quarta-feira, 30 de março de 2011

Chico Buarque: Atribulações de um romancista

 

Chico Buarque – Leite derramado – Editora Schwarcz Ltda. – São Paulo, 2009

 “Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele desfia, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos. A saga familiar marcada pela decadência é um gênero consagrado no romance ocidental moderno. A primeira originalidade deste livro, com relação ao gênero, é sua brevidade. As sagas familiares são geralmente espraiadas em vários volumes; aqui, ela se concentra em duzentas páginas. Outra originalidade é sua estrutura narrativa. A ordem lógica e cronológica habitual do gênero é embaralhada, por se tratar de uma memória desfalecente, repetitiva mas contraditória, obsessiva mas esburacada. O texto é construído de maneira primorosa, no plano narrativo como no plano do estilo. A fala desarticulada do ancião, ao mesmo tempo que preenche uma função de verossimilhança, cria dúvidas e suspenses que prendem o leitor. O discurso da personagem parece espontâneo, mas o escritor domina com mão firme as associações livres, as falsidades e os não-ditos, de modo que o leitor vai reconstruindo os acontecimentos e pode ler nas entrelinhas, partilhando a ironia do autor, verdades que a personagem não consegue enfrentar. Em suas leves variantes, as lembranças obsessivas revelam sutilezas ideológicas e psíquicas. Tudo, neste texto, é conciso e preciso. Nenhum elemento é supérfluo. Percorre todo o relato, como um baixo contínuo, a paixão mal vivida e mal compreendida do narrador por uma mulher. Os traços e gestos de Matilde, ao mesmo tempo que determinam a paixão do marido, ocasionam a infelicidade de ambos. Embora vista de forma indireta e em breves flashes, Matilde se torna, também para o leitor, inesquecível. Outras figuras, fixadas a partir de mínimos traços, também se sustentam como personagens consistentes. É espantoso como tantas personagens conseguem vida própria em tão pouco espaço textual. Leite derramado é obra de um escritor em plena posse de seu talento e de sua linguagem.” (Leyla Perrone-Moisés)

Essa é a Orelha do livro de Chico Buarque citado acima. Quando a li da primeira vez, ao correr do texto, adveio-me o espanto. Melhor dizendo: o susto. Depois reli outras vez e mais outra e a cada vez o mesmo demônio respirava a meu lado, impedindo-me, inclusive, de iniciar a leitura do livro. Fiquei entre estarrecido e emparedado. Mas qual a razão de tanto assombro?

Já faz algum tempo que a formação estética do romance contemporâneo brasileiro mexe com meus nervos. Sinto que existe alguma coisa de enganadora, não no texto em si, mas, principalmente, na feitura gráfica, que é o que encerra e dá realmente o ponto final na obra do escritor. No caso dessa Orelha – que refaz a obra num resumo – há muitas coisas estranhas a considerar. Desfiemo-las, pois, na sua própria desordem...

Relembrando: “A primeira originalidade deste livro, com relação ao gênero, é sua brevidade. As sagas familiares são geralmente espraiadas em vários volumes; aqui, ela se concentra em duzentas páginas.”

Aliás, duzentas não. O livro conta 195 páginas, mas como a numeração de cada capítulo ocupa uma página inteira – são 23 capítulos – temos, enxutas, 172 páginas de texto, no qual se pretende contar “a história de [uma] linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual”. Garotão, aliás, cuja trajetória final pode ocupar as 172 páginas de outro romancezinho, quem sabe, lá pra frente.

Aqui também tudo me espanta, porque não sei a quantas se anda ensinando literatura nas universidades. Para mim, que só aprendi até o científico, a literatura ficcional em prosa era representada – principalmente – por três gêneros: conto, novela e romance.

Afinal, não era o conto a estória curta? A novela não é algo assim como um gênero intermediário entre o conto e o romance? E o romance não é um gênero em que a ação dramática forma uma saga?

É claro que todas as determinantes ficam submetidas à uma ordem estética, que é superior. Mas é claro que me enganei! Apesar de todas essas definições ainda constarem em currículos, apostilas e teses espalhadas pela internet, vejo que também a definição ultramoderna dos gêneros literários anda se modificando.

Vejamos o que diz o professor Manuel Pereira da Silva, catedrático pela Universidade de Coimbra e mestrado pela USP, ambos em Literatura Comparada:

“A primeira coisa que devemos tirar da cabeça é a história de que a diferença entre esses três gêneros é o tamanho: o conto é curto, a novela é média e o romance é longo. Nada disso é verdadeiro. Existem novelas maiores que romances e contos maiores que novelas.”

E existem romances menores do que contos?... Mas existe, sim, sem dúvida! Agora, pronto! Eis-me de novo em dia com a estética literária. E também me lembrei que realmente outro dia li um conto de 600 páginas. Sim senhor! Foi o livro “Os catadores de conchas” do escritor britânico Rosamunde Pilcher, história que caberia num conto. O resto das 500 páginas além do que seria um conto é recheio, moldura, enfeite, jardim, flores, plantas, paisagem, memória, dramazinhos localizados, tudo, enfim, que não cabe num conto. A história em si é pequetitinha, pequetitinha. Mas é romance...

