domingo, 5 de agosto de 2007

VITO PENTAGNA

Piracicaba-SP (1914) – Valença-RJ (1958)

Poeta, diplomado em Direito. Livros: “Três Momentos de Poesia” (1939), com Augusto de Almeida Filho e Amiar Fares e “Poemas” (1978).

“3/jun/54: Vito Pentagna lê alguns de seus poemas, que me parecem excelentes. Todos eles misteriosamente entrelaçados, com certa pompa de expressão ligeiramente fora da moda, e que traduzem tão bem sua curiosa personalidade, aliás das mais autênticas, das mais ‘vivas’ que tenho encontrado ultimamente. Tudo que o cerca, móveis, cortinas, livros e objetos de adorno, lembra esse gosto um pouco rebuscado e fora de uso que exprime o mundo secreto de um homem realmente sensível – e revelam o artista até seus menores detalhes. Não creio que seja estritamente um poeta, mas um romancista também. A qualidade de sua inteligência, seu Dom de analisar e compreender, fazem suspeitar a presença de um criador de tipos, amadurecido e grave, que ainda não ousou encetar a grande tarefa que provavelmente o espera.”

Lúcio Cardoso – “Diário Completo”


“Não foi só através do inesquecível livro de Maria Helena Cardoso “Por Onde Andou Um Coração”, que ouvi falar em Vito Pentagna: ela própria, antes de me dar uma cópia do original para eu ler, já tinha me falado desse amigo, que deixara em sua vida a marca das grandes amizades. (...) O conhecimento de Vito me levou à Valença, a querer conhecer Léa, sua única irmã e a perscrutar a casa dos Pentagna, na tentativa de descobrir em cada objeto – principalmente em seu escritório, que permanece com a mesma disposição com que ele o deixou – o toque de sua mão de dedos longos e alvos. (...) Eu li estes poemas no silêncio largo de sua casa em repouso – e ao mesmo tempo em que me sentia privilegiada por travar conhecimento com um artista que conseguia dizer, em sua poesia, aquilo que eu ainda não consegui exprimir em prosa, já começava lamentar que tantos – quase todos! – não conhecessem estas páginas, cuja inarredável destinação é o leitor.”

Maria Alice Barroso – “Em Busca de Vito”


“Salen, por fin, a la luz estos versos que durmieron casi veinte años... No, no es esto: no puede decir que salen a la luz porque no se someten a ella. Su sombra, invulnerable, irrumpe com brillo de azabache, por entre la claridad que la acata... Veinte años, es cierto, pero tampoco puedo decir que durmieron porque estos versos son el clamor del insomnio. Clamor, no lamento, pues no hay en ellos quejido lastimero: son como la voz de la campana, que vibra com toda su materia herida y da la nota justa, dobla com la medida correspondiente al mazo que la golpea... Justeza, reflexión especulativa en el espejo negro del insomnio, tan opuesto al color de la vigilia, pero no menos riguroso... (...) ahora, aquí, en este caso, antes estos versos no es un empeño de análisis crítico lo que me acucia, es el conocimiento de su origen, el haberlos visto brotar en su fuente cuando, antes de ser versos, palabras rimadas, pulidas y tendidas sobre un papel, eran sonrisas o miradas brotando del hontanar humano: eran chispas del pedernal de la mente, duras, brillantes, súbitas ideas... (...) No pretendo explicar nada: los poemas están ahí – una presencia íntegra, para el que sepa leer. Misterio de la persona.

Rosa Chacel – “Vito en Mi Recuerdo”


POEMAS


OS NOTURNOS


(II)


Fiquei só ao relento por um céu de extermínio,

entre nuvens esparsas, sob astros impacientes.

As palavras soavam de uma urgência remota,

estes frutos distantes, estes frutos tão próximos.

Quantas árvores altas quando soa o abandono,

quanta voz sem garganta, quando eco sem muro.

um ladrar já sem cão, numa estrada poeirenta.

Tanta luz de fantasma enche o espaço noturno,

tanta luz que se move sinalando o perigo.

O que arde não sei, assim só, ao relento.

O que arde, o que punge, o que fere, o que mata.

Eu só sei que estou só, e esta noite me guarda

não sei mais que promessa, não sei bem que ameaça.

Que importa um peito a arfar descompassado,

um coração que insiste,

que pulsa, ruminante, inquieto,

desejos, e tormentos, e ânsias vãs?

Um puro estar, inerte, bloqueado

sob a pendente ameaça deste gume

na infinita abóbada do vazio.


(III)


Medidas de contemplação, - Aurora –

Ocaso. Duplos pesos paralelos.

Cinco portas do corpo, cinco chagas,

habitantes do túnel, testemunhas,

de um crepúsculo a outro partilhando

incessantes pupilas – as estrelas.

Sem pálpebras, sem pálpebras nem venda,

sem pestanas – subsidiárias da noite

complementos, de uma total e plena

conseqüência...

