande quantidade de escritores desse século miraculoso para a arte se rendeu, ajoelhou-se, subjugado ante a inoperância do mundo em compreendê-lo e a sua capacidade de ser compreendido. Por outro lado, foi também Hermann Hess quem conseguiu arregimentar numa  só voz, o sentimento, a palavra, o pensamento – tudo o que pudesse dar suporte às suas idéias – em busca de soluções de harmonia e paz para todos nós.

“Pátria é algo que não existe. Mes­mo em casa, entre os seus, o senhor muitas vezes voltará a ter essa sensação de estar desenraizado, que conheceu aqui. A pá­tria dum homem é sempre onde ele trabalha e realiza coisas importantes, sem isso não se sente bem em nenhum lugar. É onde realiza algo de bom, o faz por amor mesmo se pensa que está trabalhando pela família ou pela nação, tudo isso são ilusões. O que fazemos, fazemos pelas pessoas, e nossa recom­pensa está no fato de que muitas vezes o trabalho nos dá pra­zer. Nós, nós homens que realizamos algo, somos todos cole­gas e irmãos, no mundo inteiro. Se, como espero, o senhor for um bom escritor, seus irmãos são todos aqueles que em algum lugar, em algum tempo, trabalharam no mesmo ofício, na espiritualização do homem, ou como quer que o chame. Enquanto o senhor participar dessa comunidade, terá uma pá­tria. Mas se sair dessa comunidade, será um exilado ainda que presida o parlamento do seu país.” (Memórias de uma viagem)

Após a morte de Hermann Hesse os responsáveis pelo seu espólio tiveram o cuidado de conservar todos os seus papéis com o mesmo carinho com que as crianças protegem as pequenas sementeiras que trazem da escola. Após uma catalogação cuidadosa, descobriram escritos inéditos junto daqueles que tinham sido publicados em jornais e revistas literárias. Essa colaboração esparsa é comum a todos os escritores, que sabem da sua curta existência, medida por uma leitura cotidiana que logo passa para o esquecimento. Trata-se de crônicas, artigos, pequenos ensaios, textos curtos, discursos e conferências.

Esse tipo de trabalho literário se distingue de quase tudo porque ao escrevê-lo o autor não tem a mesma preocupação estética, técnica e ética que trazem o romance, a novela, o conto. E nele se trata de tudo, inclusive do amor...

“Logo, feliz é aquele que sabe amar muito. Mas amar e desejar não são a mesma coisa. O amor é desejo tornado sábio; o amor não quer possuir; quer apenas amar. Por isso foi feliz o filósofo que embalou seu amor pelo mundo numa rede de pensamentos, e que constantemente envol­veu o mundo na rede do seu amor. Mas eu não era um filósofo. E nos caminhos da moral ou da virtude eu também não podia ser feliz. Sabia que só pode nos fazer felizes a virtude que sinto em mim mesmo, que eu próprio descubro e cultivo – como então poderia querer apossar-me de alguma virtude alheia? Mas reconheci que o mandamento do amor, não im­porta se foi dado por Jesus ou por Goethe, é inteiramente igno­rado pelo mundo. E nem ao menos foi um mandamento. Nem há mandamentos. Mandamentos são verdades que aquele que as reconheceu transmite ao que não as percebeu ainda. Man­damentos são verdades erroneamente concebidas. O fundo de toda a sabedoria é: a felicidade só vem pelo amor. Se eu digo "ama ao próximo!" Isso já é um ensinamento falseado. Talvez fosse muito melhor dizer: "Ama a ti mesmo como ao teu pró­ximo." Talvez o erro original tenha sido exatamente querermos começar com o próximo...

