quarta-feira, 23 de setembro de 2009

AUTO-RETRATO DE AUGUSTO DOS ANJOS


Poetas falam de per si, mas com grande desassossego. Na maior das vezes cuida de tratar bem os sintomas da humanidade, ainda que presente apenas no universo próximo, ao seu redor. Quando Augusto dos Anjos chegou ao Rio de Janeiro trazendo o seu EU debaixo do braço, cheio de muitas esperanças, ficou surpreso com a recepção pífia com que seus pares o receberam, não obstante o calor da crítica de alguns poucos. Mário Pederneiras escreveu uma nota simpática, Osório Duque Estrada preferiu discutir as idéias filosóficas do poeta: 
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“Um grande talento transviado; promessa de extraordinário poeta, abortada na alma de um filósofo; extravagante volume de versos em que pérolas se misturam com o cascalho dos exotismos estapafúrdios”. Sem negar que se trata de “um espírito de elite e uma inteligência capaz de grandes cometimentos”. 
*** Outros foram menos bondosos e criticaram abertamente o excessivo e egocêntrico poeta, que se gabava com alarde das qualidades próprias. Para manter a coerência e assegurar ao poeta um lugar no país de Olavo Bilac, Hermes Fontes deu a maior força: 
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“Augusto dos Anjos é um poeta que não se confunde com os outros. É diferente  dos demais pelo credo, pela fortuna e pela grande independência de pensar e dizer. Com os outros, isto é, com três ou quatro dos nossos grandes jovens poetas, ele se identifica, apenas, pela força da cultura, pela segurança, pelo brilho, pela excepcionalidade de seu estro”. 
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O cientificismo, o amor pelas coisas inauditas, a absorção de temas universais, a liberdade de  tratamento dado ao Ser e à Terra, consubstanciando-os numa só comunidade – tudo isso fez com que Augusto dos Anjos se mantivesse à margem, transformando-o em Poeta Maldito. 
Escondido num Soneto, porém, achamos outro retrato de Augusto dos Anjos, mais simpático, alegre até, desprendido das coisas materiais. No mesmo rumo de um Bocage, perpassando por  seu conterrâneo Leandro Gomes de Barros, Augusto dos Anjos apresenta um humor até então  desconhecido e ignorado. Vejamos as similaridades. Bocage foi um dos que poetisaram o auto- retrato: 

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SONETO 
Magro, de olhos azuis, carão moreno, 

Bem servido de pés, meão na altura, 
Triste de facha, o mesmo de figura, 
Nariz alto no meio, e não pequeno; 


Incapaz de assistir num só terreno, 
Mais propenso ao furor que à ternura; 
Bebendo em níveas mãos, por taça escura, 
De zelos infernais letal veneno; 


Devoto incensador de mil deidades 
(Digo, de moças mil) num só momento, 
E somente no altar amando os frades, 


Eis Bocage em quem luz algum talento; 
Saíram dele mesmo estas verdades, 
Num dia em que se achou mais pachorrento. 



Esse é o Bocage! E Leandro Gomes de Barros era leitor de Bocage? Parece que sim, porque ele  publicou na contracapa do folheto “Peleja de Manoel Riachão com o Diabo” um auto-retrato muito próximo ao Soneto do poeta português... 
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Os Traços de Leandro Gomes de Barros: 



A cabeça um tanto grande e bem redonda, 
O nariz afilado, um pouco grosso, 
As orelhas não são muito pequenas, 
Beiço fino e não tem quase pescoço. 


Tem a fala um pouco fina, voz sem som, 
Cor branca e altura regular, 
Pouca barba, bigode fino e louro, 
Cambaleia um tanto quanto no andar. 


Olhos grandes bem azuis, têm cor do mar: 
Corpo mole, mas não é tipo esquisito, 
Tem pessoas que o acham muito feio, 
Mas a mamãe, quando o viu, achou bonito! 


Eis aqui o que consideramos o auto-retrato de Augusto dos Anjos, seguindo os mesmos parâmetros de Bocage e Leandro:



SONETO 



O oxigênio eficaz do ar atmosférico, 
O calor e o carbono o simples éter são 
Valem três vezes mais que este Américo 
Augusto dos Anzóis Souza Falcão... 


Engraçado, magríssimo, pilhérico, 
Quando recita os versos de Tristão 
Fica exaltado como um doente histérico 
Sofrendo ataques de alucinação. 


Possui claudicações de peru manco, 
Assina no Croquis Rapaz de Branco 
E lembra alto brandão de espermacete... 


Anda escrevendo agora mesmo um poema 
E há em seu corpo igual a um corpo de ema 
A configuração magra de um 7. 


(De Castro e Silva: Augusto dos Anjos – poeta da morte e da melancolia)
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