sábado, 26 de janeiro de 2008

AS COISAS DO MAR

AS AREIAS

Uma casa à beira da ria

sorri para o mar da janela.

No barco verde à deriva

pescadores tarrafeando.

Um sol na quase manhã

é como véu no corpo dela.

Guará goteja o mangue

vermelho içado de verde.

Os catadores de sururus

e caranguejos vermelhos.

Um corpo nu desmaiado

na alvura do lençol azul.

Maria, sim é Maria, é ela

que ri para o mar da janela.

A BAÍA DE SÃO MARCOS

Por aqui começa o mar noutro mar,

a mais fértil terra dos pescadores

eu penso em ti, em mais ninguém.

E nascem na praia campos de areia,

ali aonde o mar existe e não existe,

mais louco que nunca para te ver.

O pescador é o camponês do mar,

ameia os peixes de colheita insossa,

posso jurar ao vento que te amo.

Roçado de sal o pescador recolhe,

siri, caranguejo, flor de manguezal,

é um mar em forma de sedução.

AS HILDAS SEREIA

Quando a encontrei era só açúcar,

prazer, dança, doce de goiaba e mel.

Um mar de sal e sol para temperar,

vinho branco e, ou, cerveja gelada.

Criação boa a receita de felicidade:

e assim foi o tempo das maresias,

ondas rasteiras, espaços espectros,

pores de sol. É verdade: o sol se põe?

Todos estão pensando que vou falar:

Agora tudo é fel” (para rimar com mel),

mas que nada! Só a distância atrapalha

a convulsão mansa de nossa pele úmida.

Se possível, continua doce, mel e mel,

bacuri em calda, condimentos picantes,

sorvete de juçara... Já falei dos lábios?

Ara que boca! Ânsia devoradora! Ora...

AS DUNAS MENINOS

As crianças correm pelas dunas de areia fina

desviando os galhos verdes dos pés de muricis.

O vento estabanado, cabelos lisos em caudal,

esticam os lábios em sorrisos quilométricos.

Corre menino de areia

Corre direto pro mar,

Corre que o mundo é teia

Pra quem não sabe nadar...

Era domingo sempre, mas o sol não via que era:

crianças livres corriam pelas dunas alvacentas.

A descida é escorregadia, patinam sobre grãos,

imitam anjos de algodão que vivem nas nuvens.

Corre menino de areia

Corre direto pro mar,

Corre que o mundo é teia

Pra quem não sabe nadar...

Gritos se transformavam em cantoria musical

arrastados coloridos longe lá onde o som voa.

Antes que as pegadas dos pés miúdos sumam,

levadas pelo uivo irado do vento, estava o mar.

Corre menino de areia

Corre direto pro mar,

Corre que o mundo é teia

Pra quem não sabe nadar...

Braços abertos são pássaros marinhas crianças,

enfrentam o desafio mais importante de suas vidas.

Para atender o chamado vital do mar, as narinas

dilatadas, correm igual tartarugas recém-nascidas.

Corre menino de areia

Corre direto pro mar,

Corre que o mundo é teia

Pra quem não sabe nadar...

OS SAIS E OS SÓIS

São as colinas de sal e sol,

o entardecer verde e roxo,

são as águas-vivas na areia,

os galhos podres na praia,

o silêncio da onda quebrando,

enquanto pescadores arrastam,

arrastam a rede no quebra-mar,

são as algas flutuando ao léu,

à noite que chega a barlavento,

são as altas palmeiras penteadas,

o som das dunas que se movem,

são crianças saltitando piruetas,

alguma novela de amor na TV:

todo o Universo relembra você.

ONDAS SAMBAS

Domingo na praia

Muito sol a brilhar

Teu corpo na areia

Moreno a dourar

Foi lá que eu te vi

Foi lá que te conheci

Foi lá que te paquerei

Foi lá que te namorei

Fiquei marcando bobeira

Debaixo daquele céu

Teu olhar de feiticeira

Me mandou pro beleléu

E Domingo na praia

Sol quente a brilhar

Senti teu corpo moreno

Muito doidão me deixar

AS AREIAS CORES

Um pouco de azul não faz mal a ninguém,

nem o verde que se esgueira entre as casas

ou a mesma estrela multicor que me segue,

cintilando mistérios, emprenhada de segredos.

Faz bem o cristal salinoso que emerge da onda

e penetra entre as frestas das roupas, botões,

a espuma que lambe a epiderme rugosa e sã,

lábios ressecados noutros lábios ressecados.

Não faz mal o cheiro de mar aromatizado,

vasa que entranha e fere as narinas da alma,

nem faz mal a água doce que corre nos dedos

enquanto o rio se mexe direito a outros rios.

Faz muito bem a luz clara, manhã aventurada

que se debruça em cumprimentos e mesuras,

perseguindo o som em partitura emoldurada,

letra de música ministrada às rezas vesperais.

Não é mal despertar sobre o corpo dela em duna,

lençol de areia monazítica, amplo de vivacidade,

salgada sebe, glândulas salivares, cuspe, licor,

pudor rouco, gozo em azul, destilado entre coxas.

AS MARÉS

Direi: é sábado, 30 de outubro,

a lua imensamente enorme,

muito maior do que o sol,

acachapante, humilhando

o pouco que restou de nós.

Boa noite antiguíssima lua,

pode entrar, o coração é seu,

aplastra as vagas sem dó:

mete de entremeio o amor,

(afinal eleva-se a palavra).

Não há sentimento nem maré,

nem provocação no céu vasto,

boa noite amiga lua, lua dela,

pode entrar, aplastam-se as vagas,

o coração é seu, ama-o sem dó.