Oh! – Trescalo,

as narinas na sombra te recolhem,

e um sabor nunca provado experimentam.

Mãos que não tocaram e já possuem

vozes bem anteriores à garganta.

Todos os sentidos estão despertos.


OUTRO MOMENTO


Mergulho os olhos no céu de maio,

e penso que breve será noite em tudo.

Não essa noite coletiva e fácil,

em cada alma se contempla e busca

– porém a outra, individual e trágica,

a grande noite sem reconhecimento.

Não sei porque tanta emoção me alcança!

Um corpo só já é tão desolado

que mais não pode outro estar sozinho,

mesmo que as trevas se refaçam plenas

no mais profundo de uma noite, opaca.


OS AFLUENTES


Todos os rios desembocam na noite.

Mar antiquíssimo, ela os recolhe todos,

em promíscuo albergue sem privilégios.

Um murmúrio único soma silêncio e queixa,

misturando antídotos sem indagar origens.

Em solidão bem íntima desabrocha o arroio,

ignora horizontes e sóis, e ventos;

em solo ou entranha, abre caminho e passa,

não importa que águas, que céus bebeu,

quantas estrelas conduziu, flutuantes,

em torno a que árvores campeou sua angústia.

Boca sem pressa ela tritura tudo

em confusa lama – substância e abismo.

É como se um desejo o conduzisse cego,

e a própria fonte já aspirasse à queda,

ao sombrio lagar onde o cansaço e o medo

fermentam um mosto, indiferente, anônimo.


SONETO NÚMERO DOIS


Desde o balcão suspenso sobre o mar,

desde esta alta varanda sobre a vida,

tão alta e solitária, tão perdida

que nenhum eco traz o resfolgar


de peito igual e humano ao peito ímpar.

Contemplo a luz que teima já vencida,

no sangue de sua última ferida,

um doloroso e lento retardar.


Esta tarde não é primeira tarde,

encontro derradeiro, despedida,

desfalecendo à morta soledade.


No entanto, que aderência descabida,

uma carne tão frágil, tão covarde,

que mercadeja o transe da partida!


TÁCITO DE ALMEIDA


Campinas-SP (1899) – São Paulo-SP (1940)


Poeta. Diplomado em Direito, Promotor, participou da Semana de Arte Moderna (1922). Irmão de Guilherme de Almeida. Obra: “Restos de um Assalto” (1917); “O Movimento de 1887” (1934); “Túnel e Poesias Modernistas-1922/23” (1987). Colaborou em Klaxon, Revista Nova e Terra Roxa e Outras Terras.


“Na Paulicéia, pleno 1922, o moço bonito e chique entoa “o claro riso dos modernos”. Seus poemas, porém, permitem a brecha da dor na alegria esteticamente proclamada pela Semana de Arte Moderna e pela revista Klaxon. A marca do século XX, bem nítida em todos os nossos renovadores, vem envolvida em sombras e meios-tons neste poeta que se curva perante o seu sofrer, entendendo-o como reflexo da dor maior e antiga do homem. Aqui está Tácito de Almeida. (...) “Entusiasta do progresso ou amargo perante a sociedade, Tácito é o modernista cultor da frase telegráfica, da polifonia poética à Paulicéia desvairada vazando a simultaneidade, oferecendo sons e barulhos da trilha dos futuristas; cartazes, anúncios luminosos em colagem, intensa movimentação das palavras e dos versos no diagramar dos poemas. Como uma câmera cinematográfica, toma planos grandes e closes, justapondo-os, obrigando o leitor a segui-lo com a fantasia e... com os olhos; a prender o alento, nos destaques em caixa alta. (...) Tácito, apesar do pessimismo e da ironia encanta-se com o ‘mundo claro e radiante’, impregna-se de seus sinais e pergunta, na esteira de Marinetti: ‘Quem irá dirigir os homens?’ (...) concluído o rito de passagem, renascido da dor, Tácito não será um ‘fingidor’.”

Telê Porto Ancona Lopez – “Tácito Tempo de Passagem”


POEMAS


A CANÇÃO DO BARRO


Eu sou feito de barro.


Eu sou uma terra,

sou um globo deformado,

um sol morto, apagado, quase em cinzas,

cinzas que o vento não espalha,

porque estão molhadas...


Eu sou um barro úmido de lágrima,

uma terra que brilha no princípio

de uma noite silenciosa e universal...


Eu sou uma terra...


E a outra velha Terra triste, branca e preta,

malhada as vezes pelos eclipses

ou pelas neblinas grávidas de trevas,

a outra velha Terra triste

é para mim, é para a minha vida

um grande, um belo, um forte sol ardente,

paralisado no poente...


A PEDRA


Sonhos esvoaçantes,

sonhos feitos de restos de névoa...


Sonhos leves,

trapos de nuvens,

trapos de neve,

trapos de gaze,

quase imateriais,

mas a cair pesadamente,

retos e ríspidos,

cortando o vento,

rasgando o azul,

porque envolvem a grande pedra cinzenta da vida!


