quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


William Styron - Uma manhã em Tidewater (A Tidewater morning) - Rocco – Rio de Janeiro – 1997 - Trad. Julio Bandeira

É o próprio William Styron quem explica ao leitor a natureza dessa reunião de três novelas:

“Cada um destes relatos espelha a experiência do autor aos vinte, dez e treze anos de idade. As novelas compreendem uma reconstrução imaginativa de eventos reais e estão ligadas por uma cadeia de lembranças.

São reminiscências de um único lugar: Tidewater, na Virginia dos anos 30. Era uma região ocupada com os preparativos para a guerra. Não se tratava da lendária Velha Virginia, pacata, mas parte do movimentado Novo Sul, onde a indústria e a presença de militares começavam a transgredir os limites do jeito bucólico de viver.

Por ironia, tal intromissão, sem dúvida, ajudou muitas pessoas, brancas e negras, a sobreviverem aos piores momentos da Grande Depressão”.

São três novelas: “Dia L”, “Shadrach” e “Uma manhã em Tidewater”, que dá título ao volume. O mais impressionante desses relatos é sem dúvida o que retrata a figura de “Shadrach”. Vamos mergulhar na experiência desse estranho personagem...

Como se viu no prefácio, é em “Shadrach” que William Styron relata a estranha e inesquecível experiência que sobreviveu em sua memória de dez anos de idade:

“Meu décimo verão na Terra, no ano de 1935, jamais deixará meus pensamentos, por causa de Shadrach e da maneira como iluminou e escureceu minha vida, então, e desde então. Ele apareceu como se saísse de lugar algum, chegando no meio da tarde do vilarejo onde cresci em Tidewater, Virgínia. Ele era uma aparição negra de uma antiguidade extraordinária, débil e paralítico, desdentado e sorridente, uma caricatura de uma caricatura numa época em que todo negro ancestral, rangente, posto de lado, era (aos olhos da sociedade, não apenas para os olhos de um pequeno garoto branco sulista) uma mistura de Stepin Fetchit e Uncle Remus.”

[Stepin Fetchit (1902-1985) – Ator negro, de controversa atuação, mas talentoso, cujo sucesso o fez milionário.
Uncle Remus – Um dos muitos “Tios” negros que permeiam o folclore norte-americano. Uncle Remus ganhou vida em mãos de Joel Chandler Harris (1848-1908), criador de histórias que o fizeram famoso. Entre nós, porém, o “Tio” mais conhecido é Uncle Thomas, o Pai Tomás do romance e filme “A cabana do Pai Tomás”).

“Naquele dia, quando pareceu materializar-se diante de nós, quase como se houvesse surgido do nada, nós jogávamos bola de gude. (...) Assim, entre outras coisas, minha lembrança de Shadrach está presa à sensação de cristal lapidado das bolas de gude e o cheiro da terra fria e nua debaixo de um plátano, num dia quente, abrasante (...).”

“Shadrach apareceu então. Nós percebemos de alguma maneira sua presença, olhamos para cima e o vimos ali. Não o tínhamos ouvido se aproximar, chegara silenciosa e portentosamente como se tivesse descido em algum aparato celestial operado por mãos invisíveis. Era estarrecedoramente preto. Nunca vira um negro com esse matiz impenetrável: era uma negritude de tamanha intensidade que não refletia qualquer luz, conseguindo uma obliteração virtual dos traços faciais e adquirindo uma nuance misteriosa que tinha o cinza azulado das cinzas. Debruçado no pedaço de uma porta, estava sorrindo para nós da carroceria enferrujada de um Pierce-Arrow aos pedaços.

[Pierce-Arrow – Automóveis fabricados em Buffalo (NY) entre 1901 e 1938]

“Era um sorriso abençoado que desvelava gengivas vermelhas mortas, os cotocos amarelados de dois dentes e uma ágil língua molhada. Por um bom momento não disse nada, mas, continuando a sorrir, esfregando contente a virilha com uma mão entortada e enrugada pela idade: os ossos se mexiam por debaixo da pele preta, mostrando claramente o desenho do esqueleto. Com sua outra mão, segurava firmemente um cajado.

“Foi quando me vi perdendo a respiração maravilhado com a sua idade, que era com certeza incomensurável. Ele parecia mais velho que todos os patriarcas do Genesis cujos nomes inundaram minha memória numa litania na escola dominical: Lameque, Noé, Enoque e aquele sempiterno fóssil judeu, Matusalém.”

