quarta-feira, 28 de julho de 2010

ACORDA PALAVRA!

Salgado Maranhão
“ A cor da palavra” (poesia)
Imago/Fundação Biblioteca Nacional
Rio de Janeiro – 2009

Estou lendo o livro “A cor da palavra”, que reúne a poesia de Salgado Maranhão de 1978 a 2009. Não obstante a existência do parâmetro cronológico, o livro contém diretrizes do autor, como se nos desse uma dica para a leitura de sua poesia e deste livro. A primeira delas se refere à estética de princípios, adotada pelo poeta desde quando abraçou a poesia, como o ethos – o caminho para fazer a arte – ou seja, aquilo que seria a personalidade de autor. Essa diretriz aparece no Posfácio “O traço apolíneo de Salgado Maranhão”, de Luiz Fernando Valente, que abre com a seguinte citação do poeta:

“A visão da poesia e das artes em geral está muito relacionada a uma postura dionisíaca e desleixada da vida. Nunca me permiti ser assim. Sempre tive uma postura apolínea.”

            É, claro, uma tomada de posição muito pessoal, que trouxe alimento para o ensaio de Luiz Fernando Valente. Pois bem, isso daria também panos pra manga, que seria abrir uma discussão, de já muito cansada e esgotada desde Nietzsche, em “O Nascimento da Tragédia”, que trata da dualidade da tendência artística. Para o filósofo, a arte está profundamente ligada à duplicidade antagônica do apolíneo e do dionisíaco. E de imediato a esta oposição primeira, surgem outros contrários, que servirão de modelo ao que representam as figuras de Apolo e Dionísio. Toda dualidade é tendenciosa, porque se inicia primeiro entre arte plástica e música, depois entre sonho e embriaguez, mais a aparência e o êxtase, etc. Cada um se opõe ao outro, sem excluí-lo, para manter a relação de oposição, como se fosse complemento. As oposições se sustentam em confrontação e interdependência. Mas todas remetem ao mesmo nível de experiência da arte.

Os deuses representam a máxima expressão da cultura apolínea, qual seja: a superação do pessimismo. Segundo Nietzsche, para chegar ao grau de afirmação da vida deve-se, primeiro, levar o pessimismo ao limite extremo, alcançando, assim, o sentido metafísico de aprofundar e superar. Uma guerra de terra arrasada. Mas, se essa verdade for assimilada, levará ao aniquilamento da vida, ou seja, à última expressão do saber dionisíaco: o êxtase. Pois foi assim que Nietzsche fixou a distinção entre apolíneo e dionisíaco: Apolo é o deus da clareza, da harmonia, da ordem. Dionísio, o deus do êxtase, do caos, da música. Mas, a poesia não é uma arte exterior? Ou seja, ainda uma vez, não está acima e além de todas as demais artes? Para Nietzsche o apolíneo e o dionisíaco eram forças complementares, mas foram separadas pela civilização moderna. Onde a poesia caminha nesse labirinto? Resulta, portanto, que tudo acaba retornando ao impasse da existência da dualidade.

Pode-se alimentar ainda mais e fogueira que cuida da dualidade entre a vida e a arte, conforme Moira Müller observa em “Lo apolineo y lo dionisiaco de Nietzsche”:

“Sea de modo disfrazado o deformado algo expresó el joven Nietzsche en El nacimiento de la tragedia que nos sigue diciendo algo. La intuición de que el desarrollo del arte esté ligado a la duplicidad de lo apolíneo y lo dionisíaco, aunque no constituye una intelección científica, mantiene su significado filosófico y poético para nosotros. Toda la expresión artística, afirma Nietzsche, surge como un arma, una anestesia, contra el dolor sufrido por el hombre. Una vez echado un vistazo en la profundidad de la verdad de la vida, el hombre se ve desgarrado de su mayor anhelo, haciéndose una herida incurable. El arte se nos presenta como una alegre esperanza de que pueda romperse el sacrilegio de la individuación del Uno primordial, de los dioses eternamente perfectos, como presentimiento de una unidad restablecida. Ningún pueblo fue tan apto para el sufrimiento como los griegos y para poder vivir tuvieron que crear los dioses y el arte. Como estrategia de supervivencia “los griegos, que en sus dioses dicen y a la vez callan la doctrina secreta de su visión del mundo, erigieron dos divinidades, Apolo y Dioniso, como doble fuente de su arte. En la esfera del arte estos nombres representan antítesis estilísticas que caminan, una junto a la otra, casi siempre luchando entre sí, y que sólo una vez aparecen fundidas, en el instante del florecimiento de la voluntad helénica, formando la obra de arte de la tragedia ática”.
           