Donde se deduz que também romance é, não só aquilo que chamamos de romance, mas aquilo que escrevemos como um romance. Brincadeiras à parte, continuemos, curiosos, degustando e apreciando as definições do ilustre professor a respeito dos gêneros literários.

O que é Conto?

“O Conto contém apenas um único drama, um só conflito chamado de "célula dramática". Uma célula dramática contém uma só ação, uma só história. Um conto é um relâmpago na vida dos personagens. O espaço da ação é restrito. A ação não muda de lugar. O objetivo do conto é proporcionar uma impressão única no leitor.”

O que é Novela?

“Uma novela nada mais é que uma sucessão de células dramáticas, como se fossem arrumadas em uma linha reta infinita. Diante dessa estrutura é possível acrescentar mais uma célula dramática, mesmo depois de terminada a novela.” (*)

(*) Não me perguntem COMO isso é possível, posto que a Novela está terminada.

O que é Romance?

“Com esse conceito, podemos compreender a diferença entre Novela e Romance. A diferença está na forma como as células são dispostas. No Romance elas estão concatenadas formando um círculo, uma estrutura fechada. Uma sucessão lógica com um encerramento definitivo. Seria impossível acrescentar mais uma célula dramática, depois de terminado um romance.” (*)

(*) Então, durante todo esse tempo, nós, os leitores, fomos enganados com as sucessivas “continuações” de romances célebres, como o famoso “E o vento levou”, de Margaret Mitchell, continuado por Donald McCraig, com "Rhett Butler's People" e por Alexandra Ripley, com “Scarlett”. Na parte nacional temos as várias intervenções feitas na obra de Machado de Assis por escritores brasileiros.

Baseado nessa informação moderníssima nós ficamos sem saber o que é o livro de Chico Buarque “Leite derramado”, simplesmente porque ele se enquadra nos três gêneros citados pelo emérito educador:

É conto, porque é uma obra de uma só “célula” dramática, contém apenas um único drama, um só conflito. O espaço da ação é restrito. A ação não muda de lugar...

É novela, porque, antes de terminá-lo, o autor achou por bem violar a regra e, nas entrelinhas, sem que ninguém percebesse (mas com clara advertência da autora da orelha), achou por bem introduzir uma sucessão de novas células.

É romance, não só porque na ficha técnica está escrito “Romance brasileiro”, mas também porque “as células estão (...) concatenadas, formando um círculo. Uma estrutura fechada. Uma sucessão lógica com um encerramento definitivo.” Bem, o encerramento não está assim tão definitivo porque já dei a dica pro Chico Buarque contar a saga do último membro da família, o garotão que vive em Copacabana cheirando cocaína adoidado.

Agora, dando um salto para frente, submeto a parte da verossimilhança, que parece parte da estética do romance, a um juízo de dúvidas. Primeiro porque a construção da saga de duzentos anos não se concretizou. Não foi contada uma história, “uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos.”

Apesar de todo talento do escritor, trata-se de uma impossibilidade prática e técnica narrar uma saga sem: 1) concatenação, 2) cronologia e 3) verossimilhança. Ademais há de se considerar aquilo que, na narrativa, parece inconcebível: que “um homem muito velho” – e por isso já com a “memória desfalecente” – possa desfiar num monólogo de cento e tantas páginas “a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual.”

Chico Buarque não foi o primeiro nem será o último autor a cair nessa esparrela. Temos romances de escritores famosos em que a narrativa memorial se perde em centenas de páginas, como se o dom do pensamento se expandisse em neurônios tantos e tais numa cronologia sem fim e a perder de vista. Outros já cometeram narrativas em forma de carta que entre o Prezado Senhor e o Atenciosamente se recheiam centenas de páginas com minudências tantas que só mesmo o leitor não se dá conta que se trata de uma missiva apenas no nome... Mas, afinal, o que seria do artista e da obra de arte se a sua criatividade e a sua alma ficassem restritas a conceitos tão belos quanto idiotas?,

Ora, dirão que falei, falei, falei, mas não dei minha opinião sobre o romance (vá lá!) de Chico Buarque. É verdade. Apesar de criticar o que leio, não sou propriamente um Crítico Literário. Além do mais, Chico Buarque não carece de crítica literária: como Paulo Coelho, ele tem uma plêiade de admiradores que compra e deglute qualquer coisa que ele expila pelos sete orifícios tântricos. Para vender o seu trabalho, musical ou literário, Chico Buarque não precisa de adjutório e charlatanice de críticos engrolados que sobrevivem puxando saco de editores e autores. Como não precisa, não dá, portanto, a mínima se gostei ou não gostei.

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