Styron maneja a memória como se fosse ficção. Para dar suporte à figura de Shadrach ele inclui na lembrança os seus vizinhos – os Dabneys – típica família sulista, residente numa chácara, composta de quatro meninas “louras, cheirosas com seus perfumes Woolworth, viçosas, com seus traseiros luxuriantemente cheios. (...) Ah, aquelas belezas desaparecidas...”

[Perfumes Woolworth – Referência aos produtos que levavam a marca da F. W. Woolworth Co., fundada por Frank W. Woolworth (1852-1919), cujos estabelecimentos resistiram aos modernos shoppings até 1997, quando sucumbiu ao dinossauro Wal-Mart]

Por outro lado, a família incluía três meninos (três “Toupeiras” por apelido) dos quais o mais jovem deles, Toupeira Pequena, era o companheiro de brincadeiras e jogos que vinha à lembrança.

“Era com o mais jovem dos três Toupeiras com quem estava jogando bola de gude, quando Shadrach fez sua aparição. Toupeira Pequena era uma criança de uma feiúra assombrosa, compartilhando com seus irmãos uma mistura de olhos saltados devido à tireóide, nariz amassado, parecendo uma colher, e uma mandíbula saliente a qual (falo em retrospectiva), poderia corresponder graciosamente à descrição de Cesare Lombroso de fisionomia criminosa.”

[O controverso médico italiano Cesare Lombroso (1835-1909), cujas teorias sobre criminosos se iniciaram com a publicação de “O homem delinqüente” em 1876. As idéias de Lombroso, no entanto, influenciaram e modernizaram a polícia científica.]

Mas voltemos à figura galáctica do negro Shadrach:

“A sua presença permanecia apreensivamente bíblica; eu me senti atraído até ele por uma compulsão quase devocional, como se ele fosse o profeta Elias enviado para nos trazer a verdade, a luz e a Palavra divina. O terno brilhante de tropical preto que trajava era frouxo e puído, riscado de poeira, os punhos dependurados soltos, e de um borzeguim furado saía um dedão preto e nu. Mesmo assim sua presença era emocionalmente eclesiástica e alimentava minha devoção.”

Imagino que tipo de reação a chegada de Shadrach tenha afetado o menino. Mas William Styron maneja a narrativa desenhando um círculo imaginário onde além das figuras humanas também a natureza se compraz com a presença divina de Shadrach:

“Estávamos no meio do estio. As próprias árvores pareciam pairar à beira da combustão, um pássaro-das-cem-línguas começou a cantar nas proximidades as notas de um trinado cristalino. Eu fui até mais perto do vovo atravessando um enxame de gordas moscas verdes almoçando esganadas nos restos de lixo que atapetavam o jardim dos Dabneys. Rios de suor corriam pelo vetusto rosto negro. Por fim, o ouvi falar com uma voz senil, tão fraca e embrulhada que levou algum tempo para que atingisse o meu entendimento. Mas entendi: “Louvado seja o Sinhô. Louvado seja o seu doce nome! Mim chegou na Véia Virgininha!”

Para o narrador a dificuldade só aumenta quando quer manter a verossimilhança em texto desse tipo. O leitor não perde de vista a condição em que foi ali colocado. Está disposto, sim, a participar da história, e deve se envolver de tal maneira que os pontos de interrogação se distanciem do pensamento. Talvez ora e outra deva rememorar que não é o garoto de 10 anos de idade que está discorrendo, mas um adulto que se incorpora à memória menina para descrever com palavras próprias as atuais impressões a respeito de incidentes imemoriais. E de tal maneira está incorporado que a lembrança do menino se faz adulta e cresce em emoção e drama.

“Ele acenou para mim com um de seus dedos alongados, ossudos e betuminosos; num primeiro momento, isso me assustou, mas o dedo depois pareceu se mexer suplicante, como uma pequenina e inofensiva serpente. “Sobe aqui no veio joelho do Shad”, disse. Eu começava a pegar o jeito de sua dicção enrolada, dei-me conta de que era muito mais uma questão de ficar atento a uns certos ritmos interiores; mesmo assim, com o som gutural da África reprimido nela, era uma fala de crioulo que eu nunca havia escutado antes. “Sobe”, ele mandou. Eu obedeci. Obedeci ávido e amorosamente; era como subir ao colo de Abraão. Sentei-me alegre no velho colo arruinado, dedilhando uma corrente de cobre amarrada através do colete sebento e brilhoso; na ponta, dependurado, estava um relógio banhado de níquel e no seu mostrador as mãozinhas pretas de Mickey Mouse marcavam a hora da tarde. Eu, agora, dava risadinhas aninhado ao encontro do peito reverencial, inalei o odor de grande antiguidade – indefinível, não exatamente desagradável, mas mofado como um armário há muito fechado – mesclado com o cheiro de roupa suja e poeira. Distante apenas algumas polegadas, a língua tremulava como um badalo rosa na garganta de um sino cavernoso. “Tu é um doçura”, ele sussurrou. “Tu é um Dabney?” Tive de responder com um lamento: “Não”, e apontei para Topeira Pequena. “Este é um Dabney”, disse eu”.