“De qualquer maneira: o mais íntimo de nós deseja a felici­dade, deseja uma união benfazeja com tudo o que está fora de nós. Essa harmonia é perturbada quando nosso relaciona-mento com qualquer coisa é algo diferente do amor. Não há um dever do amor, há apenas um dever de ser feliz. Só para isso é que estamos no mundo. E com todos os deveres e moral  e mandamentos, raramente nos fazemos felizes uns aos outros, porque não nos fazemos felizes a nós mesmos. Quando o ho­mem consegue ser "bom", só pode fazer isso porque é feliz, porque tem harmonia dentro de si. Logo, quando ama. E a desgraça no mundo, e a infelicidade em mim mesmo, provinha de que o amor estava perturbado. Desse ponto de vista de repente as frases do Novo Testamento se me tornaram verdadeiras, e profundas. "Se não vos tornardes como as crian­ças", ou "O reino dos céus está dentro de vós". Esse era o ensinamento, o único ensinamento no mundo. Isso disse Jesus, e disse Buda, e disse Hegel, cada um na sua teologia. Para cada um deles, o mais importante na vida é o seu próprio interior, a sua alma, a sua capacidade de amar. Se isso está em ordem, ele pode comer painço ou bolos, usar trapos ou jóias, mas se o mundo está em harmonia pura com a alma, tudo está bem, tudo está em ordem.” (Do diário de Martim)

Esse escrevinhar livre, sem as amarras conceituais, dá ao texto a exata leveza, que até mesmo as descrições trágicas se tornam amenas e pesam menos na consciência do leitor. Não é sem motivo, pois, que os editores escolheram para título do livro, um texto quase inaugural da obra de Hermann Hesse: a crônica “As pequenas alegrias”, que se encerra com as seguintes palavras:

“Cada dia experimentar tanto quanto possível de pequenas alegrias e distribuir os prazeres mais extenuantes, maiores, parcimoniosamente pelos dias de feriado e pelas horas livres, é o que eu gostaria de aconselhar a qualquer pessoa que sofre de falta de tempo e de algum desgosto. Para nos recuperarmos de qualquer coisa, especialmente para alívio diário, foram-nos dadas as pequenas alegrias e não as grandes”.

Para nós leitores, a publicação desse farto material de autoria de Hermann Hesse, cada página, cada descrição do tempo, cada frase, cada relato, cada  fato e as coisas aparentemente sem relevância, como os pequenos presentes, as muitas lembranças, a correspondência, sim, é uma ruma de pequenas alegrias, que nos faz suspirar ou tremer, quando atacados pela emoção.

“Por fim voltei-me com prazer a um an­tigo livro, Anos de Peregrinação pela Itália, de Gregorovius, que a editora Jess, em Dresden, reeditou em formato manuseá­vel, e no qual procurei de novo meus trechos prediletos. Não inteiramente livre dum certo espírito professoral, essa grande obra é ainda assim uma obra-prima de erudição e arte descri­tiva, no período florescente da ciência alemã.

“Entrementes, livros desempenham um papel pequeno na mi­nha vida agora. É mais importante saber se o sol brilha de manhã, se o estado das minhas pernas me permite um mais extenso passeio na floresta, se a bela e jovem senhora do pri­meiro andar aparece ou não para o jantar. Mais importante e o rumor das murchas folhas de plátanos na vereda do rio, e a sensação de respeito diante dessas imensas árvores, debaixo das quais já há muitos dias se varrem em montes enormes as folhas caídas, enquanto lá em cima as copas ainda estão densas e ver­des ao vento, lançando sombras redondas e compactas. Impor­tante é a triste visão dos canteiros de flor, mortos depois da primeira geada prematura, o brinquedo dos esquilos nos tron­cos das faias no mato, e o reencontro com alguns hóspedes an­tigos da estação de banhos, que já encontrei duas ou três vezes aqui em outras estadias. Alguns eu conheço e falo com eles, outros conheço apenas de vista, e também eles têm muito a me dizer, especialmente uma estranha, ainda jovem, que é trazida nas horas das refeições numa cadeira, geralmente deitada, doen­te e paralisada, mas às vezes ouço-a rir tão alegremente, com sua enfermeira, que sinto estar aprendendo coisas importantes. Importantes são também os sonhos que me visitam à noite, dos quais pouco resta pela manhã. Mas sempre fica em mim, res­soando deles, a lembrança dum sublime, escuro reino das nos­sas almas; onde se realizam, despercebidos e ignorados, mila­gres muito mais ousados e luminosos do que no terreno da nos­sa razão ou dos instintos.”

Hermann Hesse também pintava e desenhava e talvez por essa razão escolhesse o pequeno povoado de Montagnola, na Suíça, para passar o resto da sua vida. Tendo a pintura como segunda opção artística, é natural que nos textos o escritor se visse tomado de emoção ao caminhar por entre a paisagem alpina.