DESENHO


Vamos vivendo, vamos vivendo...


Não imaginamos como deve ser,

como queremos que seja a nossa vida...


Vamos vivendo, vamos vivendo...


Deixemos que a nossa vida

seja como essas figuras despreocupadas

que a nossa mão vai desenhando sem querer...


Essas figuras que só depois de terminadas

começamos a achar parecidas com alguém...


Vamos vivendo, vamos vivendo...


CARNAVAL


Garotas multicores,

cortinados de confetti...


Ó como os corpos fervem no teu leito, Carnaval!


Os homens...

Máscaras alegres,

máscaras cor de rosa,

máscaras cheias de gargalhadas...


Máscaras brancas, lustrosas,

sobrancelhas muito curvas,

olhos miúdos,

rugas de choro, rugas de lágrimas...


Máscaras de álcool,

máscaras de éter,

geladas como os dentes brilhantes,

como a alegria,

como os braços dos mortos...


Máscaras desvairadas...


Os covardes da alegria


Os medrosos do sorriso...


Máscaras de éter,

para arrancar sem dor a Dor das almas...


O VÍCIO


A noite ergueu no espaço absorto

o espelho morto,

para as almas se comporem...


E a noite é fria,

a noite é ardente!


SOSSEGO


Não há ninguém na cidade pequenina...

Apenas um sol bem amarelo

e uma igreja vermelha, fechada, lá no alto...

E um silêncio mole e cansado...

E um vento bambo e sem volume,

que desce devagar a ladeira

e vem sentar-se no jardim vazio...


E cai uma folha bem verde

da árvore maior sobre o jardim vazio...


VANILDO BRITO


João Pessoa? (1937) –


Livros: “A Construção dos Mitos”(?) ; “Memorial Poético”(?);“Sinal das Horas * Cantigas de Amor para Inalda” – 1987


Sinal das Horas e Cantigas de Amor para Inalda, livro duplo, revelam-nos um Vanildo Brito mergulhado, de corpo e de alma, nas águas fundas de um lirismo assumidamente confessional, de um lirismo em que o eu poético vê-se flagrado nu, nas suas ressonâncias da mais vibrátil sensibilidade. Sem pesquisar as cordilhas míticas da palavra poética, como o fez em A CONSTRUÇÃO DOS MITOS, nem palmilhas a reescritura épica tão bem ensaiada em outros momentos de seu MEMORIAL POÉTICO, interessa a Vanildo, nessa hora – hora assinalada por tantos tons de auras e crepúsculos – o pontear a perplexidade face ao fio do tempo, ao mesmo tempo em que procura destecê-lo, abismado na pacificação do amor conjugal. Amor e tempo, portanto, se conjugam para perfazer a nucleação temática dessa poesia. Trilhando uma dicção que reflete o maturado domínio da composição técnica, a batida e rebatida acentuação de certas marcas estilísticas, o tom clássico da expressão, o léxico adequado, o vasto campo dos volteios imagéticos rico de metáforas, anáforas, sinestesias, etc., o poeta Vanildo Brito vem de ampliar, com esse novo lançamento, as perspectivas estéticas de sua lírica. E o faz como quem anuncia: amadurecer também é renovar-se...:

Hildeberto Barbosa Filho (Contracapa de “Sinal das Horas”)


“Contrariar expectativas previsíveis é o procedimento constante dos poetas. Uma forma de ser com a linguagem que também se faz jeito de estar no mundo. (...) Falar em Vanildo Brito é admitir a necessidade de adotar a peculiaridade dessa perspectiva. E, sobretudo, a impossibilidade de estabelecer, com segurança, a divisão entre um estado que fosse da vida e outro da poesia. Sempre foi assim: meu amigo vive os dois estados, indistintamente, encontrando na confluência dos reais o espaço natural para sua forma característica de ser. (...) Um velho tema da preferência do poeta predomina, como motivação mais forte, na maioria das composições que constituem o SINAL DAS HORAS. O tempo ‘vazio’, ‘esquivo’, ‘sem retorno’, ‘cruel senhor’, ‘desilusão’. Por isso, um livro de consecutivas elegias. Um livro de Outono, pode-se dizer, sintetizando-o no título de seu melhor poema. (...) Fundem-se, portanto, as duas vertentes temáticas do livro. E o amor, integrando dessa forma a ideologia da obra, está a salvo do referencial. É mito e resistência contra ‘um tempo vazio, carcomido/Pelo estigma da dor e da tristeza’.

Ângela Bezerra de Castro – “A Esperança Inventada”


POEMAS


ELEGIA


Quando nublou-se o lume do meu sol

E se tornaram alvas minhas têmporas,

Tardo os passos, húmido o semblante,

Vi a face do tempo em cego espelho.