            Outra diretriz dada por Salgado Maranhão na feitura do livro “A cor da palavra” se refere a um procedimento – a revisão de textos poéticos já publicados – tema que também suscita muita discussão na literatura, tanto na teoria quanto na prática. O que ele fez? Explica melhor a declaração do poeta:

“Os leitores que, de algum modo, acompanham meu trabalho desde as primeiras publicações, encontrarão, aqui, poemas reciclados ou fora de ordem. Isto deve-se à minha obstinação pela palavra de múltiplas arestas, e ao intento de dar a esta obra, verdadeiramente, a feição de um novo livro.”
           
            Com efeito. Também se trata de uma opção. Trabalhar a palavra requer, de fato, suor e obstinação, como diz o poeta. Muitos autores mexeram e remexeram seus trabalhos antes de publicá-los. Li não sei aonde que James Joyce reescreveu “Ulisses” – aquele calhamaço, sim senhor – mais de 34 vezes! Caramba! Neste caso acredito que a literatura perdeu muito, pois o dublinense bem que poderia ter usado esse tempo para nos oferecer outras maravilhas... Ademais, a escritura é um labirinto. Quando se lê o que se escreveu lá atrás, a pergunta que primeiro vem é “Quem escreveu isso?”.
           
Por essas e outras razões, muitos escritores preferem jamais reler o que escreveram. Josué Montello, na velhice, pegou o primeiro romance – que já havia enterrado como obra de juventude – e reescreveu todinho. Nada sobrou do texto inicial, dizia ele muito orgulhoso. Outros, muitos outros mesmo, quando alcançam a fama depois de anos laboriosos, optam por enterrar no limbo do esquecimento as primeiras palavras. Ferreira Gullar hoje ri do seu primeiro livro "Um pouco acima do chão". Outros “tiram do catálogo” as obras condenadas pelo tempo inclemente. O livro existe, está na biblioteca, o nome de quem escreveu está lá, mas quando se encontram o autor finge que não viu, vira o rosto, desdenha, empina o nariz. Coitado do primeiro verso...

Enfim, mexer ou mexer é uma decisão e responsabilidade pessoal. Outro dia mesmo andei lendo – mas não anotei a fonte, droga! – dizendo que a poesia não se revisa, porque é difícil refazer o itinerário da palavra até o papel. A prosa sim, dá todas as opções para uma revisão concreta. Quiçá, a respeito do tema, li no livrinho de pensamentos “Reflexões sobre poesia e ética”, do poeta grego Konstantinos Kaváfis:

“As imagens e sensações estivais me infundem numerosas impressões. Todavia, não sei de as ter representado ou traduzido de pronto numa composição literária. Digo ‘de pronto’ porque as impressões artísticas demoram a ser usadas, a gerar outros pensamentos, a transformar-se sob a ação de novas influências e quando enfim se cristalizam em palavras escritas, é difícil lembrar a ocasião primeira onde nasceram e de onde se originam as palavras escritas.”  

Bom, chega de divagar... Ah, mais cabe mais algum comentário. O resultado obtido ao transformar essa reunião em novo livro, como quis obstinadamente Salgado Maranhão, restou, de algum modo, complicado. À vista do resultado que essa re-ordenação e re-visão trouxeram, imagino que foi muito trabalhoso ao poeta realizar, porque também os livros antigos tomaram nova feição, novos títulos. “A cor da palavra” ao final assumiu a seguinte forma gráfica, que vai aqui como roteiro:

PUNHOS DA SERPENTE – Com Ebulição da Escrivatura & avulsos (1978-1989)
– À flor da fala
PALÁVORA (1995)
– Dez Limites
– Coisas e Lugares
– Petit Finale
O BEIJO DA FERA (1996)
– Nudez Nutriz
– Palavras com Figuras
– Faces do Disfarce
– Coda
MURAL DE VENTOS (1998)
– Itinerário de Afetos
SOL SANGUÍNEO (2002)
– Tribos e Vitrines
– Tear dos Afetos
– Legenda Gris
– Adereços para um Eclipse
SOLO DE GAVETA (2005)
– Mapa de Origem
– Espécimes
– Diversos
A PELAGEM DA TIGRA (2009)
– Mar de Lavas
– Mar sem Ondas
– Mar Deriva
– Mar Aberto
– Tear de Prismas (Finis)

Pensando bem, acredito que Salgado Maranhão não se propôs apolíneo para exprimir suas idéias – sociais, históricas e políticas – sob a grandeza da poesia. Esta se expressa através do poeta na conformidade do tempo, de uma forma que nem a re-arrumação, nem a re-visão ou a re-ordenação não conseguem sufocar. O apolíneo em Salgado Maranhão está na ordem apropriada que a arte lhe consentiu, em nome da palavra, para frutificar na profissão de Poeta. Nesse caso, lucra o leitor: ao mesmo tempo que lê a poesia de Salgado Maranhão, se dá ao luxo de também re-ler aquilo que transtornou a visão de uma escrita já gravada no tempo.

