quinta-feira, 26 de março de 2009

Um réquiem a oito mãos
















O Réquiem que Mozart deixou inacabado teve mais um capítulo acrescido à sua história rocambolesca. Mozart morreu deixando para sua mulher Constanza a incumbência de entregar ao milionário Conde Franz von Walsegg o Réquiem por ele encomendado e antecipadamente pago.

O Réquiem serviria para acompanhar uma cerimônia litúrgica, qual seja, em memória e aniversário de dis anos da morte da Condessa von Walsegg. Para cumprir a obrigação Constanza recorreu aos compositores Franz Süssmayer e Joseph Eybler – então alunos de Mozart – que se incumbiram de finalizar o Réquiem.

Segundo o musicólogo francês Henri de Curzon, Mozart havia deixado completados os manuscritos do Réquiem Aeternam e do Kyrie, que são peças inteiramente do compositor:

“O desenho melódico, órgão e entrada de instrumentos, estão apenas traçados por Süssmayer sob seu ditado, o qual, aliás, recebeu até o fim, como ficou provado, instruções minuciosas”. Mozart deixou também, representados em esboço, os manuscritos do Dies Irae e do Hostias (sic), com todas as indicações de como deveriam ser finalizados.

“E depois de ter revisto e orquestrado todos os trechos, [Süssmayer] acabou ele sem auxílio à partitura. Em suma – conclui Henri de Curzon – só existe caráter certo de Mozart até os primeiros compassos da Lacrymosa”.

O musicólogo fala com a autoridade de quem teve os manuscritos nas mãos e leu a famosa carta de Süssmayer de 1800, que elucida todas as dúvidas a respeito da composição do Réquiem de Mozart, no que se refere à sua finalização.

Portanto, até o ano de 1819, o Réquiem K. 626 de Mozart foi publicado e executado com base na parte inicial do próprio compositor, com as intrusões de Süssmayer e Eybler, finalizando sob os acordes do último movimento, Lux Aeterna, ou seja, nos moldes da composição de uma missa pro defunctis, mais conhecida entre nós como missa de corpo presente. Mas, como se viu, não era essa a intenção do Conde Franz Von Walsegg, cuja esposa havia falecido já há dois anos.

Então, em 1819... Bom, para começar esse capítulo temos de retroceder ao ano de 1808, quando a família imperial portuguesa, fugindo da invasão francesa, embarcou de mala e cuia para o Brasil.

Entre os muitos artistas, cientistas, escritores e homens de arte que acompanharam a comitiva de Dom João VI, estava Sigismund Ritter Von Neukomm (1778-1858), que, como Wolfgang Amadeus, também era natural de Salzburg e cuja família morava na mesma rua dos Mozart.

Igualmente a Mozart, Sigismund Neukomm foi um músico precoce e já aos quatro anos era aluno do organista maestro da Catedral de Salzburg, Xaver Weissauer. Posteriormente o jovem Neukomm foi estudar com Michael Haydn que, em 1797, enviou o aluno à Viena com uma recomendação expressa a seu irmão mais velho Joseph Haydn. Logo o aluno é aproveitado para trabalhar nas orquestrações e nas transcrições para piano em muitas obras de Haydn.

No Brasil, Neukomm conheceu e se tornou amigo do padre e compositor José Maurício Nunes Garcia, ao qual Dom João VI de imediato havia confirmado para continuar a ser Mestre de Capela da corte – cargo que ocupava desde 1798 – apesar da presença na comitiva do nome, famoso e talentoso, do compositor Marcos Portugal. Nunes Garcia fazia os preparativos para realizar a primeira apresentação em terras latino-americanas do Réquiem de Mozart e a chegada ao Brasil de Sigismund Neukomm – que trazia na bagagem um conhecimento atualizado das obras de Mozart e dos irmãos Haydn – foi simplesmente um milagre!

Mas vinha também na bagagem do jovem músico austríaco a certeza de que a obra de Mozart continuava incompleta, com um final que deixava em suspenso toda a magia do Réquiem, trazendo-lhe a firme sensação de que a mesma deveria ser finalizada. Pois esse era o momento. Havia surgido a ocasião propícia e foi assim que Sigismund Neukomm tratou de pôr mãos à obra e compor o Libera me, para se tornar o último movimento do Réquiem K. 626 de Mozart.

Com esse movimento, necessário aos réquiens in memoriam, estaria assim finalizada uma obra que, como se viu, foi encomendada para homenagear a memória da Condessa von Walsegg e não para compor uma missa de corpo presente, como era executada até então.

Libera, Domine, de morte aeterna
In die illa tremenda
Quando caeli movendi sunt et terra
Dum veneris judicare saeculum per ignem
Tremens factus sum ego et timeo.

Então, em 1819... Foi assim que no dia 19 de dezembro desse ano, durante as Festas de Santa Cecília, em homenagem aos músicos mortos no ano anterior, o Rio de Janeiro entrou para a história do Réquiem Inacabado de Mozart.

A Confraria de Santa Cecília, fundada por Nunes Garcia e um grupo de amigos, servia como uma academia de músicos, para apresentar as obras dos compositores brasileiros da época e também para homenagear a memória daqueles que haviam desaparecido. Mas, com a execução do Libera me de Sigismund Neukomm, entrou em definitivo para a biografia de Mozart.
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