Não era o fulvo e maturado tempo

Que se mirava nos meus olhos baços,

Mas um tempo vazio, carcomido

Pelo estigma da dor e da tristeza.

Diante do abismo da implacável morte

Em vão busquei o constelado espaço

Mas os de outrora fulgurantes astros

Sobre minha cabeça escureceram.

As terras percorri e os horizontes

Do aberto mar em sonhos desatados.

Escuro via apenas, se é que via

Alguma coisa em meu olhar opaco.


Eis que me fico. Sobre as derribadas

Faces, a névoa das ardentes lágrimas.

Depois secam-me os olhos. E me sinto

Esvaziado ante esse tempo nu.

Por fim me calo. E permaneço quedo

E escurecido, náufrago rochedo

Nos desvãos desse mar emparedado,

Até que venha a sempiterna face

Redimir-me da sombra que me cerca.


O ENIGMA


Das minhas horas um enigma de suspende

Como sinal ou estranho presságio.

As coisas continuam como dantes

Girando em suas invisíveis órbitas.

As árvores e as paisagens, os homens e as cidades,

Constróem sem lacunas os seus fixos calendários.

E suspenso das minhas horas

O enigma mantém-se imutável

Como sinal ou maligno presságio.

Não tem forma nem cor, ou seiva ou sangue.

Mas é tão ameaçador em sua implacável presença,

Que um dia eu hei de destruí-lo

Com as minhas mãos em fúria.


ELEGIA/III


Eu não posso esquecer a voz das antigas faces

Iluminadas de mistério.

Elas sempre retornam como espelhos

Onde a alegria se reflete.


Eu não posso esquecer as límpidas paisagens

Nem as quietas ruas

Nem o fluir das esgarçadas nuvens

No lento céu sem máculas.


Eu não posso esquecer as presenças redivivas

Que chegam de repente como asas silenciosas

Sobre essa tarde fugidia.

Elas me chegam com a pura luz de que se vestem

E são tão fortes em suas cores e semblantes

Que pressinto que ainda vivem noutros tempos e lugares.

(É por isso que suas imagens ecoam

no meu coração em chamas).


Eu não posso esquecer essas lembranças

Pois começo a viver entre elas,

E entre elas já começo edificar

Minha morada definitiva.


CANTIGAS DE AMOR PARA INALDA


SEXTA


Inalda, vê que tudo é maduro e que o sol

Desta tarde já doira e tramonta.

A areia do tempo escoa

Por entre a noite dos nossos dedos.

É preciso reter da vida a chama

Nem que seja na memória ou pelo sonho

Antes que venha o grande esquecimento.


Vê que as paisagens já não são as mesmas;

Vê que esmaecem, lentas, as lembranças;

Vê que os rostos não têm a mesma luz.


Somente o céu continua como sempre

Na solidão da sua côncava distância.

Somente o céu e o nosso amor

Perene e forte no seu destino.


OITAVA


Com teu amor eu exorcizo as sombras;

Com teu amor eu ponho asas sobre as pedras;

Com teu amor eu reconstruo o próprio tempo.


Podeis morrer, ó flores de setembro!

Podeis partir, ó salitrados centos!

Não vedes que encontrei o meu refúgio,

O porto em que me ancoro e me acalento?


UNDÉCIMA


Quando eu te conheci, mal florescias:

Eras ternura pressentida apenas,

Recém-vinda das águas do mistério.


Quando eu te conheci, eras silêncio

E palavra de amor nos lábios presa,

E gestos esboçados e promessas.


Mais tarde, quando a ausência te levava,

Eras perene imagem de alegria

Na esperança de ver-se renascida.


Agora eu te reencontro como quem

Ressuscita depois de um negro sono.

E és a excelsa presença que dos longes

Do destino chegou feito um milagre.


VIOLETA FORMIGA


Pombal-PB (1931) – Idem (1982)


Poetisa, contista, cronista, diplomada em Filosofia. Participou em várias Antologias e movimentos, colaborou em diversos jornais e revistas. Livros: “Contracena” (1982); “Sensações”(1984).

POEMAS


LUA CHEIA


Ancorar

no espaço

feito nuvens

e estrelas.


Você diz que

me ama,

é lua cheia.


AMOR


Na instância

do desejo

executo um ato

secreto

de paixão e medo.


TORMENTO


Perdida é a noite

que os homens

se calam.


Pois deste silêncio absoluto

absurdo

se derivam todas as trevas.


SOÇOBRO


Naquela casa

a noite chega mais

cedo

do que normalmente

se espera.


Há morcegos passeando

na mangueira,

fazendo pousadas

nos quartos

procurando

seu olhar

tão peculiar

às feras.


O branco das paredes

já não faz lembrar

pureza

ou coisa semelhante.

Confunde os passageiros

o preto das desgraças

ou tristezas

de abandonados

cemitérios.