Ora, direis, ao fim acabaste não falando sobre a poesia de Salgado Maranhão. Tendes razão – responderei – mas o que seria a opinião deste modesto escriba ante as inúmeras e bondosas críticas já professadas por maiores figuras? Ademais é mister que se procure escrever sobre um tema ou pessoa ou escritura de um modo que assunte sobre paisagens inéditas, detalhes ainda não assimilados, lugares não descobertos, entranhas virgens, portanto ainda não desbravadas.

Procuro, com esse viés, também provocar pontos-de-vista sobre essas áreas ainda não transitadas e assim permitir ao leitor deslumbrar novos horizontes. Pelo menos é essa a intenção. Por isso, passo a palavra a Ferreira Gullar, que bem se expressou sobre a poesia de Salgado Maranhão, na contracapa do livro que tenho em mãos:

“Salgado Maranhão é um dos mais brilhantes poetas de sua geração e possui um trabalho de linguagem muito pessoal. ‘Sinergia’ é a palavra que define sua poesia. Uma poesia da palavra, muito embora não ignore o real, pois o traduz em fonemas e aliterações. Que não hesita em ir além da lógica do discurso (ou do enlace com o plausível) se o resultado é o impacto vocabular e o inusitado da fala.”

Ora bolas! Com esse sábio depoimento de Ferreira Gullar ia encerrar este artigo, mas eia! Já se abre um novo foco de incêndio. Sim, incêndio. A palavra é incêndio, é fogo. Aqui o leitor, somando os três fatos, fará uma associação de ideias:

1) Salgado Maranhão é um poeta autodenominado apolíneo, isto é, autor de vida e arte canônicas, acadêmicas, certinhas;

2) Em função dessa diretriz, Salgado Maranhão optou por reescrever seus livros e poemas anteriores e transformá-los em novos poemas e novos livros;

3) Salgado Maranhão é um poeta obstinado pelas palavras de múltiplas arestas, (...) que não hesita em ir além da lógica do discurso (ou do enlace com o plausível) se o resultado é o impacto vocabular e o inusitado da fala. 

4) Dedução: Salgado Maranhão é um poeta chato!

Felizmente não é assim. A poesia de Salgado Maranhão pode (ou não pode) ter todas as qualidades e defeitos apontados aí acima.  Mas, graças ao olhar apolíneo, que de imediato atrai o oposto foco dionisíaco, tudo se transforma. Por exemplo, tente descobrir os muitos sonetos – nada apolíneos, diga-se – que se escondem dentro de uma ou outra poesia mais hermética, mais intraduzível de imediato. Graças ao rigor com que o poeta lavoura os seus poemas, temos a garantia do verso honesto. São poemas belos em que a tranquilidade lacustre da palavra tensa, em breves momentos, é alterada de leve pelo rumor da brisa que encrespa a superfície da água.

Digo que é nos sonetos ingleses, ainda que compostos de forma mais quadrangular que esférica (ou seja, de informalidade estética), que Salgado Maranhão liberta o que há de dionisíaco em sua poesia, o filho bastardo que o poeta reluta em assumir. Ademais – olha o leitor aí, gente! – o modo de criar de Salgado Maranhão faz com que cada mirada traduza sua própria paisagem. Como você gosta de ler poesia? Eu não leio tudo de uma vez, ao contrário, vou ruminando as páginas e mesmo quando acaba o livro, volto a ele de vez em quando. E, acredite, cada leitura, cada releitura é uma nova descoberta, um novo prazer.

Um poeta assim, múltiplo, raro, é apropriado que se leia a todo momento. O livro? “A cor da palavra” é pra se ler e guardar e ler. Assim, o leitor também terá seu modo de ler e de traduzir a palavra. Nesse momento, então, não importa o que o poeta escreveu: o verso será um novo verso, as palavras se misturam interpretadas de modo diferente. Esse é o mistério da poesia, que coube aos poetas semear na terra...

Por fim, uma amostra grátis:

O deus e a máscara

Sim, trata-se de um deus que reina ao léu
seus caprichos, suas leis de luz e abismos
que ao tocar na leve tez do lirismo
traz as garras ao que há de céu em seu
reino. Réplica de um quase anarquismo
ou rito de máscara sob um véu
de quem é santo mesmo sendo ateu
de quem é uno mesmo em dualismo.
Ninguém deterá tal mapa ou endereço:
trata-se de um folião sem adereço
a vestir a própria alma no disfarce.
(O encanto, o afeto, a paixão e seu preço
escrito a ferro e flor e desenlace.)
E assim, quanto mais morre mais renasce.
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