Aqui tudo reflete a amorosa recepção que os meninos, na inocência dos anos, prestam a Shadrach. Poderia ser de maneira diferente, grosseira ou mesmo violenta. Mas não, ante a imponência e majestade do ancião os meninos reverenciam, também, os velhos brancos, os anciãos da própria família, tirando de dentro daquele espírito africano a realeza que coroa a todos quando a idade iguala a todos. Não há discriminação, apesar da maneira peculiar com que a tradicional família norte-americana poderia representar, porque estamos integrados a uma vida interiorana e rural, onde a educação, interiorana e rural, também deixa nossa alma interiorana e rural. Também a figura de Shadrach ajuda a deixar as coisas mais santificadas que o comumente aceito:

– Tu é também um doçura – disse, chamando Toupeira Pequena com o indicador esticado, preto, enrijecido, mas serpenteando. – Oh, tu é um doce de doçura! – A voz alçou-se alegremente. Toupeira Pequena parecia perplexo. Eu senti o corpo inteiro de Shadrach estremecer, confuso, vi que ele estava tomado de emoção na perspectiva de segurar o corpo e o sangue de um Dabney e, enquanto ele se voltava na direção do menino, escuteio de novo ele murmurar: – Louvado seja o Sinhô! Mim chegou na Véia Virgininha!
Naquele instante Shadrach teve uma crise cataclísmica – daquelas que têm muito a ver com um coração doente. Ele não tinha como empalidecer, é claro, mas algo de anorme e vital desfez-se dentro da eternidade negra de seu rosto; a velha pele enrugada de suas faces despencou, seus olhos leitosos rolaram cegos para cima e, proferindo um leve gemido, caiu de costas por cima do assento arrebentado do carro com suas molas nuas e a crina de cavalo saindo para fora dos buracos.
– Qué isso! – Eu o escutei gritar levemente. – Qué isso!

Shadrach estava morrendo, tossia uma tosse presa, tentava falar mas nada saía da garganta engrolada. Conseguiu apenas um gemido para dizer que queria morrer na Véia Virgininha, nas terras dos Dabneys! Algum dia do início dessa peregrinação que na verdade abrangia mais de século, Shadrach resolveu que iria voltar para a Véia Virgininha para ser enterrado nas terras onde nasceu, cresceu, vingou e foi vendido. Agora, aos noventa e nove anos, na beira do centenário, relembrava os anos que, “nascido escravo na fazenda Dabney no condado de King and Queen, ele fora vendido antes da Guerra Civil, lá para o Alabama”.

“Escorreguei para fora do seu colo, vi suas pernas magrelas, com um diâmetro que não podia ser maior que o de uma muda de pinheiro, começarem a tremer e contorcer-se. “Qué isso, por favor!” escutei a voz implorando, mas Toupeira Pequena e eu não precisávamos de outra exortação; nós partimos – em disparada, correndo de cabeça para a cozinha e para a bagunça da pia malcheirosa. “Aquele crioulo velho tá morrendo”, choramingou Toupeira Pequena. Em pânico, arrumamos um vidro rachado de geléia e pegamos a água da bica, enquanto tecíamos conjecturas: Toupeira Pequena sugeriu a possibilidade de um derrame provocado pelo calor, eu especulei sobre a possibilidade de um ataque cardíaco. Nós gritávamos e balbuciávamos, discutíamos se a água tinha de ser gelada ou na temperatura do corpo. Toupeira Pequena acrescentou meia xícara de sal, e depois decidiu que a água tinha de ser quente. Nós tivemos sorte com o nosso longo atraso, já que, muitos minutos depois, quando corremos com nossa poção terrível para o lado de Shadrach, descobrimos que o mais velho dos Dabneys tinha surgido de um canto afastado do jardim e, se dando conta da emergência, tinha puxado Shadrach para fora do assento do Pierce-Arrow, o arrastara ou carregara através do pedaço de terra nua e o deixara amparado num tronco de árvore, onde estava agora, sendo inundado pela água de uma mangueira de jardim que jorrava na boca escancarada de Shadrach. O homem entornou sua cota. Mr. Dabney, então, pequeno, altivo e decidido no seu macacão frouxo, curvou-se sobre o patriarca abatido, puxou uma garrafa de um quarto do bolso do macacão e despejou uma cachoeira de uísque cristalino pela garganta de Shadrach adentro. Enquanto realizava a tarefa, ele murmurava com seus botões num tom de incredulidade e, no fundo, de divertida surpresa”.

