sábado, 26 de janeiro de 2008

7 CANÇÕES


1


CANÇÃO DE TEUS POEMAS

Estes poemas são teus

porque – bem vês – são o espelho

que te reflete inteira:

cabelos, olhos, boca, sopro, pés.

Porque são teus estes poemas,

são a tua sombra.

Estes poemas são teus

porque são teus.

Porque minhas mãos teleguiaste,

corpo e alma psicografados,

aqui e na distância.

Estes poemas são teus

porque sugerem primavera

quando não é primavera,

porque vieste verão abrasador.

São teus estes poemas porque

vários outonos alegraste,

são teus estes poemas,

somente teus...


2


CANÇÃO DAS DUNAS ESTELARES

Sardas são estrelas.

Teu corpo é a Via Láctea

salpicada de sardas.

São dunas de areia

as alvas ondulações estelares

desse corpo.

Desafios exigindo sabenças

as reentrâncias.

Leitosos caminhos cósmicos

desafiam o amante venturoso.

Sardas são estrelas, astros, sóis,

pontos minúsculos de universo

para sempre incógnito.

Teu corpo salpicado de sardas,

ponteado de alvas ondas estelares,

reentrâncias como desafios,

convida o venturoso amante.

(Colher uma a uma

as estrelas,

com os lábios apagar sardas,

deslindar o sabor lácteo

que as reentrâncias exalam).

Saber a sal o sabor da pele,

dos lábios salpicar de novo,

repor uma a uma as sardas todas

em seus devidos lugares.

Via Láctea chamuscada de sardas

que são artes estelares –

reproduzindo o trimilenar mistério.

Miríades de sensações:

teu corpo tem estrelas.

3


CANÇÃO DOS PÉS ROLIÇOS

Beijo teus pés com fervor

pois até mesmo eles têm

uma sensualidade própria.

Beijos teus pés roliços

e os dedos macerados

pelas sandálias ao caminhar.

Beijo teus pés com fervor:

pés como plantas

onde a raiz do desejo humano

nasce, atraca, cresce e fulge

como voraz trepadeira.

Beijo teus dedos roliços

e os pés redondos marcados

pelo calçado no caminhar.

Beijo teus dedos com fervor,

beijo teus pés redondos

que sustentam alvas colunas

de leite e mel.

Convidam para ir além,

muito além.

Beijo teus pés com fervor,

beijo teus dedos esmaltados,

vermelhos, muito rubros.

Beijo os tornozelos,

roliços como favos,

com muito ardor.

Beijo teus pés,

beijo teus dedos roliços

com o mais solene fervor!

4


CANÇÃO DAS OITO NINFETAS

Ayuara dos sóis,

cabelos flamejantes,

tuas lavaredas envolvem

e lambem os que te cercam

e decerto amar te desejam.

Boiaçu dourada,

olhos diamantinos,

lapidados, faiscantes,

brilho de lâmina nascido

que fere, corta e cega

os que volteiam teu corpo.

Janaína dos rios,

turmalina da gema

das minas gerais,

teu corpo entrelaçado

por tão longos cabelos

emerge das águas e colhe

humano escravo garimpo.

Mãe D’água encachoeirada

do verde das matas

fundos torpedos brilhantes

miríficos que enfeitiçam

os que desejar-te ousam.

Sereia dos lagos

de pelos oirados

ou louros trigais,

acarinham, abarcam,

aprisionam, matam,

de amor? de desejo? –

tão pobres mortais.

Sirena marinha

espumante (ou áspera?),

areia, braços tentáculos,

seqüestram à morte

corpóreos navegantes

perdidos a vagar.

Uiara das luzes,

miraculosa luminosidade,

laser ultrafulgurante,

a luz clareia corações,

almas desencarnadas,

epidermes em clarões.

Yara planetária

fulge das entranhas

a terrenal existência,

a redimir os seres

de humilde magnificência

nos céus, nos ares,

pecadores de amor e febre,

desejos e mais... e mais...

5


CANÇÃO DOS OLHOS LÍQUIDOS

Esses olhos mais que líquidos,

de transparência infinita,

olhos de pedra preciosa

que me fitavam em fuga,

faiscando as pedrarias.

Mãos rudes de garimpeiro.

esses olhos trespassados

de liquidez sem fundo,

olhos gemas verdadeiras,

(e não quinquilharias...).

Águas profundas em cor,

espaço e tempo indefinidos,

esses olhos preciosos,

esmeralda-do-brasil.

Olhos mineradores

de lavra descomunal,

perscrutadores, devassantes,

microvisão essencial.

Esses olhos preciosos,

olhos líquidos trespassados,

etéreos, vãos,

gemas a garimpar,

de transparência sem fim.

Olhos capazes de amar,

esses olhos, bem sei,

olhos de água e punhal

pertencem somente a ti.

Esses teus olhos líquidos...


6


CANÇÃO DO PÚBIS DOURADO

Sopro teu púbis dourado,

louro trigal.

Ao redor, fios de ouro.

rios de leite,

do mais puro alvaiade.

Brancura de algodão,

nuvens leves da tarde.

Sopro teu púbis sonhado

e os pelos de ouro fremem

como trigal ao vento.

Rios de leite,

brancura do mais branco.

Correm teus vales róseos,

alvura de alma inocente.

Ao redor,

no ventre, nas coxas,

fios de ouro cintilam repousados.

Rios de leite,

linho tecido cru,

mistura de todas as cores,

alvura do mais alvo branco.

Sopro teu púbis eldorado:

o sopro morno acorda

para o amor.

Ao redor – ouro –

nas entreabertas pernas

fios dourados cintilam

úmidos de sereno suor.

Beijo teu púbis alado,

beijo o trigal, beijo a flor...

7


CANÇÃO DE ALGUMA ETERNIDADE

(Ficaria ao infinito aquele dia

prisioneiro da lembrança

presente, passada, futura,

do que foi te conhecer).

Poderia cantar hoje e eternamente

o prazer de ter-te conhecido.

Poderia cantar a madrugada

da tua aurora luminosa

como um sol amanhecido.

Poderia cantar a tarde,

o ocaso dos cabelos brasidos.

Poderia cantar o pôr-do-sol,

o lusco-fusco do olhar esmaecido.

Poderia cantar a noite escura

refúgio do teu corpo adormecido.

Poderia cantar toda a paixão

que tua presença me teve oferecido.

Por isso trouxe a saudade

e o silêncio obstinado

do teu olhar fundo e quente.

Trouxe o aconchego desesperado

da tua boca – ferro em brasa –

desse sorriso descarado...

Do teu corpo impaciente

trouxe o desejo incendido.

Dos teus seios pequeninos,

um minuto muito excitado.

Das tuas pernas e pés

trouxe a carícia redobrada.

Do teu sexo feiticeiro

o gozo em vão derramado...

(Amaria ao infinito o momento

passado, presente, futuro,

prisioneiro da esperança

de um dia te pertencer).

Rio de Janeiro, set/out de 1987

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