“Neste ano o alto-verão não parece ter um fim tão selvagem e dramático (embora seja possível). Parece dessa vez que­rer morrer lentamente, na suave morte da velhice. Nada é tão característico nesses dias, em nenhum outro sinal percebo essa espécie infinitamente bela de fim de verão, como ao voltar para casa depois dum passeio ou duma refeição da tarde no cam­po: pão, queijo e vinho numa clareira de mato cheia de sombras. O singular nesses fins de tarde é a diluição do calor, o silencioso e lento aumentar do frio, o sereno da noite e a quie­ta e infinitamente maleável dissolução do verão. Essa luta se faz sentir em milhares de ondas sutis, quando depois do pôr-do-sol se passeia por duas ou três horas ainda. Em todos os pon­tos mais densos da mata, em cada arbusto, em cada desfila­deiro, ainda está agachado o calor do dia, prende-se à vida por toda a noite, obstinado, procura os despenhadeiros e lugares protegidos do vento. No lado noturno das colinas a essa hora as matas estão cheias de concentrações de calor, roídas por todos os lados pelo frio noturno, e cada depressão do terreno, cada leito de regato, cada ponto mais denso de árvores, manifesta ao observador atento com absoluta nitidez essa gradação decres­cente do calor. Bem como o esquiador ao passar por uma pai­sagem de montanha percebe pelos sentidos nos joelhos flexí­veis toda a formação do terreno, depressões e montículos, toda a estrutura das montanhas, de modo que, treinado, pode ler a paisagem pela sensação nos joelhos, assim eu leio ali, na mais profunda escuridão da noite sem lua, os traços da paisagem por essas suaves ondas de calor. Entro numa floresta, depois de três passos sinto essa torrente de calor que aumenta depressa como um forno ardente, percebo que esse calor cresce e diminui; cada leito vazio de regato, que há muito não tem mais água, mas conservou na terra um resto de umidade, anuncia-se por uma irradiação de frescor. A cada estação do ano as temperaturas de diversos pontos dum terreno são diferentes, mas só nesses dias de transição do alto verão para o começo do outono a gen­te os percebe com tanta nitidez. Como no inverno o vermelho rosado das montanhas calvas, como na primavera a exu­berante umidade de ar e plantas se desenvolvendo, como no início do verão os bandos noturnos dos vagalumes, assim faz parte do fim cio verão essa mudança noturna e singular através das alternadas ondas de calor, como uma das experiências mais sensuais, com o mais intenso efeito sobre o espírito e o sentimento de vida.”

Com o tempo Hermann Hesse vai se tornando um natural de Montagnola, lugar que escolheu como residência definitiva. Seguia sem dúvida o jargão filosófico que botou na boca de um personagem (que está como citação no início deste texto). Tua pátria é o lugar que te acolhe. E a cada dia se torna mais íntimo da natureza do lugar. Na verdade é o escritor que quer se transformar em mato, em natureza e se incorporar à atmosfera que perpassa pelas montanhas. Ali é a sua estância onde acordará, onde adoecerá, onde encontrará a cura para todos os males.

“Lentos passam os dias quando se está doente e sozinho. Como sempre, no outono deixei minha casa no campo e ocupei meu pequeno apartamento de inverno na cidade, um silencioso quarto de solteirão no meio da cidade, mas tranqüilo, com a vista sobre velhas árvores, um canal de águas verdes e quie­tas, uma pontezinha e um jardim em cujos pequenos gramados as roseiras cobertas de ramos de pinheiro pareciam diminutos ciprestes. É uma paisagem singularmente bela para uma casa da cidade – a vida toda morei em lugares extraordinariamente belos –  mas essa visão não me bastava para as doze horas do dia. Um canal não é o mar, roseiras são mais bonitas quando têm folhas e da sua flexível ramagem estival brotam os botões firmes, e as rosas de delicado aroma pendem macias e soltas. Por vezes alguém me visita, mas não todos os dias. Às vezes esqueço o tempo cultivando alguma lembrança ou fazendo ver­sos, e durante algumas horas me entretenho no além, no atem­poral. Mas sempre acabo voltando para este lado, para o tem­po, a cidade, o quartinho, o inverno, a doença e a solidão. Contudo, há coisas que consolam. Além de alguns livros que tenho quase sempre na cama ou no peitoril da janela (Jean Paul, um volume de Goethe, um de Heródoto ou Plutarco, uma parte da Bíblia), há também alguns novos por ali, que contem­plo vez por outra, com os quais procuro estabelecer amizade. Às vezes consigo isso e o livro vai para a minha biblioteca, e também mais tarde será tomado nas mãos algumas vezes. Po­rém, mais freqüentemente não consigo, então o livro some de novo, eu o dou de presente, esqueço-o depressa. Milhares de livros foram assim lidos e esquecidos na minha vida. Se não fosse o esquecimento, a mais necessária das nossas capacidades, minha cabeça pareceria uma livraria; mas não é assim, pois estou treinado em esquecer.” (Entardecer tranqüilo)