As flores dos jambeiros

não florescem

como antes.

perdem a cor, o sabor

e apodrecem prematuramente

verdes

porque naquela casa

enigmas de sonhos

e mistérios

habita agora um único

ser.

Estranhamente

maléfico.


ARENA


Entregar-me

sem limitações

do verbo

ou da cena.


Você existe

na plenitude

totalizante

do poema.


BACELAR VIANA


São Luís-MA (1938) – Idem (1982)


Alfredo Luiz BACELAR VIANA, nasceu em São Luís do Maranhão no dia 23 de dezembro de 1938. Ingressou na Faculdade de Medicina em 1960, fez curso de psiquiatria no Rio de Janeiro, professor de psicopatologia e clínica psiquiátrica, Presidente da Associação Maranhense de Psiquiatria. Poeta, ensaísta, membro da Academia Maranhense de Letras, filho do também Acadêmico Fernando Viana. Livros: “Elegia da Rosa” (poesia); “Três Evocações” (ensaios); colaborou em diversos jornais e revistas.


“Existe um sentido profundo nas obras póstumas. É que na verdade são obras feitas em vida, apenas publicadas post mortem. No caso de Clamor de São Luís, encontramos os poemas da última etapa vivida na terrena peregrinação de Bacelar Viana. Representam, portanto, o grau mais avançado da evolução literária a que chegou o poeta de “Aula da Saudade”. (...) Bacelar Viana não é um poeta hermético, à semelhança do Nauro Machado de “Testamento Provincial” ou da Adalgisa Nery de “Mundos Oscilantes”. Bacelar Viana é transparente como as fontes de seu cantar. Porque para ele estrela é estrela, pedra é pedra, amor é amor. (...) Claro que o tema São Luís não podia faltar em poeta que assumiu conscientemente sua condição de maranhense. Ao lado de Dagmar Desterro, de José Chagas, de Bandeira Tribuzi, de Carlos Cunha, de Nauro Machado, de Evandro e Ivan Sarney, de Odylo Costa, de Luís Augusto Cassas, Bacelar Viana integra a plêiade dos cantores desta urbe feiticeira. Contudo, em Bacelar Viana a formação do médico direciona o paladar do poeta. É que ele não abre os olhos nem estende os braços para as sacadas e telhados e azulejos e mirantes da cidade (en) cantada. Em Bacelar Viana o humanista contempla, impotente, o desamor destrutivo de uma miragem, e com isto submerge na nostalgia de estrofes que não cantam a arquitetura, porque a força antropológica lhe parece mais vibrante. Mais do que os sobrados, quem neles vive e morre torna-se a inspiração para “Clamor de São Luís”. (...) Sem dúvida Bacelar Viana inscreve-se entre os poetas maranhenses que mais dramaticamente enxergaram e denunciaram todas as frentes de miséria nesta cidade tão cantada por tantos.”

João Mohana – “O Poeta que Voltou das Morte”


POEMA


CLAMOR DE SÃO LUÍS


Não que não a ame, não, não, não e não...

Amo-a, sim, com a alma trespassada

De muitas dores e muitos desencantos.

Revolta-me pressenti-la estertorosa,

Envelhecendo qual velha prostituta

Na sombra gordurosa dos bordéis.

Amo demais esta cidade velha

Que se desfaz de muitas de suas graças

Para acompanhar os passos lestos

Do Tempo deletério e molestoso.


Vejo-a perder o encanto de suas faces,

A fagueirice risonha de seus gestos

Que ora se perdem nos sórdidos ruídos

Que escapam dos intestinos podres

E dos ventres rotundos, saciados

Do consumo voraz e antropofágico,

Cujos dejetos correm pressurosos

Para adubar a miséria periférica

Que circunda a cidade, quais correntes,

Agrilhoando a alma primitiva

Da gente genuína e inconspurcável.


Olho-a desfigurada, agônica e inquieta,

Sem tempo pra vagares cismarentos,

Envolvida no vórtice da Máquina

Que a quer trepidante e produtiva,

Gerando rosto sem nome e sem passado,

Mãos afanosas que obedecem cérebros

Manipulados pela Nova Ordem

Cujo lábaro de fogo é o Rei Dinheiro

Que se encastela nos bolsos infindáveis

Da infinitésima parcela dos barões.


Pressinto-a muda e desfigurada,

Sem sinos jubilosos, sem girândolas,

Tecnicalizada, cibernética,

Triste, triste, cada vez mais triste,

Sem poder beber a água do Anil,

Sem poder tomar banho no Bacanga,

Sem poder morder a polpa sumarenta

Das mangas, sapotis e dos cajus.


São Luís, São Luís, o que fizeram de ti?

Os ventos mornos do Atlântico

Não passam mais por aqui,

Não trazem o beijo e o abraço

Do africano sedento

Cujo canto morno e lento

Embalou o sonolento

Verão tupi-guarani.

As aves pancoloridas

Não mais povoam as ribeiras,

Seus trinos já se perderam

No rumor das avenidas,

São vidas, são muitas vidas

Que não vivem mais aqui.