Digo que é sábado de outubro,

de lua imensa (a mente dorme),

ó sol grande, de joelhos e casto,

indulgente e demasiado humano,

ama um pouco a sombra de nós.

OS MARISCOS

Saboroso senti-los vivos:

Água do mar na saliva,

uvas tintas de vinhos

e gotas azedas de limão.

Mariscos a la ostra - crus

bom tinto entre garfadas

agora vão morrer na boca

beijo venenoso das deusas.

Completamente de porre,

em Viña del Mar e Reñaca,

Oceano Pacífico valente,

ou no Atlântico pacífico.

São Luis, Rio de Janeiro,

em Araçagy ou Recreio,

sabem o puro rico sabor,

ressecada boca de areia.

OS RIOS LARES

Cantar os rios, sim, eles são belos

e contemplá-los muito nos ensina.

Mas para que servem as margens?

Sim, o rio tem águas importantes,

transforma as margens em paisagens

passageiras, em visões e miragens...

O rio é, sim, o Rei das Selvas

e das planícies, cujas águas límpidas

formam remansos e correntezas.

Mas – e as margens?

Ninguém canta as margens,

sós os rios e suas águas milagrosas.

Todos cantam, mas as margens,

serão simples terras a desfilar

rapidamente à vista dos passantes?

Terras férteis – filhas fixas e perenes

dos rios, imutáveis barrancos.

O rio passa célere, mas as margens

presenciam vidas verdes,

que ali permanecem pela eternidade.

Volta e meia revoltam-se, mudam de lugar.

Todos cantam os rios, mas as margens?

Os rios são assim: importantes

mais pelas águas cristalinas,

que pela margem.

As estrias das margens enodoam

de humo e lodo o rio e desse

contrastante milagre foi de onde

resultou a vida – não a morte...

OS MARES BLUES

Débil llega el mar

hasta mi cuarto

meciéndome

entre sus algas dedos”

Carmen Berenguer

Mar de meditação.

Mar primordial.

Mar principalmente carioca.

Origem e fim de tudo,

bate no Rio de Janeiro

mandado por Iemanjá

ou por Posídon.

Banha Uiaras de areia,

engole atrevidos, ousados.

Mar de cores impuras,

que manda a saúde embora.

Bendito seja o fruto

do teu profundo ventre,

zelai os pescadores.

Trazei no toldo das ondas

o alimento de todos os dias,

o sal amargoso do batismo,

o sal da fé e da vida.

Mar que aceita surfistas,

travessos amantes notívagos,

ambos enfeitiçados

pelo encanto das sereias.

Barcos, iates, saveiros,

mar de engolir navios.

Mar de desertos e praias:

Copacabana – verde de musgo,

Arpoador – altar de beleza,

Ipanema – convite ao carinho,

Leblon – caminho da Barra.

Grande ventre de silêncios,

algas negras que geram

moléculas viscerais,

amniótico líquen,

negro ventre abençoado,

rezai por nós predadores.

Mar perdido por meandros

das praias do Recreio,

lagoas, seios, pântanos,

coxas, restinga de Vênus,

rumo a outros litorais.

Mar de liturgias e orações,

mar essencial, onde navegam

pensamentos e pirilampos,

mar que é rio, mar de rosas,

mar da antropogênese de nós.

OS LENÇÓIS DUNAS

Dentro da praia deserta

Dentro do ventre do mundo

Não durou nem um segundo

Estar nos braços de Rita

Foi num dia de domingo

Um dia não uma noite

A ventania bailava o açoite

Na cabeleira de Rita

De longe divisei o Farol

Que me guiou para a praia

Nos braços de uma sereia

Que tinha o cheiro de Rita

A estrela que me guiou

E me livrou do tormento

Embaçou por um momento

As coxas negras de Rita

E ali mesmo me salvei

Foi um momento divino

Quis o sereno destino

Atracar no porto de Rita

E fui navegando a esmo

Nas dunas alvas dos Lençóis

Ao som das ondas bemóis

Bailava o sorriso de Rita

Sem documento ou celular

Sem passado nem futuro

Vou vivendo a cor do ouro

Na identidade de Rita

Por avenida tenho o deserto

Minha casa eterno oásis

A alma carregada de paz

Respiro o hálito de Rita

Ei meninada corre cá

Me diz quem é tua mãe

Não precisa nem dizer

É tudo escritinho a Rita!

AS ONDAS RECREIO

Entre dois horizontes,

entre o céu e a terra.

Entre quatro paredes,

entre o teto e o chão.

Entre os oito caminhos,

entre o muro e a estrada.

Entre os doze oceanos,

entre a margem e o vão.

Entre quatorze destinos,

entre mim e o amor dela.

Entre dezoito infinitos,

entre a nascente e o mar.

Entre vinte tormentos,

entre o começo e o fim.

OS DIAS MÁGICOS

Braços abertos, correndo contra o vento.

Por que de repente veio essa lembrança?

Só se foi o retrato de um dia da infância,

brincando na areia dura de Olho d'água.

Chorar a vida, se de tudo um pouco eu ri?

Esquecer pequenos amores que não tive?

São sonhos, terra para a lavratura, medos,

plantei-os tais sementes que jamais brotam.

Mas havia o demônio, indômito hóspede,

insaciável, Agnus Dei, libera-me Dominé.

Sobrevivendo à morte e à transfiguração,

arma teleguiada: um coração que explode.

A alegria me alegrou, de tristeza entristeci,

enquanto o tempo disfarça perigosamente.

Enquanto não metamorfosear em calendário,

uma data de nascimento, transporte e destino.

A data na lápide, a citação na enciclopédia,

verbete de biblioteca, livro que ninguém lê.

Postar um comentário