Hermann Hesse era escritor e monge. Monge com os pés no chão e a mente colocada no mais alto lugar que pudesse alcançar. No entanto as guerras que enfrentou, sem que deixasse abalar a sua fé na humanidade, o tornou cético a muitas belezas escondidas, aparentes. Para ele, a beleza se encontra em seu estado natural, mas de vez em quando se encarna no rosto de uma bela mulher. O homem namora a realidade e a mentira, a verdade das cores, das luzes, dos céus e a mentira dos sons, das sensações, do discurso enganoso... Eis o mistério que ele conta transpor para sua pintura:

“E eu luto com as ervas, esboços sombras nos troncos, ale­gro-me com os grossos troncos retorcidos, e com o secreto portãozinho de lenda, que entre dois postes de pedra leva ao reino dos duendes no interior da montanha. Reproduzir a profun­da escuridão dessa garganta com meu lápis na folha branca era a minha maior diversão. E quando ergui os olhos dos meus rabiscos, assustei-me, pois subitamente o quadro todo mudara: o portão de sarrafos estava aberto, a luz duma vela brilhava quente e singular na trevosa profundidade da caverna, alguém soprou a luz, e da garganta de pedra saiu um homem grande e magro. Eu não sabia a quem pertencia aquele velho portão nas rochas, que já desenhara várias vezes. E agora fiquei sabendo: era o velho "tio Mário", de Montagnola, que vinha subindo das profunde­zas da terra – e ainda antes que ele fechasse o portãozinho atrás de si, viu e reconheceu-me, pôs o dedo no chapéu de feltro e me saudou com a cordialidade que ainda faz do rela­cionamento de vizinhos idosos no Tessin uma cerimônia amá­vel e estimulante. Seu rosto moreno e ossudo sorria cordial-mente, e me indagou cortesmente pelo meu trabalho, mas sem se aproximar ou espiar minha folha. Essa maneira discreta, natural numa geração atrás, em todos os países românicos, e hoje ainda encontradiça não raro entre franceses, sobrevive aqui entre os mais velhos, e faz parte daquelas coisas que tor­nam a vida no sul mais fácil e alegre. Se depois da nossa bre­ve saudação eu me tivesse novamente curvado sobre meu papel, continuando a desenhar, ele não teria dito mais nenhuma pala­vra, respeitando meu trabalho. Mas levantei-me, dirigi-me até ele dei-lhe a mão, perguntei pelas uvas, pelas cabras, e sabia muito bem que, tão perto da sua adega, me convidaria para um copo de vinho, o que realmente fez com a maior cordialidade. Agradeci e expliquei-lhe que não podia tomar vinho pela manhã ou durante o trabalho, mas que gostaria muito de dar uma olhada na sua adega. Descemos pelos degraus arredondados pelo muito uso, o portão e a garganta escura abriram-se diante de mim, o velho estendeu a mão nas trevas e num passe de mágica arranjou um fósforo, acendeu a vela e com orgulho me mostrou a adega abobadada, bem construída, com vários nichos laterais semelhantes a pequenas capelas. O corredor principal entrava uns trinta metros pela montanha adentro, suas paredes eram impecáveis, mais atrás cessava o trabalho do homem e o corredor perdia-se em areia e cascalho nas profundezas. Elogiei as paredes bem construídas, e o frescor do ambiente, e como não aceitasse seu repetido convite para tomar vinho, regressamos lentamente à luz da pequena vela e saímos do fundo da terra de volta à dourada e quente luz da manhã. E ficamos mais algum tempo ali parados conversando.” (Meu vizinho Mário)

Honra e glória, pois, ao escritor, ao pintor, ao humanista Hermann Hesse!

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