William Styron coloca tudo com um dinamismo cinematográfico. As figuras se movimentam loucamente, enquanto o personagem principal jaz encostado no tronco da árvore, pousado ali com a naturalidade com que um passarinho pousa no galho. Essa imagem contraditória entre o dinâmico e o parado também se reflete na natureza. Agora as coisas e os personagens se transformam em remanso, calmas, lacustres. O mais importante é retomar a narrativa antes do desfecho, mas não tão apressada, porque o leitor também deve participar. A eternidade do personagem, porém, se faz presente. Ninguém, nem ele mesmo, sabe quantos anos tem nem quanto tempo viveu. Sua história atravessa a própria história. Depois da Guerra da Secessão veio a liberdade e com ela Shadrach se tornou meeiro, casou inúmeras vezes, teve muitos filhos e netos, que foram crescendo, vivendo e desaparecendo com tempo, enquanto a vida dele se estendia por anos intermináveis.

“Ele devia ter provavelmente algo entre quinze e vinte e cinco anos de idade quando seu dono e senhor – o bisavô de Vernon Dabney – determinou seu destino ao vendê-lo para um dos muitos comerciantes negreiros que espreitavam suas presas no solo exaurido da Virginia(...). Ele devia ter feito a jornada de seiscentas milhas até o Alabama a pé, na companhia de, sabe Deus, quantos outros escravos, presos uns aos outros por correntes”.

“Ah, mim ficou sem nenhú”, era assim que ele deixava claro para todos que não tinha mais nenhum parente vivo. E percebendo a morte próxima, ele partiu do Alabama da mesma forma que chegou ali – a pé – em busca da Virgínia da sua juventude, numa viagem que durou mais de quatro meses. E quando chegou pôde soltar um alívio: – Louvado seja o Sinhô! Mim chegou na Véia Virgininha! Apesar da Virgínia da juventude de Shadrach não estar espelhada na fazenda arruinada e abandonada dos Dabneys, ele foi bem tratado e todos se propuseram a atender ao seu último pedido. Se fosse verdade que queria ser enterrado ali, ali seria.
William Styron é um típico escritor norte-americano, daqueles que primam em localizar seus textos no próprio quintal. Tido como um escritor sulista, Styron reforça o caráter da prosa norte-americana, que prefere voltar-se ao próprio interior, exibindo a vida muito particular do sua gente, seguindo a tradição que perpassa por Sherwood Anderson, William Faulkner, até chegar a James Jones, Gore Vidal, Norman Mailer, Truman Capote. Esse continuado pintar a sua aldeia é que deu o caráter de permanência às letras norte-americanas, reconhecidas pelos vários prêmios Nobel que já acumula em sua despensa.
Bem na contramão desse ideal caminha a prosa brasileira. Não é incrível a gente pensar que o nosso maior romancista é um velhote realista advindo do romantismo? Sim, Machado de Assis ainda é considerado o maioral, embora o seu texto já sinta os efeitos e bolores do mofo. Muitas vezes indicado aos nossos estudantes, Machado de Assis está para a educação contemporânea assim como Camões esteve para os formandos da primeira metade do Século 20. E não passará muito tempo para que a prosa de Machado de Assis só possa ser interpretada se estiver em companhia de um farto glossário, assim como ocorre com os Lusíadas.
Após o realismo, a prosa deu um salto importante com o advento do modernismo. Graças à expansão estimulada por Mário de Andrade uma série de ótimos prosadores – principalmente do Nordeste – pôde iniciar a aventura do regionalismo: José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Rachel de Queirós, Graciliano Ramos, contrapuseram-se aos sulistas, foco maior em Érico Veríssimo. Demorou pouco para o regionalismo ser execrado como maldição: ser regionalista é ser ridículo...  E tudo voltou ao normal. Hoje estamos assim: os escritores optam por fazer uma prosa de contexto universal, naquele onde a ação pode ocorrer em qualquer parte. Agindo dessa forma, pensam em melhorar o cachê e produzir uma literatura com vista para o estrangeiro.
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