domingo, 20 de janeiro de 2008

São Paulo, plúmbeo céu
















De: Ivy Judensnaider
Imagens: Duayer

http://www.arscientia.com.br/galeria/ver_galeria.php?id_galeria=34
15/01/2008
A cidade não aceita o passar do tempo: desde o ano novo, resiste ao Sol, evitando entregar-se ao azul compacto do verão, assumindo essa cor plúmbea indefinida, cor de ausência e impermanência. Acordei sem prumo, e as contas se multiplicam sob a mesa do escritório. Recuso-me também a começar tudo de novo, trabalho, dinheiro, pendências profissionais, compra de material escolar. O ano deveria começar sem aviso, repentinamente, e meu corpo que se virasse com a mudança de rotina, que se acomodasse aos gestos bruscos do trabalho, que minha coluna esquecesse sem dor ou pesar o término do não-fazer, não-pensar, não-esquecer. Finalizo um texto sobre a infinitude do mundo e escuto Oblivion, de Piazzolla. Esquecimento. Eu ainda posso esquecer. E escutar. Escuto pássaros lá na rua e tenho vontade de largar o teclado e ir até o bosque, mergulhar no rasgo verde que a cidade ainda não destruiu, descobrir um caminho que possa me tirar dali. E daqui. Da solidão urbana, do vazio que meu coração teima em perceber. Se eu fosse um túnel, seguiria em direção à luz. Como sou gente, me movimento como minhoca, arrastando-me na terra coberta de asfalto. Como sou carne, a luz que agora atravessa o céu me ilumina, alimentando-me com esperanças de que posso seguir em frente. Como sou alma também, aqueço-me nas imagens que ele captou e que aqui estão.
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