Onde estão as procissões,

O som macho dos rojões,

As festas embandeiradas,

As grandes saias rendadas,

Verdes, azuis, encarnadas,

Vestindo moças brejeiras

Sapecas, namoradeiras,

Escondidas nas varandas,

Cumprindo alegres cirandas

Ao bom compasso das bandas

Do coreto da Matriz?

- Onde é que estás, São Luís?


Onde está o povo bravo,

Heróico no desagravo

Da afronta e do desrespeito?

Onde está o nosso irmão

Que herdou do Bequimão

A coragem e o destemor,

Que levantava a sua voz,

Que enfrentava o poder,

Que pagava com seu sangue

O direito de dizer?

O que é que teu povo diz

Nestes dias, São Luís?


Mui heróica e leal cidade santa,

Estás desfigurada e diferente.

És uma contrafação estranha e dolorosa

Da outrora mimosa capital.

Corre em tuas veias sangue novo

E os germes do progresso a todo custo.

Copias com desfaçatez incrível

Os modismos danosos de outros povos

E não te deitas mais à sombra plácida

Das palmeiras impávidas e indomáveis.

São Luís, São Luís, faze um confiteor, Princesa,

Pára um pouco pra pensar.

Não te enredes na trama

Dos que te querem mudar.

Mantém tua alma intocada

Não te deixes conspurcar.

Tens de crescer para todos,

Não te deixes enganar.


Querem transformar tua beleza

Em algo mecânico e deformado,

Engordam os teus núcleos de miséria

E drenam do teu sangue envenenado

Os sórdidos valores alienados

Que se transferem para as bolsas gordas

De insensibilíssimas figuras

Que cospem e escarram nos teus monumentos.


São Luís, São Luís, cidade amada,

Solarenta pousada à beira-mar,

É com a alma triste e dilacerada

Que entôo esta canção pra te acordar.

Acorda desse horrível pesadelo

Em que te querem pra sempre acorrentar,

Arranca de teu peito o escalpelo

Que pretende tua alma dissecar,

Revolta-te, enfurece-te, ouve o apelo

Dos teus filhos que querem te salvar.


JOAQUIM ITAPARY


São Bento-MA (1936) –


Poeta, cronista, ensaísta. Político, advogado, formado pela CEPAL (ONU), desde moço se envolveu com os problemas culturais da sua terra. Membro do Movimento Nacionalista Acadêmico, Líder universitário. Diretor do “Jornal do Povo”, sob a direção de Neiva Moreira, diretor de “O Combate”, “Diário da Manhã” e “O Estado do Maranhão”. Fundou a revista “Legenda”, com Bernardo Almeida, Reginaldo Teles, Ubiratã Teixeira, Yêdo Saldanha, Antônio Almeida e outros. Conduziu o programa de revificação das artes populares através da SUDEMA, responsável pela reedição da bibliografia básica sobre o Maranhão. Joaquim Itapary foi Secretário-Geral do Ministério da Cultura e elaborou o projeto que resultou na Lei Sarney de incentivo à cultura, sob a orientação do Ministro Celso Furtado. Chefiou a delegação brasileira no Comitê Interamericano de Educação, Ciência e Cultura na OEA (Washington). Membro da Academia Maranhense de Letras. Livros: “Do Incerto Ócio” –1989 (Poesia); “História da Fábrica Rio Anil” (História); “Crônicas”(?)


POEMAS


FRUSTRAÇÃO

Com macia seda e tecido nobre

teci meus sonhos vendo o infinito

mas outras mãos vestiram-me do cobre

de cacos de luas e ruinoso grito.


O outro que me quis olho na vigia

dos porões de naus que não navego

metamorfose me incompleto todo dia

e à diversa geometria me entrego.


Pesa-me o processo mudo na carteira

o parecer concebido sem proveito

letal rotina que pela vida inteira

mata o espírito e massacra o peito.


Desato o nó górdio e no cabide ponho

inútil gravata algoz do meu pescoço

porém a vida que perdi e sonho

é tenaz quimera do meu tempo moço.


VERDE PAZ


O dia sobre o tempo sobe

e verde invade meus olhos;

planta profundas raízes

nas entranhas do meu ser

nutrindo-me de paz e clorofila.


HOLOCAUSTO


Homens na terra no céu máquinas

estralam o estrepitoso orbe

rosas fumorosas desabrocham

fragorosamente rubras infragrantes.


Rápidos raios soldam o horizonte

em sólidas linhas ao orco escarlate

e assoma rubra à abrasada litosfera

a massa mineral de magma ebulido.


Esvai-se a vida verde e breve

em voraz ciclone de ar quente

por imenso esôfago de amargura.


Caminho humano de viscoso piso

findo fervente em cáustico cadinho

fornalha da orbívaga aventura.


