terça-feira, 1 de abril de 2008

O Stabat Mater e o primo distante

Poderia ser apenas uma má apresentação da Orquestra e Coro do Theatro Municipal do Rio de Janeiro porque contava o nervosismo do início da temporada de 2008. Tudo bem que o risco era previsto já que o Stabat Mater de Antonin Dvorak não é um primor de facilidade e exige uma carga dramática que ultrapassa o sofrimento de Maria aos pés da cruz. O próprio maestro Roberto Minzuk advertia no Programa:

A Semana da Paixão é uma data mais do que propícia para celebrarmos o começo de uma nova temporada. Grandes obras musicais foram escritas para esta celebração. Uma das principais é o belíssimo e pungente Stabat Mater de Dvorak, que explora pura e profundamente as ricas sonoridades do coro, orquestra e solistas”.

Talvez a excessiva busca do preciosismo tenha deixado todos muitos nervosos, principalmente os solistas. A soprano Elizabeth Whitehouse assustou-se durante a apresentação, mercê de um breve respirar fora de hora, a companheira mezzo soprano Adriana Clis apenas fez o dever de casa, sem sobressaltos nem maiores prejuízos. Loas para o tenor Reginaldo Pinheiro que, sim, entrou no espírito dramático do Stabat Mater e também não fez feio o barítono Hernán Iturralde, mas não foi capaz de levantar a platéia.

O coral e a orquestra não perderam a viagem, ao contrário, salvaram-na com bom desempenho. Bravo! Mas, princípio de temporada é assim mesmo, cheio de zebras. Porém, um branco maior ocorreu com este que vos fala: por uma falha lamentável não comprei o ingresso para o primo distante que intitula o texto. E o primo distante, do qual não renego o nome, Joaquim Itapary – mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa – não foi ouvir Dvorak comigo. Fiquei deveras chateado com a minha incompetência...

Não obstante as palavras de Minzuk, Dvorak não compôs o Stabat Mater para uma determinada semana-santa. A verdade é que Dvorak começou a compor a peça seis meses depois de perder sua primeira filha Josefa, que tinha apenas dois dias de nascida. No sete de maio de 1876 o compositor larga o Stabat Mater de lado e só retomou-o quando “um terrível golpe do destino” abateu-se sobre sua família: sua segunda filha Ruzena se envenenou de modo acidental com onze meses de idade. Para completar a tragédia seu filho Ottakar de quatro anos contraiu varíola e não resistiu. Depois de levar tanta porretada é natural que o compositor, católico por devoção, derrame sobre a partitura interrompida toda a dor provocada por tantos revezes.

O milenar poema sacro, ora atribuído ao Papa Inocente III (+1216), ora a Jacopone da Todi (+ 1306), encontrou, assim, mais um intérprete devotado do doloroso retrato de Maria sofrendo aos pés da cruz onde seu filho Jesus ferido agoniza. Mais de 400 compositores já eternizaram suas impressões musicais sobre esse texto, fazendo por merecer citação no Livro dos Recordes.

Não obstante minha mancada com o primo distante, procurei remediar levando-o para beber um chope gelado na Casa Paladino, que realmente tem uma coleção de frios e queijos bastante para acompanhar qualquer álcool. A variedade de omeletes então nem se fala. Mas a casa velhusca – que o primo distante batizou de Milagre de Santa Rita, por ainda se manter de pé hospedando tantos cupins – deixa muito a desejar nos quesitos higiene e atendimento: há muita mosca para espantar, os garçons são mal vestidos, servem suados, com trejeitos e defeitos de atendentes dos piores pés-sujos suburbanos – mal comparando. Basta dizer que o azeite, complemento indispensável para muitos dos acepipes ali oferecidos, é servido pelo garçom em gotas paupérrimas e miseráveis, pois, absurdo dos absurdos!, é absolutamente proibido deixar a latinha na mesa!

No entanto, foi-se o Stabat Mater, foi-se o Bar Paladino para o quinto dos infernos e foi-se o primo distante! O que ficou foi um poucadinho de saudade da presença dele e das muitas risadas felizes que, graças ao bom Deus!, sobraram de tantas agruras.

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