CONTRIÇÃO


Eu pecador contrito me confesso

de joelhos sobre lisas cantarias

bato no peito e pecados meço

cometidos em ti noites e dias.


Cubro a cabeça e em solenidade

busco o perdão de ruas e janelas

lavo o espírito nas fontes da cidade

virgem de cal azeite e pedras belas.

VIDA


Onde está a densa tristeza

que tanto em mim demorava,

ígneo punhal do peito dentro,

qual noite de negro ônix?

Levou-a da madrugada a chuva,

tornou-a orvalho nos rebentos verdes,

pérolas de prata na bruma da manhã,

colorindo flores no jardim do dia.

Lavar-me nesse orvalho devo agora,

banhar meu rosto nas gotas do relvado,

plantar mil árvores para proteger-me

do duro sol da humana iniqüidade.

Ao fim do dia a casa regressar,

Íntegro, integralmente alegre,

do despropósito da tristeza certo,

que apesar da vida a vida vale

e vale mais que o pesar da vida.


LEANDRO GOMES DE BARROS


Pombal-PB (1865) – Recife-PE (1918)


O maior dos poetas populares, que nós chamamos de cordelista. No entanto, situar Leandro Gomes de Barros simplesmente entre cordelistas é negar a existência do poeta dentro do poeta. Com efeito, Leandro teve o cuidado de entremear histórias populares com poemas de feição erudita, o que fazia muito bem. São poemas geralmente de feição satírica, beirando o absurdo mas sem perder o lirismo. É fato corrente entre poetas de cordel, devido a exclusão a que são submetidos, mostrar que têm conhecimento da poesia culta. Assim, não perdem oportunidade de mostrar talento e esmero nas composições chamadas eruditas.


“Em 1913, certamente mal informados, 39 escritores, num total de 173, elegeram por maioria relativa Olavo Bilac príncipe dos poetas brasileiros. Atribuo o resultado a má informação porque o título, a ser concedido, só podia caber a Leandro Gomes de Barros, nome desconhecido no Rio de Janeiro, local da eleição promovida pela revista Fon-Fon!, mas vastamente popular no Norte do país, onde suas obras alcançaram divulgação jamais sonhada pelo autor do “Ouvir Estrelas”. (...) E aqui desfaço a perplexidade que algum leitor não familiarizado com o assunto estará sentindo ao ver defrontados os nomes de Olavo Bilac e Leandro Gomes de Barros. Um é poeta erudito, produto de cultura urbana e burguesia média; o outro, planta sertaneja vicejando à margem do cangaço, da seca e da pobreza. Aquele tinha livros admirados nas rodas sociais, e os salões o recebiam com flores. Este espalhava seus versos em folhetos de cordel, de papel ordinário, com xilogravuras toscas, vendidos nas feiras a um público de alpercatas ou de pé no chão. (...) A poesia parnasiana de Bilac, bela e suntuosa, correspondia a uma zona limitada de bem estar social, bebia inspiração européia e, mesmo quando se debruçava sobre temas brasileiros, só era captada pela elite que comandava o sistema de poder político, econômico e mundano. A de Leandro, pobre de ritmos, isenta de lavores musicais, sem apoio livresco, era a que tocava milhares de brasileiros humildes, ainda mais simples que o poeta, e necessitados de ver convertida e sublimada em canto a mesquinharia da vida. (...) Não príncipe de poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão, e do Brasil, em estado puro.”

Carlos Drummond de Andrade - Leandro, o Poeta (Jornal do Brasil, 09/09/1976)


“Poetas populares! Eis uma terminologia que por sua generosidade e propósito de designar a parte com o nome do todo gera ambigüidades. (...) Com a vivacidade e senso de humor de Leandro Gomes de Barros, só podem ser encontrados similares nos grandes poetas Firmino Teixeira do Amaral, Manoel Vieira Paraíso, José Adão Filho, cujas obras se perderam quase completamente, delas restando pequena amostragem. É preciso levar em conta que a métrica, a rima e o senso de humor faziam o poeta beber mais nos versos do que na realidade. Câmara Cascudo descreve-o com precisão: ‘Baixo, grosso, de olhos claros, o bigodão espesso, cabeça redonda, meio corcovado, risonho contador de anedotas, tendo a fala cantada e lenta do nortista, parecia mais um fazendeiro que um poeta, pleno de alegria, de graça e de oportunidade’. Espírito crítico, não deixava escapar uma oportunidade [para exercê-lo]. Viu e retratou numa “Ave Maria”, com deliciosa mordacidade, o processo eleitoral de seu tempo.”

Átila de Almeida-José Alves Sobrinho – Dic. Bio-bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada


“Leandro Gomes de Barros foi o epítome do poeta popular do Nordeste. Foi não só um dos primeiros a escrever e imprimir folhetos que incluíam o melhor da tradição oral, mas também o mais prolífico dos poetas populares. É, porém, a qualidade mais que a quantidade de folhetos que lhe dá posição saliente entre os poetas populares. É reconhecido por colegas, poetas contemporâneos e estudiosos como o melhor dos poetas populares. Embora escrevendo todo gênero de folhetos, seu forte era a sátira. (...) Sua originalidade, seu humor, e especialmente a sua sátira, vistos no comentário social, fazem de seus folhetos obras-primas. (...) É o comentário social que representa o melhor de sua obra. Como os outros poetas populares, ele devia sentir um desejo e mesmo uma obrigação, como poeta do povo, de criticar a falta de justiça daquela época, e de oferecer soluções, embora muitas vezes jocosas ou pessoais, para os problemas da sociedade.”

Mark J. Curran – A Sátira e a Crítica Social na Lit. de Cordel


POEMAS


A TARDE


Tomba a tarde, o sol baixa seus ardores,

Alvas nuvens no céu formam lavores

E a voz da passarada o campo enchendo:

O juriti em seu ramo de dormida

Soltando um canto ali por despedida,

Dando adeus ao sol que vai morrendo.


E mergulha o sol pelo ocaso,

Já o dia ali venceu o prazo,

Abrem flores, o orvalho em gotas vem;

Limpa o céu, o firmamento se ilumina,

Uma luz alvacenta e argentina

Já se avista no céu, mas muito além.


Regressam do campo lavradores,

Apascentam os rebanhos os pastores,

E o mundo fica ali em calmaria;

A matrona embala o filho pequenino

E prestando atenção à voz do sino

Quando dobra no templo a Ave-Maria.


Vem a noite, dormem ali as cousas mansas,

Dormem qu’etos os justos e as crianças,

E a Virgem envia preces à divindade;

A velhice recorda arrependida

Todo erro que fez em sua vida

E murmura: Quem me dera a mocidade.


AVE MARIA DA ELEIÇÃO


No dia da eleição

O povo todo corria,

Gritava a oposição

Ave Maria!


Viam-se grupos de gente

Vendendo votos na praça

E a urna dos governistas

Cheia de Graça.


Uns a outros perguntavam:

- O senhor vota conosco?

Um chaleira respondeu:

- Este o Senhor é convosco.

Eu via duas panelas

Com miúdo de dez bois,

Cumprimentei-as dizendo:

Bendita sois!


Os eleitores, com medo

Das espadas dos alferes,

Chegavam a se esconder

Entre as mulheres...


Os candidatos andavam

Com um ameaço bruto,

Pois um voto para eles

É bendito fruto.


U mesário do Governo

Pegava a urna contente,

E dizia: - Eu me gloreio

Do vosso ventre!


SE ALGUM DIA EU MORRER


Preveni a todos cá de casa,

Por acaso um dia eu falecer,

É favor ninguém chorar perto de mim,

É caipora com zoada se morrer.


Ataúde, se alguém quiser fazer,

Não precisa de madeira delicada,

Eu prefiro as tábuas da vasilha

Onde bota-se aguardente imaculada.


A mortalha também isso dispenso,

Água benta no cadáver nem um tico,

Antes quero uma freira inda moça

Que me exorte cantando o mangirico.


Não precisa de frade, preveni,

Para que quero eu esse prefácio,

Eles andam com cordões de S.Fº,

Amarrem com eles a mãe de Inácio.


E também não quero freira,

Toda vida não gostei de romaria

E não quero que os meus colegas

Digam lá que eu carrego bruxaria.


Digo isso apenas prevenindo,

Não confio na minha mocidade,

Tenho apenas 72 janeiros,

Pouco mais passei da flor da idade.


O ANTIGO E O MODERNO


Quando o velho Santo Jó

Viu-se doente e leproso

No Recife Alfeu Raposo

Mandou-lhe uma fricção,

A mulher dele mandou

Pedir ao Dr. Tomé

Na farmácia São José

O Elixir da Salvação.


Nas bodas de Canaã

Que Cristo fez da água vinho

A Lanceta de Agostinho

Exagerou sem limite

Soares Raposo deu

Carne para lombo e bife

E o Jornal do Recife

Fez os cartões de convite.


São Pedro era pescador

Antes de seguir Jesus

Quando o Dr. Santa Cruz

Tomou conta de Monteiro

Nero Imperador Romano

Mandou um seu paladino

Chamar Antônio Silvino

Para ser seu cangaceiro.


A URUCUBACA


Este ano é o ano da cigarra,

Este século das luzes é tão escuro!

Vejo um rio se encher de sangue puro

E no mar civilizado ir fazer barra.


A miséria com desdém no mundo escarra,

O desastre diz garboso, estou seguro

Já rasguei as vestes do futuro,

E o meu curso de herói ninguém esbarra.


Tenho as chaves da Alemanha em meu poder

O futuro francês hipotecado

E a Rússia aos meus pés há de gemer.


A Inglaterra terá que se render,

A Turquia lamenta o seu estado,

O Brasil é um cão sem dono há de sofrer.



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